domingo, 26 de junho de 2011

Manuais de História

"A História não faz julgamento, antes procura interpretar..." Isto a propósito de

Manuais de História ainda contam o mundo à moda do Estado Novo
(PÚBLICO) 2011.Março.27

Os manuais de História do 3.º ciclo do ensino básico continuam a perpetuar "muitos dos discursos do Estado Novo". São apresentados de um modo "mais subtil e suavizado", mas constituem "um corpo ideológico" que continua a condicionar o modo como se fala do racismo, do nacionalismo e da "história dos outros". As constatações são da investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra Marta Araújo e têm como base uma análise dos cinco manuais de História mais vendidos, em 2008/2009, no 7.º, 8.º e 9.º anos de escolaridade.
Esta análise constituiu o ponto de partida para a investigação Raça e África em Portugal, que Marta Araújo lidera no CES. No âmbito deste projecto, que ficará concluído em Agosto, estão a ser realizadas também entrevistas a historiadores, estudantes universitários, professores e alunos do 3.º ciclo.
"Tentámos ir mais além da identificação das representações dominantes. Sabemos que são estereotipadas, existem imensos estudos que o mostram. Em vez de fazermos mais um, assumimo-los como ponto de partida e fomos antes tentar explorar a ideologia que lhes subjaz e o modo como através desta se naturalizam as relações de poder", explica a investigadora.
Como se conta o mundo então? "Garantindo a presença da Europa no seu centro." "Este eurocentrismo exprime uma pretensão universalizante, através da qual o modelo de desenvolvimento europeu ocidental é adoptado como padrão para avaliar todas as outras sociedades", explica Marta Araújo.
Clara Serrano, investigadora dos Centros de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra, também tem andado à volta dos manuais de História do ensino básico e à semelhança de Marta Araújo constatou que nestes livros " a história universal é estruturada e apresentada a partir de uma perspectiva marcadamente eurocentrista". "A história dos outros continentes é muito pouco leccionada - e, quando é, é-o como efeito secundário do conhecimento de actividades de descobrimento e colonização protagonizadas por povos europeus", explicita. Não é um exclusivo: "É curioso verificar que os próprios manuais dos países não europeus não conseguiram escapar a esta linha europeísta."
Para Marta Araújo, o eurocentrismo como ideologia ganha eficácia "através da despolitização". Por exemplo, a guerra colonial tende a ser descrita "não como uma guerra de libertação, mas sim como uma guerra de guerrilha sem um propósito". Há livros em que as únicas imagens reproduzidas são a de soldados portugueses mortos, uma forma, segundo a investigadora, de reforçar uma narrativa recorrente. "Também a encontramos, por exemplo, nos capítulos da Reconquista da Península Ibérica. E a imagem que se faz passar é que nós, portugueses, fomos forçados a sermos violentos, enquanto eles, sejam angolanos ou mouros, são naturalmente violentos e bárbaros."
É o que está patente nestes trechos apresentados em manuais do 7.º e 9.º ano e que são reproduzidos pela investigadora num artigo publicado na revista Estudos de Sociologia.
Sobre a Reconquista: "No século VIII, os Cristãos viram a sua vida quotidiana - em si bastante instável - ameaçada pela chegada dos Muçulmanos. Em consequência os Cristãos estabeleceram contacto com os Cruzados de outros reinos Cristãos Europeus com os quais reuniram esforços para recuperaram os territórios perdidos(...)."
Sobre a guerra colonial: "Um sentimento generalizado de medo entre os colonos levou-os a matar muitos indígenas enquanto outros fugiram, indo juntar-se aos guerrilheiros. Posteriormente, tribos do Norte de Angola assassinaram centenas de colonos."
"Há sempre um jogo que naturaliza a nossa violência e que esvazia o lado político da luta deles", frisa Marta Araújo.
"Ranking dos colonialismos"
Num manual do 8.º ano explica-se que os portugueses foram para África, porque queriam fazer comércio. O modo como se narra o que aconteceu então e depois acaba por dar corpo a uma espécie de "ranking dos colonialismos". "O racismo é sempre tido como um fenómeno circunscrito e associado aos impérios francês e britânico." As atrocidades ficam sobretudo por conta dos espanhóis. E a nós atribuem-nos uma espécie de "colonialismo suave", uma leitura que, segundo Marta Araújo, voltou a ganhar força nos últimos dez anos.
Com a ênfase europeia no multiculturalismo, Portugal volta a apresentar-se como tendo um papel pioneiro, ressuscitando "o discurso lusotropicalista que foi apropriado pelo Estado Novo" - essa ideia de que os portugueses sempre tiveram melhor capacidade de adaptação a outros povos e culturas. "Nunca se discute o fenómeno do racismo. Ou é tido como um fenómeno circunscrito a outros, ou como uma atitude individual, ou como ligado a situações extremas, como o nazismo", frisa.Não por acaso, acrescenta, na maioria dos manuais não existe uma única referência aos ciganos: "É uma parte da população que desapareceu." Os manuais escolares, sendo um dos principais recursos utilizados nas salas de aulas, "dizem bastante sobre o modo como se ensina a História nas escolas", afirma Clara Serrano.
Existe uma "simplificação" que é potenciada pela extensão dos programas em vigor e a carga horária reduzida atribuída à disciplina. E esta simplificação contribui para o êxito de um propósito, adverte: "Não nos podemos esquecer que os manuais são transmissores de valores que a instituição escolar e, em última análise, o poder instituído pretendem transmitir. Por isso, a escolha da linguagem, do estilo, a selecção dos assuntos e dos textos, a organização e hierarquização dos conteúdos não será de todo inocente."

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Ainda o Coelho, mas ligado à colonização de Porto Santo



Darwin pensava que os coelhos trazidos para a ilha eram domesticados (Carlos Lopes (arquivo)

Na Ilha do Porto Santo os coelhos descendem todos de um só casal
(PÚBLICO) 2011.Jan.31 | Teresa Firmino
O episódio está no livro Décadas da Ásia, de João de Barros, de 1552, em que o historiador relatava os feitos dos Descobrimentos: no navio de Bartolomeu Perestrelo, que em 1419 navegou para a ilha do Porto Santo com a missão de a povoar, seguia "uma coelha prenha metida numa gaiola que pelo mar acertou parir".
Uma vez na ilha, o objectivo era que os coelhos a povoassem e servissem de alimento aos colonizadores. Mas a sua multiplicação foi tal que era impossível cultivar a terra. Roíam tudo, dizia João de Barros. Também Charles Darwin se interessou pelos famosos coelhos do Porto Santo, como mostra a exposição A Evolução de Darwin, inaugurada amanhã, 1 de Fevereiro, na Casa Andresen, no Jardim Botânico do Porto (pode ver-se até 17 de Julho).
No livro A Variação dos Animais e das Plantas sob Domesticação, o pai da teoria da evolução pela selecção natural dizia que os coelhos do Porto Santo resultaram de animais já domesticados. Mas Darwin estava errado, como mostraram os estudos genéticos de Nuno Ferrand de Almeida, do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, no Porto.
"Esta é uma fortíssima prova de que nessa altura – 1419 – ainda não teriam chegado a Portugal as raças domesticadas de coelho", diz Ferrand de Almeida. Os seus estudos genéticos também concluíram que toda a população actual de coelhos do Porto Santo descende de um só casal – pelo que tudo começou com a coelha prenha no navio de Bartolomeu Perestrelo.

DOMESTICAÇÃO DO COELHO


Curiosidade atrás de curiosidade...

Os sinais claros da domesticação do coelho só surgiram a partir de meados do século XV (Punit Paranjpe/Reuters (arquivo)

Cientistas portugueses resolvem o enigmaQuem domesticou o coelho? Os monges da Provença, diz a genética
(PÚBLICO) 2011.Jan.31 | Por Teresa Firmino
É o único mamífero domesticado só na Europa ocidental, e numa fase tardia. A documentação histórica já sugeria o papel dos monges no processo. Tudo porque o papa Gregório I decidiu que os coelhos recém-nascidos não eram carne, pelo que podiam comer-se na Quaresma. A genética confirma agora esta história.
Durante grande parte da sua história, o coelho-europeu, ou coelho-comum, viveu apenas na Península Ibérica e no Sul de França. Hoje está espalhado por quase todos os cantos da Terra, tanto a sua forma selvagem como a doméstica. Mas onde e quando começou a domesticação do coelho? Duas hipóteses têm sido avançadas: tudo terá começado com os romanos na Península Ibérica, há cerca de dois mil anos, ou então terá sido há 1400 anos numa região que actualmente integra o Sul de França e os monges tiveram um papel principal. A equipa de Nuno Ferrand de Almeida, coordenador do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Cibio) da Universidade do Porto, acaba de dar a resposta: foi nos mosteiros da Provença.
O coelho-europeu, ou Oryctolagus cuniculus, o nome científico da espécie, surgiu na Península Ibérica há cerca de dois milhões de anos e é caçado pelos humanos como alimento há milhares de anos. Tem duas subespécies, que no pico da última glaciação, há 20 mil anos, ficaram confinadas a dois refúgios: enquanto a Oryctolagus cuniculus cuniculus habitava em França e no Nordeste da Península Ibérica, a Oryctolagus cuniculus algirus vivia no Sudoeste da Península Ibérica, incluindo o Sul de Portugal.
O primeiro registo que nos chegou da abundância do coelho no Sul da Península Ibérica é dos fenícios, quando vieram até às suas costas há três mil anos, para trocas comerciais. "Viram milhares de coelhos, que confundiram com o damão-do-cabo, que era abundante nas costas das cidades fenícias", conta Nuno Ferrand de Almeida. "Esse registo poderá estar na origem do nome Espanha, que quererá dizer "terra de coelhos": a designação de "i-shephan-im", ou terra de damões-do-cabo, que na verdade eram os coelhos, seria depois latinizada para dar Hispânia, e mais tarde Espanha."
Quando voltavam para sua terra, no Médio Oriente, os fenícios levavam com eles o coelho e espalharam-no pela bacia do Mediterrâneo, por exemplo pelas ilhas Baleares e pelo Norte de África.
Mais tarde vieram os romanos, que se instalaram durante séculos na Península Ibérica, e também levaram o coelho para outras paragens na Europa. "A primeira tentativa de controlar a reprodução do coelho terá ocorrido na Península Ibérica, um século antes de Cristo", conta o biólogo Miguel Carneiro, também do Cibio, e autor principal do artigo com esta descoberta, publicado este mês na edição online da revista britânica Molecular Biology and Evolution.
A partir da ocupação romana passa a haver múltiplas referências aos coelhos. "Uma das mais célebres é a de Plínio, o Velho, na sua História Natural, no primeiro século da nossa era, onde já se refere o hábito de consumir fetos dos coelhos, bem como o facto de produzirem imensos prejuízos na agricultura. Também durante Adriano, um dos mais célebres imperadores romanos - imortalizado por Marguerite Yourcenar em Memórias de Adriano -, circulavam na península moedas com coelhos cunhados na sua face", acrescenta Ferrand de Almeida. "A partir dessa altura há referências permanentes a estruturas belíssimas chamadas "leporaria", que eram cercados feitos de pedras onde os coelhos eram mantidos para serem usados na caça e na alimentação. Há muitos vestígios arqueológicos dessas estruturas. Esta seria uma das hipóteses para a domesticação do coelho ter ocorrido na Península Ibérica."
Carne que não é carne
No entanto, outros registos históricos sugeriam que a domesticação tinha ocorrido mais tarde, por volta do ano 600, nos mosteiros da Provença. A fundamentar esta suposição encontra-se uma decisão do papa Gregório I, que tinha sido monge beneditino, em que considera que os fetos e as crias recém-nascidas de coelho não eram carne, pelo que podiam comer-se durante o jejum da Quaresma. E assim a criação de coelhos difundiu-se nos mosteiros da Provença. "Há muitíssimos documentos históricos que atestam a frequente troca de coelhos entre abadias, e mesmo com países como a Inglaterra. Este processo poderia ter levado à domesticação do coelho e seria uma hipótese de domesticação realizada fora da península, proveniente das populações selvagens do Sul de França", refere Ferrand de Almeida. Tenham sido os romanos ou os monges da Provença, os sinais claros da domesticação do coelho só surgiram muito mais tarde, a partir de meados do século XV. Em iluminuras e pinturas, começaram a aparecer os primeiros coelhos com cores diferentes, desde brancos a avermelhados, em vez da cor parda dos selvagens.
Um dos quadros mais célebres que representa um coelho branco é de Ticiano, Madona e Menino com Santa Catarina, também conhecido como A Virgem do Coelho, de cerca de 1530, que está no Museu do Louvre. "Esses mutantes de cor poderão corresponder a um processo de domesticação já terminado. E a partir daí o coelho doméstico difundiu-se por todo o mundo e teve um sucesso enorme", explica Ferrand de Almeida.
No século XVI, há registos de coelhos de vários tamanhos e cores em França, Itália, Flandres ou Inglaterra, o que sugere que a sua domesticação estava já concluída nessa altura.
Exclusivo da Europa
Mas qual das duas hipóteses para a domesticação do coelho, compatíveis com os registos históricos, está afinal certa?
A equipa Ferrand de Almeida começou à procura de uma resposta na genética, há cerca de uma década, com cientistas de outros países, nomeadamente de França. Já nessa altura os resultados apontavam para os monges da Provença. "Havia indicações genéticas que sustentavam essa hipótese, mas eram muito fragmentadas", diz Ferrand de Almeida.
Agora foi feita uma análise genética mais aprofundada, no trabalho de doutoramento de Miguel Carneiro, orientado por Ferrand de Almeida. Em colaboração com cientistas franceses e norte-americanos, estudaram-se mais regiões no genoma do coelho, comparando-se animais domésticos com populações das duas subespécies selvagens na Península Ibérica e no Sul de França.
O ADN dos coelhos corroborou a história relativa aos monges. "A origem da domesticação do coelho não está na Península Ibérica, mas no Sul de França. Os monges iniciaram a domesticação do coelho que hoje temos em todo o lado, há cerca de 1400 anos. Os nossos dados suportam estes registos históricos", sublinha Miguel Carneiro. "O coelho é o único mamífero domesticado exclusivamente na Europa. Pensa-se que o porco foi domesticado por toda a Eurásia."
A Oryctolagus cuniculus cuniculus, que era a única subespécie presente no Sul de França naquela época, é assim o antepassado directo dos coelhos domésticos. O cenário de um único sítio para a origem da domesticação do coelho contrasta com o que ocorreu com a maioria dos animais - ou foram domesticados em várias regiões, como o cão, ou a partir de várias espécies ou subespécies, como o burro, em África. Em comparação com muitos outros mamíferos, domesticados há mais de cinco mil anos, o caso do coelho também é muito recente. No cão, pelo contrário, tal pode mesmo ter começado há 14 mil anos. Outro aspecto invulgar é o facto de o antepassado do coelho doméstico ainda existir, ao contrário do que acontece noutros casos, como a vaca (os últimos auroques extinguiram-se no século XVII, na Europa Central).
Menos de 1200 animais
E de quantos coelhos selvagens descendem todos os domésticos que existem hoje no mundo? A equipa também pôde determinar esse número, agora que já se sabe quer onde e quando os coelhos foram domesticados (a partir do ano 600), quer quando o processo estava terminado (século XVI). Tendo em conta a diversidade genética dos coelhos domésticos actuais, todos descendem de 1200 animais, no máximo, se a domesticação foi lenta. Ou de apenas 14 coelhos, no mínimo, se foi muito rápida. "Provavelmente foram mais de 14. Terá sido um processo mais lento", diz Ferrand de Almeida. Coelhos bravos e domésticos pertencem à mesma espécie, os últimos apenas se consideram uma população diferente, seleccionada para ter características especiais. Entre essas características inclui-se um comportamento mais dócil e a reprodução ao longo do ano todo, enquanto o selvagem só se reproduz durante quatro a cinco meses. Além das variações de cor, o tamanho do coelho doméstico pode ir dos 800 gramas a dez quilos (o bravo tem pouco mais de um quilo). O tamanho das orelhas também muda bastante.
Hoje há pelo mundo fora mais de 200 variedades de coelhos domésticos, a maioria das quais surgiu nos últimos 200 anos. "Na época vitoriana havia uma paixão pelos animais. Deu-se uma explosão da criação de animais, desde cães, gatos, até canários", realça Miguel Carneiro.
Além de grande relevância económica, o coelho doméstico é muito usado como modelo de estudos em toxicologia, embriologia, osteoporose ou evolução.
Pela sua parte, Ferrand de Almeida vai lançar este ano um projecto de investigação do genoma do coelho com o Instituto Broad (ligado ao MIT e à Universidade de Harvard), nos Estados Unidos, e com a Universidade de Upsala, na Suécia. O genoma do coelho já foi sequenciado pelo Instituto Broad, há menos de dois anos, e agora a ideia é sequenciar genomas de diferentes raças de origens distintas. "Queremos perceber o efeito da domesticação nas diferentes raças", explica o coordenador do Cibio.
Outra coisa que vai estudar-se neste projecto é o caminho evolutivo que as duas subespécies de coelhos estão a tomar. A perda de fertilidade quando ambas se cruzam reprodutivamente é um sinal de que estão a separar-se, pelo que os cientistas podem estudar a formação das espécies em tempo real. "Estão a caminho de se tornarem duas espécies diferentes. É um modelo fabuloso para o estudo da origem das espécies", diz Ferrand de Almeida.
Para os próximos tempos, esperam-se então mais capítulos da história do coelho, que "é tão rica", remata Ferrand de Almeida.

domingo, 12 de junho de 2011

TÚMULO DE CAMÕES NO MOSTEIRO DOS JERÓNIMOS

Mausoléu instalado no Mosteiro dos Jerónimos, atrai atenção de muitos turistas

Ossadas não serão de Luís de Camões
in Correio da Manhã, 2011.Junho.10 | SOFIA CANELAS DE CASTRO

A tese não é nova mas volta agora a ser defendida por Vítor Aguiar e Silva, especialista em estudos camonianos, que diz que, “com grande probabilidade, as ossadas guardadas no mausoléu dos Jerónimos não são de Camões”.
Em páginas referentes a Luís de Camões, refere-se isso mesmo. Após relembrar o rumo do corpo do autor de 'Os Lusíadas' – desde o seu sepultamento, em 1580, na Igreja de Sant’Ana (Lisboa), até à trasladação para os Jerónimos –, salienta¬-se que “a ossada depositada em 1880 numa tumba no Mos¬teiro dos Jerónimos é, com toda a probabilidade, de outra pessoa”.
Aguiar e Silva reforça ainda que, “no estreito rigor histórico”, nin¬guém sabe ao certo onde estão os restos mortais do poeta. Afinal, além de “não se saber exactamente onde foi colocado o cadáver, se dentro ou fora de igreja ou até numa fossa”, três séculos passaram até à trasladação. E, pelo meio, o terramoto de 1775 provocou grande destruição na igre¬ja e área envolvente. À data da tras¬ladação, em 1880, formou-se uma comissão encomendada por Rodrigo da Fonseca, ministro do Reino, para encontrar as ossadas de Ca¬mões e lhes dar última morada con¬digna. A própria comissão, no rela¬tório final, admite que alguns dos ossos encontrados “eram pois sem dúvida de Luiz de Camões; mas quaes, se nem era possível distin¬guir a sepultura”.
“É uma dúvida antiga, que sempre subsistiu, ainda que não retire o valor simbólico do túmulo”, frisa ao CM Gonçalo Couceiro, director do IGESPAR – Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Ar¬queológico (que tutela o Mosteiro dos Jerónimos), lembrando um poema de Jorge de Sena. “Nada tereis, mas nada: nem os ossos, que um vosso esqueleto há-de ser buscado, para passar por meu”; lê-se no final de ‘Camões dirige-se aos seus Contemporâneos’. *COM LUSA
(A imagem é retirada de http://camoes9a.no.sapo.pt/biografia.htm)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Guerra Colonial

Já lá vão 50 anos, meio século de muitas memórias. Em 1961, determinou-se o «Para Angola, rapidamente e em força!» na sequência do «Orgulhosamente sós!». Duas decisões que ainda hoje cavam fundo em muitos portugueses.


Os maus acessos tinham deixado muitas regiões fora do controlo das autoridades coloniais. As estradas e pontes cortadas dificultaram a progressão das tropas portuguesas. Os fazendeiros isolados procuraram refúgio em núcleos populacionais maiores. Esta imagem está em exposição no Museu do Combatente (Cortesia Museu do Combatente)

Angola 1961
O terror maciço e cru
(
PÚBLICO) 2011.Março.14 | João Manuel Rocha

Os massacres que marcaram o início da guerra em Angola começaram há 50 anos. Havia indícios de que se preparava um levantamento, mas ninguém esperava tamanha violência. Os relatos de uma sublevação de cariz tribal dão conta de barbaridades indescritíveis. A revolta bacongo não poupa negros de outras origens. Os mortos são aos milhares, centenas deles brancos. O "15 de Março" prolonga-se até Outubro, já depois do "rapidamente e em força" proclamado por Salazar

Só em Setembro, seis meses depois, José Rocha Dinis conseguiu ir a S. José do Encoje, Nova Caipemba, a uns cem quilómetros de Carmona, no Norte de Angola. O que ele e 15 a 20 voluntários viram foram esqueletos que sobravam da decomposição de cadáveres acelerada pelo calor e humidade. Certeza de quem era quem, só a teve sobre um capataz e a mulher: os restos mortais ainda estavam sobre o colchão apodrecido no chão da casa em que dormiam.
Na fazenda do distrito do Uíge estavam por enterrar mais de meia centena de trabalhadores - negros, mestiços e dois brancos, homens, mulheres e crianças. Meio século depois, José, hoje com 89 anos, tem bem presente essa viagem de reconhecimento a uma boa dúzia de propriedades da região feita a partir de Carmona, com voluntários idos de Luanda. Mas não quer falar de tudo o que viveu naquele ano em que a violência bárbara irrompeu no Norte de Angola, com incidência muito forte na zona dos Dembos. "Vimos ossadas em todas as fazendas", diz apenas.
Os ataques dos meses anteriores, a insegurança, a falta de homens armados para uma expedição, a incerteza sobre o que iriam encontrar e os maus acessos tinham deixado aquela e outras regiões fora do controlo das autoridades coloniais nos seis meses passados sobre o 15 de Março de 1961. Naquele dia, há exactamente 50 anos, ao alvorecer, sob a bandeira da União das Populações de Angola (UPA), a violência irrompeu de modo bárbaro. "Mata! Mata! UPA! UPA!", ecoou no Norte de Angola. O número de mortos está longe de ser consensual, mas as estimativas mais referidas apontam para cerca de 800 brancos, em muitos casos gente pobre e humilde, e milhares de trabalhadores africanos recrutados noutras regiões da colónia.
Munidos de "catanas e armas de fogo rudimentares", revoltosos "assaltam povoações e fazendas", em regiões de acesso difícil. Sto. António do Zaire, S. Salvador do Congo e Maquela do Zombo, próximo da fronteira com o ex-Congo belga, mas também Ambrizete, Negaje, Mucaba, Sanza-Pombo são alvo de ataques. "Toda a baixa do Cassange está em alvoroço" e os assaltantes estão às portas de Carmona. "São claros para as autoridades os propósitos de implantar o terror", escreveuFranco Nogueira, o diplomata que, em Maio seguinte, se tornaria ministro dos Negócios Estrangeiros.
"Em menos de 48 horas, pelos distritos do Zaire e do Uíge é a devastação maldita. Plantações e casas solitárias são saqueadas e incendiadas; aldeias são arrasadas; é posto cerco a vilas e pequenas povoações, cortando-se-lhes os abastecimentos; vias e meios de comunicação ficam destruídos", diz o relato de Franco Nogueira no livro Salazar volume V - A Resistência (ed. Civilização).
"Não se faz distinção de etnias, nem de sexo, nem de idades tão-pouco. É o terror, maciço e cru", refere Franco Nogueira na sua descrição, considerada "uma boa síntese" dos acontecimentos por Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus, autores do recém-editado Angola 61: Guerra Colonial, Causas e Consequências, o 4 de Fevereiro e o 15 de Março (Texto Editora). "Como nos tempos remotos das grandes barbáries, são assassinados homens, mulheres, velhos e crianças, autoridades administrativas, agentes da ordem, brancos, negros e mestiços; ou fuzilados; ou queimados dentro de casas e cubatas: ou esquartejados, e degolados; ou serrados vivos", escreveu o embaixador.
Os relatos do horror abundam. "Ao longo do caminho vimos enorme morticínio de pessoas brancas e pretas, sem braços, sem pernas, sem olhos", contou a angolana Ana Inglês, filha de um pastor protestante e depois presa política, a Dalila Mateus, investigadora do Instituro Superior de Ciências do Trabalho e Empresa (ISCTE), no livro Memórias do Colonialismo e da Guerra(ed. Asa). Os ataques, o medo e a insegurança imperam numa área equivalente à de Portugal Continental.
"Nas povoações", escreveram os autores deAngola 61, os atacantes "entravam mal as casas comerciais abriam as suas portas, atacando homens, mulheres e crianças com catanas, que traziam escondidas. E nas fazendas, faziam-no durante a formatura habitual da manhã, assassinando" proprietários e outros brancos, para além de nativos que lhes eram fiéis. "Estávamos irritados com tanto tempo de opressão", disse um dos revoltosos na série documental A Guerra, realizada pelo jornalista Joaquim Furtado para a RTP.
A partir de um documento constante do arquivo de Salazar, e de diversas outras fontes, o casal Mateus descreve como características do levantamento a sua "rapidez fulminante", a "violência e ferocidade de processos", os "barbarismos cometidos contra brancos, mestiços e alguns pretos", o "fanatismo dos atacantes convencidos da sua invulnerabilidade", o "pânico das populações brancas, acrescido ao constatarem que, entre os que colaboravam nesses ataques, havia criados e cipaios".
O carácter tribal
Para Dalila e Álvaro Mateus, os contornos de violência do 15 de Março terão sido o reflexo de um conjunto de factores: "Ocarácter tribal da UPA, as contradições no seu seio, a impreparação dos seus quadros, as debilidades orgânicas, a falta de disciplina, as dificuldades em apaziguar ódios recalcados e em suster ímpetos primitivos."
O "carácter tribal" da revolta desencadeada pela UPA, "um movimento com profundas raízes" nos bacongos, manifesta-se, segundo os autores do mais recente estudo sobre as revoltas de há 50 anos em Angola, no número de mortos africanos, "uns quatro a cinco mil", designadamente ovimbundos e quimbundos. "Os factos demonstram que se procura a independência para os bacongos, porventura com o propósito de reconstituir o reino de S. Salvador", disseram ao P2.
"Foi um movimento completamente desvairado, racista, com todo aquele ingrediente de raiva de ódio mal dirigido", afirma Adelino Torres, professor jubilado do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), à época um jovem de 20 anos residente em Luanda, a preparar-se para estudar Direito em Lisboa. A consciência anticolonial que já então o animava não o impede de considerar que "foi uma barbaridade imperdoável". " Por muitas razões que os africanos tivessem contra o colonialismo, e tinham." Mais tarde, chegou a conhecer na Argélia representantes da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), designação depois adoptada pela UPA. "Constatei que não tinham nada na cabeça. Fiquei com uma impressão deplorável dessa gente", afirma.
Angola estava em ebulição, como fora prenunciado pelos ataques de 4 de Fevereiro em Luanda, e, antes disso, pela revolta contra os abusos laborais no cultivo do algodão na Baixa de Cassange. "Nos círculos do Governo central, na alta administração, toma-se então consciência de que em Angola há uma situação de guerra", reconheceu Franco Nogueira. Para o historiador Filipe Ribeiro de Meneses, tratou-se de uma tentativa de "extirpar a presença portuguesa do Norte de Angola". O "maior fracasso de Salazar ao longo das quatro décadas no poder terá sido a sua incapacidade de proteger a população branca e os seus trabalhadores no Norte de Angola em 1961", escreveu na sua biografia sobre o chefe do Estado Novo, publicada no ano passado pela D. Quixote. O efectivo militar à data do levantamento seria de 7800 homens para todo o território angolano.
Os sinais de que alguma coisa estaria para acontecer não faltavam. Não era só o ambiente internacional favorável à descolonização nem a vaga de 17 independências que varrera África no ano anterior. Os próprios colonos, pelo menos parte deles, não estariam alheios ao clima de pré-insurreição. Mas Salazar desvalorizaria informações obtidas por via diplomática norte-americana sobre o risco de incidentes, bem como relatórios da PIDE que davam conta da iminência de ataques.
"Fomos apanhados de surpresa, mas havia indícios de que queriam fazer alguma coisa. Sabíamos que mandavam fulanos que passavam pelos povos a fazer doutrinação e a dizer: "É preciso correr com os brancos"", conta José Rocha Dinis, que recorda uma conversa, em Novembro de 1960, na fazenda de Nova Caipemba, com um pequeno fazendeiro negro, antigo cabo do Exército: "Está-se a organizar uma matança. Prepare-se, avise as autoridades, mas não diga que fui eu que disse". Foi o que Rocha Dinis fez: alertou o chefe do posto administrativo, que não lhe terá dado ouvidos. O antigo cabo seria um dos mortos de 1961.
Sementes de revolta
As sementes da revolta vinham a ser lançadas há algum tempo. Os autores de Angola 61 lembram declarações de Holden Roberto, líder da UPA, segundo o qual em 1959, aquando de manifestações pela independência do ainda Congo belga, dois mil a três mil angolanos foram expulsos da colónia e entregues às autoridades portuguesas. Esses repatriados, afirmam, foram enviados para as fazendas, "onde desenvolveram uma actividade política e propagandística". Por altura do levantamento no Norte, "terão entrado em Angola mais umas centenas de elementos da UPA", disseram ao P2. A organização adoptou também uma "política de recrutamento forçado", e o "comando dos revoltosos foi, em regra, das autoridades tradicionais".
O historiador angolano Carlos Pacheco tem menos certezas. Está convicto de que "as coisas fugiram ao controlo da UPA em Leopoldville" e de que "não foi só" a organização a protagonizar os ataques. Chegou a confrontar Holden Roberto com essa tese. "Sempre senti um grande constrangimento da parte dele", afirma. O autor do livro Angola - Um gigante com pés de barro acredita que a Abako, Aliança dos Bacongos, "esteve no terreno" e refere um projecto do seu líder, Joseph Kasavubu, primeiro Presidente da actual República Democrática do Congo, de "tomar conta do Baixo Congo".
Se as autoridades portuguesas admitiam uma revolta, não esperariam, contudo, a dimensão nem os contornos que assumiu. "O que perturbou militares, polícias e autoridades administrativas não foi a rebelião em si, mas a sua intensidade, rapidez e selvajaria", consideram Dalila e Álvaro Mateus. "Os governantes de então não quiseram tirar a lição dos acontecimentos, pois pensavam que tal situação não era possível, dada a excelência do seu colonialismo", afirmam. Rocha Dinis parece dar-lhes razão: "Tínhamos a ilusão de que não ia acontecer nada, porque nós tratávamo-los melhor do que os belgas. O Congo belga olhava para o preto como inferior."
Face à brutalidade do levantamento, cujas imagens correm mundo, Holden Roberto, em Nova Iorque - onde, no Conselho de Segurança, os Estados Unidos votam, nesse mesmo dia, pela primeira vez, contra a política colonial portuguesa - hesita na reivindicação dos ataques. "Vi imagens que não me agradaram". "Fomos ultrapassados", dirá na série A Guerra. Mas acaba por assumir a autoria, aparentemente por receio de que o rival MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola, o partido no poder desde a independência) o fizesse, como acontecera com o 4 de Fevereiro em Luanda.
Os ataques e o medo prolongam-se muito para além dos primeiros dias. Os fazendeiros isolados procuram refúgio em núcleos populacionais maiores. "Sempre que possível, normalmente em pequenas vilas e lugarejos, os colonos e as forças de segurança locais criavam milícias para se defenderem enquanto esperavam pela chegada da polícia e das tropas regulares", segundo Ribeiro de Meneses. Mas "passaram-se semanas sem mudanças significativas no terreno e com as autoridades a temerem revoltas violentas noutras regiões de Angola - fosse em Cabinda, fosse no Sul".
As estradas e pontes cortadas dificultam a progressão das tropas portuguesas. E mesmo quando a evacuação se tornou possível", muitos colonos ficaram em "ilhotas de teimosia", como, segundo Meneses, lhes chamou Jorge Jardim, empresário influente junto de Salazar. "Mas para além dessas ilhotas, havia áreas muito mais vastas que se encontravam agora fora do controlo português", escreveu o historiador.
A fazenda do sogro, a 14 quilómetros do Songo e que José Rocha Dinis administrava, é evacuada já no final de Abril e será assaltada a 2 de Maio. Dois dias depois, é a própria vila a ser atacada, numa acção que terá provocado a morte de 220 atacantes. Fazendeiro e proprietário voltarão em Julho para as colheitas. Noutros lugares a insegurança será mais longa. Ao longo de meses há notícias de ataques e confrontos com os rebeldes, que vão perdendo fôlego.
"A política de recrutamento forçado da UPA só poderia resultar no curto prazo e se a vitória fosse rápida. A médio prazo e depois dos primeiros reveses, no Verão de 1961, os rebeldes ficaram sem dirigentes, sem ordens, sem ajuda, o que levou a revolta a transformar-se numa anarquia. E os combatentes recrutados à força começaram a fugir e a render-se", disseram ao P2 Dalila e Álvaro Mateus.
Em Outubro, com a recuperação de Caiongo, distrito de Uíge, as autoridades coloniais retomam oficialmente o controlo da situação, ainda que, segundo os dois investigadores, o 15 de Março se tenha "prolongado por quatro anos", até ao momento em que, de acordo com um relatório do cônsul belga ao seu Governo, "o Norte fica sob controlo total das tropas portuguesas, embora os guerrilheiros da UPA permaneçam no terreno". É também em Outubro que grupos de africanos revoltosos que se tinham refugiado nas matas começam a entregar-se às autoridades coloniais. A guerra continuará, no modo de guerrilha.
O medo dos negros
Logo após os primeiros ataques, começam a afluir a Luanda refugiados, muitos dos quais apenas fazem da cidade ponto de trânsito para a Metrópole, a vulgar designação de Portugal continental. Adelino Torres lembra-se de colonos a chegarem à cidade, "sem nada, aterrorizados". Lembra-se também do clima de medo. "Toda a gente correu para as casas de armas a comprar pistolas, com receio de apanhar uma catanada."
Por esse tempo, havia quem visse em cada negro um terrorista. "Bastava alguém ter uma epiderme um pouco mais escura", afirma Carlos Pacheco, à época com 16 anos, que recorda uma situação vivida em sua casa, na capital de Angola: "A minha mãe recomendava ao nosso empregado, que era negro: "Não saias de casa." Arriscava-se, ao transpor os muros da casa, a ser morto." Foi assim durante meses. "Se já havia violência provocada pelo processo colonizador, a violência a partir daí foi ainda maior."
Franco Nogueira também se referiu ao alargamento do fosso racial: "Os brancos vêem em cada negro um possível terrorista, os negros vêem em cada branco um homem que se quer vingar e que agora mata sem hesitar. Deste modo, e além das atrocidades dos assaltantes, assumem gravidade o ataque preventivo e a retaliação indiscriminada de brancos sobre negros e destes sobre aqueles. Homem a homem, nas ruas, nos empregos, em toda a parte, espiam-se com rancor, e a um gesto equívoco é abatido o suposto adversário."
O "terror negro" dá lugar ao "terror branco". Dalila e Álvaro Mateus referem os "massacres e matanças indiscriminadas" que se seguiram ao levantamento da UPA, atestados por ofícios e relatórios de autoridades administrativas e militares. Há referências a "troféus de guerra", designadamente "frascos de álcool com dedos, orelhas e até cabeças de negros".
O "horror dos massacres criou o pânico" entre os brancos de Angola. E em Portugal as notícias da "barbárie e do morticínio" "abalaram as consciências e reforçaram o regime, apostado na guerra como solução para o problema colonial", consideram os autores de Angola 61. O rasto de sangue e o extremar de posições tornava mais difícil um futuro diferente em Angola. E nas outras colónias portuguesas em África.

Domesticação do coelho


Os sinais claros da domesticação do coelho só surgiram a partir de meados do século XV (Punit Paranjpe/Reuters (arquivo)

Curiosidade dupla: onde e porquê.

Cientistas portugueses resolvem o enigma
Quem domesticou o coelho? Os monges da Provença, diz a genética

(PÚBLICO) 2011.Jan.31 | Por Teresa Firmino

É o único mamífero domesticado só na Europa ocidental, e numa fase tardia. A documentação histórica já sugeria o papel dos monges no processo. Tudo porque o papa Gregório I decidiu que os coelhos recém-nascidos não eram carne, pelo que podiam comer-se na Quaresma. A genética confirma agora esta história.
Durante grande parte da sua história, o coelho-europeu, ou coelho-comum, viveu apenas na Península Ibérica e no Sul de França. Hoje está espalhado por quase todos os cantos da Terra, tanto a sua forma selvagem como a doméstica. Mas onde e quando começou a domesticação do coelho? Duas hipóteses têm sido avançadas: tudo terá começado com os romanos na Península Ibérica, há cerca de dois mil anos, ou então terá sido há 1400 anos numa região que actualmente integra o Sul de França e os monges tiveram um papel principal. A equipa de Nuno Ferrand de Almeida, coordenador do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Cibio) da Universidade do Porto, acaba de dar a resposta: foi nos mosteiros da Provença.
O coelho-europeu, ou Oryctolagus cuniculus, o nome científico da espécie, surgiu na Península Ibérica há cerca de dois milhões de anos e é caçado pelos humanos como alimento há milhares de anos. Tem duas subespécies, que no pico da última glaciação, há 20 mil anos, ficaram confinadas a dois refúgios: enquanto a Oryctolagus cuniculus cuniculus habitava em França e no Nordeste da Península Ibérica, a Oryctolagus cuniculus algirus vivia no Sudoeste da Península Ibérica, incluindo o Sul de Portugal.
O primeiro registo que nos chegou da abundância do coelho no Sul da Península Ibérica é dos fenícios, quando vieram até às suas costas há três mil anos, para trocas comerciais. "Viram milhares de coelhos, que confundiram com o damão-do-cabo, que era abundante nas costas das cidades fenícias", conta Nuno Ferrand de Almeida. "Esse registo poderá estar na origem do nome Espanha, que quererá dizer "terra de coelhos": a designação de "i-shephan-im", ou terra de damões-do-cabo, que na verdade eram os coelhos, seria depois latinizada para dar Hispânia, e mais tarde Espanha."
Quando voltavam para sua terra, no Médio Oriente, os fenícios levavam com eles o coelho e espalharam-no pela bacia do Mediterrâneo, por exemplo pelas ilhas Baleares e pelo Norte de África.
Mais tarde vieram os romanos, que se instalaram durante séculos na Península Ibérica, e também levaram o coelho para outras paragens na Europa. "A primeira tentativa de controlar a reprodução do coelho terá ocorrido na Península Ibérica, um século antes de Cristo", conta o biólogo Miguel Carneiro, também do Cibio, e autor principal do artigo com esta descoberta, publicado este mês na edição online da revista britânica Molecular Biology and Evolution.
A partir da ocupação romana passa a haver múltiplas referências aos coelhos. "Uma das mais célebres é a de Plínio, o Velho, na sua História Natural, no primeiro século da nossa era, onde já se refere o hábito de consumir fetos dos coelhos, bem como o facto de produzirem imensos prejuízos na agricultura. Também durante Adriano, um dos mais célebres imperadores romanos - imortalizado por Marguerite Yourcenar em Memórias de Adriano -, circulavam na península moedas com coelhos cunhados na sua face", acrescenta Ferrand de Almeida. "A partir dessa altura há referências permanentes a estruturas belíssimas chamadas "leporaria", que eram cercados feitos de pedras onde os coelhos eram mantidos para serem usados na caça e na alimentação. Há muitos vestígios arqueológicos dessas estruturas. Esta seria uma das hipóteses para a domesticação do coelho ter ocorrido na Península Ibérica."
Carne que não é carne
No entanto, outros registos históricos sugeriam que a domesticação tinha ocorrido mais tarde, por volta do ano 600, nos mosteiros da Provença. A fundamentar esta suposição encontra-se uma decisão do papa Gregório I, que tinha sido monge beneditino, em que considera que os fetos e as crias recém-nascidas de coelho não eram carne, pelo que podiam comer-se durante o jejum da Quaresma. E assim a criação de coelhos difundiu-se nos mosteiros da Provença. "Há muitíssimos documentos históricos que atestam a frequente troca de coelhos entre abadias, e mesmo com países como a Inglaterra. Este processo poderia ter levado à domesticação do coelho e seria uma hipótese de domesticação realizada fora da península, proveniente das populações selvagens do Sul de França", refere Ferrand de Almeida. Tenham sido os romanos ou os monges da Provença, os sinais claros da domesticação do coelho só surgiram muito mais tarde, a partir de meados do século XV. Em iluminuras e pinturas, começaram a aparecer os primeiros coelhos com cores diferentes, desde brancos a avermelhados, em vez da cor parda dos selvagens.
Um dos quadros mais célebres que representa um coelho branco é de Ticiano, Madona e Menino com Santa Catarina, também conhecido como A Virgem do Coelho, de cerca de 1530, que está no Museu do Louvre. "Esses mutantes de cor poderão corresponder a um processo de domesticação já terminado. E a partir daí o coelho doméstico difundiu-se por todo o mundo e teve um sucesso enorme", explica Ferrand de Almeida.
No século XVI, há registos de coelhos de vários tamanhos e cores em França, Itália, Flandres ou Inglaterra, o que sugere que a sua domesticação estava já concluída nessa altura.
Exclusivo da Europa
Mas qual das duas hipóteses para a domesticação do coelho, compatíveis com os registos históricos, está afinal certa?
A equipa Ferrand de Almeida começou à procura de uma resposta na genética, há cerca de uma década, com cientistas de outros países, nomeadamente de França. Já nessa altura os resultados apontavam para os monges da Provença. "Havia indicações genéticas que sustentavam essa hipótese, mas eram muito fragmentadas", diz Ferrand de Almeida.
Agora foi feita uma análise genética mais aprofundada, no trabalho de doutoramento de Miguel Carneiro, orientado por Ferrand de Almeida. Em colaboração com cientistas franceses e norte-americanos, estudaram-se mais regiões no genoma do coelho, comparando-se animais domésticos com populações das duas subespécies selvagens na Península Ibérica e no Sul de França.
O ADN dos coelhos corroborou a história relativa aos monges. "A origem da domesticação do coelho não está na Península Ibérica, mas no Sul de França. Os monges iniciaram a domesticação do coelho que hoje temos em todo o lado, há cerca de 1400 anos. Os nossos dados suportam estes registos históricos", sublinha Miguel Carneiro. "O coelho é o único mamífero domesticado exclusivamente na Europa. Pensa-se que o porco foi domesticado por toda a Eurásia."
A Oryctolagus cuniculus cuniculus, que era a única subespécie presente no Sul de França naquela época, é assim o antepassado directo dos coelhos domésticos. O cenário de um único sítio para a origem da domesticação do coelho contrasta com o que ocorreu com a maioria dos animais - ou foram domesticados em várias regiões, como o cão, ou a partir de várias espécies ou subespécies, como o burro, em África. Em comparação com muitos outros mamíferos, domesticados há mais de cinco mil anos, o caso do coelho também é muito recente. No cão, pelo contrário, tal pode mesmo ter começado há 14 mil anos. Outro aspecto invulgar é o facto de o antepassado do coelho doméstico ainda existir, ao contrário do que acontece noutros casos, como a vaca (os últimos auroques extinguiram-se no século XVII, na Europa Central).
Menos de 1200 animais
E de quantos coelhos selvagens descendem todos os domésticos que existem hoje no mundo? A equipa também pôde determinar esse número, agora que já se sabe quer onde e quando os coelhos foram domesticados (a partir do ano 600), quer quando o processo estava terminado (século XVI). Tendo em conta a diversidade genética dos coelhos domésticos actuais, todos descendem de 1200 animais, no máximo, se a domesticação foi lenta. Ou de apenas 14 coelhos, no mínimo, se foi muito rápida. "Provavelmente foram mais de 14. Terá sido um processo mais lento", diz Ferrand de Almeida. Coelhos bravos e domésticos pertencem à mesma espécie, os últimos apenas se consideram uma população diferente, seleccionada para ter características especiais. Entre essas características inclui-se um comportamento mais dócil e a reprodução ao longo do ano todo, enquanto o selvagem só se reproduz durante quatro a cinco meses. Além das variações de cor, o tamanho do coelho doméstico pode ir dos 800 gramas a dez quilos (o bravo tem pouco mais de um quilo). O tamanho das orelhas também muda bastante.
Hoje há pelo mundo fora mais de 200 variedades de coelhos domésticos, a maioria das quais surgiu nos últimos 200 anos. "Na época vitoriana havia uma paixão pelos animais. Deu-se uma explosão da criação de animais, desde cães, gatos, até canários", realça Miguel Carneiro.
Além de grande relevância económica, o coelho doméstico é muito usado como modelo de estudos em toxicologia, embriologia, osteoporose ou evolução.
Pela sua parte, Ferrand de Almeida vai lançar este ano um projecto de investigação do genoma do coelho com o Instituto Broad (ligado ao MIT e à Universidade de Harvard), nos Estados Unidos, e com a Universidade de Upsala, na Suécia. O genoma do coelho já foi sequenciado pelo Instituto Broad, há menos de dois anos, e agora a ideia é sequenciar genomas de diferentes raças de origens distintas. "Queremos perceber o efeito da domesticação nas diferentes raças", explica o coordenador do Cibio.
Outra coisa que vai estudar-se neste projecto é o caminho evolutivo que as duas subespécies de coelhos estão a tomar. A perda de fertilidade quando ambas se cruzam reprodutivamente é um sinal de que estão a separar-se, pelo que os cientistas podem estudar a formação das espécies em tempo real. "Estão a caminho de se tornarem duas espécies diferentes. É um modelo fabuloso para o estudo da origem das espécies", diz Ferrand de Almeida.
Para os próximos tempos, esperam-se então mais capítulos da história do coelho, que "é tão rica", remata Ferrand de Almeida.

domingo, 30 de maio de 2010

Contestação a Ardi

Como em tudo, os absolutos vão sendo substituídos pelos relativos?

Cientistas contestam Ardi, a avó da Humanidade
(PÚBLICO) 2010.Maio.29 | Clara Barata

Ardi, o diminutivo pelo qual ficou conhecido o fóssil de Ardipithecus ramidus apresentado em Outubro como o mais antigo hominídeo (por ter vivido há 4,4 milhões de anos), pode afinal não pertencer à linhagem da Humanidade. E pode não ter vivido numa floresta, como dizia a equipa de Tim White, mas antes numa savana, apenas com algumas árvores, dizem dois artigos publicados esta semana na revista Science, onde também foi publicada a descoberta original.
Um dos artigos, por Esteban Sarmiento, da Fundação para a Evolução Humana, de New Jersey (EUA), defende que não foram apresentadas provas suficientes de que Ardi seja de uma época posterior à separação da linhagem humana da que originou os chimpanzés.
Para este cientista, o Ardipithecus ramidus tratar-se-á de "um membro primitivo" da linhagem comum dos grandes primatas e dos humanos após a divergência dos orangotangos - que partiram para uma evolução própria na Ásia. Ardi, diz, não é posterior à divergência dos hominídeos dos antepassados dos chimpanzés.
Tim White, da Universidade da Califórnia em Berkeley, e alguns elementos da sua equipa – que estudou o fóssil ao longo de 15 anos e o revelou em 11 artigos publicados a 2 de Outubro na Science –, tem direito a resposta. Para além das respostas mais técnicas, diz que Sarmiento "não oferece interpretações alternativas" ou correcções.
O segundo artigo crítico relaciona-se com uma ideia central da evolução: que os hominídeos começaram a andar de pé quando as savanas se espalharam no Leste de África, o berço da Humanidade.
A equipa de White apresentava um retrato diferente: Ardi andaria erecto/a (a maior parte dos ossos são de fêmea) num habitat de "floresta cerrada" e não na savana aberta do cenário clássico. Thure Cerling, geoquímico da Universidade do Utah (EUA), e sete outros cientistas contestam este argumento, dizendo que o fóssil estudado terá vivido numa faixa de árvores ao longo de um curso de água que atravessava uma savana.