quinta-feira, 4 de março de 2010

FIM DO «SONHO DA ÍNDIA»

A 18 de Dezembro de 1961 chegava ao fim a presença portuguesa na Índia, ou melhor, porque ficou ainda muito património, o que chegou ao fim foi a soberania nacional. Contra os ventos da História, Portugal continuava a alimentar o "desígnio" do Portugal do Minho a Timor. Tantos anos depois, um eco na nossa imprensa:

Os jornais e a invasão de Goa
(DN) 2009.Dez.16 | Valentino Viegas*
Foram deturpadas as informações sobre aquela invasão e escondida a verdade ao povo português
Recordar e meditar sobre as questões do passado é mergulhar nas profundezas das contradições do presente. Faz sexta-feira 48 anos que se deu a invasão de Goa, precisamente no dia 18 de Dezembro de 1961.
Hoje, que tanto se questiona sobre a validade dos conteúdos divulgados pelos órgãos de comunicação social, em particular pelos jornais, se alguém pretendesse efectuar um estudo sobre aquele acontecimento, apenas com base nos jornais goeses, dificilmente poderia concluir que Goa viria a ser invadida por tropas da União Indiana, muito embora nos diários de Portugal continental já se desse como certa aquela invasão.
Por ter sido criada essa expectativa, a população metropolitana viveu, com muito maior antecedência do que a goesa, o drama desenrolado na terra onde vi avançar os tanques indianos, porque os seus jornalistas, em vez de respeitarem os sentimentos dos familiares dos soldados e procurarem minorar a ansiedade, a dor e o sofrimento dos seus compatriotas, divulgaram informações falsas sobre a real situação ali vivida.
Foi a partir da tarde do dia 18 que a União Indiana teve o domínio quase total de fontes informativas, pois a emissora de Dabolim havia sido destruída pela aviação e o Aviso Afonso de Albuquerque silenciado pelos seus vasos de guerra.
Como as informações que iam chegando eram de origem duvidosa e suspeita, os jornalistas portugueses começaram a divagar, agarrando-se como tábua de salvação às palavras proferidas pelo governador-geral, general Vassalo e Silva: "Resistiremos até ao fim!"
Neste contexto, no dia 19, o jornalista de O Século não só inventa combates encarniçados durante algumas horas em redor da cidade de Pondá como afirma existirem baixas elevadas de parte a parte, inclusive com aprisionamento de alguns soldados indianos. Não lhe quis ficar atrás o Diário de Notícias e, além de mencionar bombardeamentos imaginários contra a Escola Naval de Goa, o porto e os depósitos de gasolina de Mormugão, escreveu esta patranha inqualificável: "durou oito horas a violentíssima luta que precedeu a tomada de Pangim."
Contudo, depreende-se que o Governo português recebia outro tipo de informações sobre a real situação em Goa, razão pela qual o jornal O Século faz sair uma nota da parte do embaixador português dr. Pedro Teotónio Pereira, desmentindo que "o Governo e as forças militares de Goa tenham deixado de opor resistência", caindo assim em contradição com a mensagem do correspondente da Reuters, Gordon Martin: "Às primeiras horas de hoje, 19, as tropas indianas atravessaram o rio Mandovi e entraram em Pangim, capital de Goa."
O mesmo jornal, no dia 20, sem se importar com a angústia dos familiares do Aviso Afonso de Albuquerque, intitula desta maneira um artigo seu: "Foi para o fundo o Afonso de Albuquerque, que deste modo honrou até ao fim o seu nome glorioso".
E apesar de se saber que o governador-geral tinha assinado a rendição às 14 horas locais do dia 19, noticiou também que havia sido escutado às 15 horas "um posto emissor de Goa informando que prosseguiam encarniçadamente os combates para a defesa de Pangim, a capital".
No dia 20, divulga esta comunicação da Embaixada portuguesa sedeada em Paris: "Centenas de mortos em Goa entre as tropas e a população civil." Em 21, ainda tem o desplante de escrever esta notícia espantosa: "Combates corpo a corpo em que os inimigos foram rapidamente vencidos chegaram a travar os portugueses no seu reduto de Mormugão com marinheiros indianos que tentavam desembarcar."
O criador desta notícia, que devia conhecer o Plano de Operações Sentinela, a ser accionado e posto em prática pelos defensores portugueses em Goa, com base na estratégia ali idealizada, dá vida real àquele plano e cria à sua volta um filme de ficção sobre a guerra, onde os heróis lusitanos não só enfrentam e aguentam um violento assalto por terra como vencem fácil e rapidamente os marinheiros indianos em combate corpo a corpo, depois de meterem a pique as suas lanchas de desembarque.
Uma semana após o início da invasão, incapazes de aceitar a realidade dos factos, os seus jornalistas ainda acreditavam que persistia a luta de guerrilhas.
Em consonância com o seu método de tratamento das informações, no dia 30, sem o mínimo respeito pela vida dos militares portugueses aprisionados em Goa, divulga a nota distribuída pelo gabinete do ministro do Exército, em letras gordas e garrafais, com o seguinte título: "1018 baixas de militares?", quando, durante a invasão do Estado da Índia Portuguesa, haviam morrido 25 militares, dos quais quinze em Goa, sete em Damão e três em Diu.
Como os governantes ainda acreditavam que as ordens emanadas na última mensagem de Salazar estavam a ser cumpridas, do "sacrifício total", ali exigido aos militares portugueses, só podia resultar centenas e centenas de vítimas.
De facto, havia uma perfeita sintonia e uma apurada coordenação entre as chefias dos principais centros de decisão. Em consequência, os canais de comunicação entre o Governo, no seu todo, o Ministério do Exército, em particular, e os jornais, funcionavam a uma só voz.
Em jeito de conclusão, podemos afirmar que, devido à incompetência e irresponsabilidade de jornalistas metropolitanos, foram deliberadamente deturpadas as informações sobre aquela invasão e escondida a verdade ao povo português.
*Historiador

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