sábado, 5 de maio de 2012
1.º de Dezembro - Dia da Restauração de Portugal
Portugal assiste a alguma «discussão» sobre se deve ou não continuar a ser feriado nacional o dia 1 de Dezembro. E isto em nome do aumento da produtividade. Sim? Não?
Mais uma vez, se recorre ao Público.
Queremos ser independentes ou não?
Debate Feriado do 1.º de Dezembro
(PÚBLICO) 2012.Abril.05 - José Loureiro dos Santos (General)
Atualmente, a independência já não é uma postura que procura garantir a sobrevivência de um país orgulhosamente só. A globalização, que entrelaçou os interesses das unidades políticas e as tornou incapazes de resolverem por si só os problemas com que se confrontam, implicou um tipo de independência cuja garantia depende frequentemente mais das interdependências do que de um isolamento pretensamente autossuficiente. O que deverá ser traçado com subtileza e inteligência de atuação estratégica.
Uma vez que, na democracia, o Estado emana da nação (conjunto dos cidadãos), é indispensável que esta percecione que as decisões políticas sejam capazes de garantir que, em cada circunstância, prevaleça a vontade de ela agir em conformidade com os seus interesses.
A liberdade de ação de um país consegue-se através de estratégias de afirmação nacional que passam pela utilização dos diferentes vetores estratégicos à disposição do Estado e da sociedade civil com a finalidade de garantir o bem-estar e a segurança nacional.
Agindo no domínio da economia, das finanças, da política externa, da segurança interna e externa, da informação, etc., os governantes têm a obrigação de procurar ultrapassar os constrangimentos que nos criam dificuldades e explorar os pontos em que temos vantagem, para sermos fortes e podermos atuar sem condicionamentos que nos paralisem.
Quando falamos em pontos fortes, não nos estamos a referir apenas a fatores de natureza material. Estes são muito importantes para sustentar uma estratégia consequente e para alcançar os objetivos que nos propusermos atingir. Mas não são suficientes para alcançar uma situação de liberdade de ação na esfera internacional capaz de garantir que sejam nossas as principais decisões sobre o que nos diz respeito; isto é, que continuemos a ser uma nação livre e senhora das escolhas que precisamos de fazer, a partir de Lisboa, e não de Washington, de Berlim, de Bruxelas, de Madrid ou de qualquer outra capital.
Além dos fatores materiais, terão de existir elementos de natureza intangível, do domínio das convicções e dos valores, que nos deem força para resistir aos interesses de quem nos queira explorar ou dominar e se concretizem na vontade de sermos nós a escolher o nosso destino e a lutar por ele, por intermédio de um governo próprio, a quem delegamos autoridade para agir em nosso nome e em defesa dos nossos interesses. Querermos ser portugueses, termos orgulho no nosso país e na nossa História, estarmos disponíveis a arriscar individualmente para defender os interesses da comunidade nacional, estes e outros sentimentos de dedicação à Pátria onde nascemos, queremos viver e onde repousam os nossos antepassados, constituem fatores indispensáveis para consubstanciar a vontade de sermos independentes. Sem eles, por mais favoráveis que sejam os elementos materiais, é impossível alcançar e garantir a independência que nos permita atuar no quadro do que entendemos ser da nossa conveniência e julgamos capaz de defender os nossos interesses.
A recuperação da independência nacional no dia 1 de Dezembro de 1640 e a sua consolidação através de uma guerra que durou 28 longos anos confirma estas afirmações. O quadro estratégico de 1580, com o exército destroçado pela derrota de Alcácer-Quibir, um rei à beira da morte e sem descendência, uma economia desfeita, e a candidatura do rei de Espanha – o mais poderoso país da época – ao trono português, configurou uma situação conjuntural que conduziu à impossibilidade de garantir a independência contra um exército forte e bem comandado. Se os portugueses não tivessem mantido a vontade de voltarem a ter governo próprio e de traçarem o destino que fosse da sua escolha, não teria sido possível que, numa situação estratégia conjuntural posterior, em 1640, com a Espanha em decadência, a nossa economia em progresso e a França a afirmar-se como principal potência europeia, os portugueses tivessem restaurado a independência nacional, na esteira da revolta dos quarenta conjurados no dia 1 de Dezembro de 1640.
Os atos simbólicos e a comemoração das datas mais marcantes da História de uma nação contribuem para reforçar a vontade de querer ser independente e, como tal, de viver num país com autonomia para decidir e concretizar os seus objetivos e para defender os interesses que neles convergem. Não há nação que não festeje um dia relacionado com a sua independência. Em Portugal, este dia tem sido o 1.º de Dezembro, o primeiro feriado nacional que foi instituído, aliás a única data visível e concreta de luta para fazer ressurgir a independência nacional, com êxito. Parece que estamos na véspera de esse feriado ser extinto, por determinação dos governantes, num "negócio" que, em termos económicos, corresponde à venda da comemoração da nossa independência por um "prato de lentilhas", ainda, por cima, mais vazio do que cheio.
Contrariamente às minhas expectativas, nem o primeiro-ministro nem o líder do segundo partido da coligação governamental, nem tão-pouco (que se saiba) o ministro da Defesa Nacional contrariaram este "negócio". A eliminação do mais significativo feriado nacional quando estamos com a soberania limitada – em termos de oportunidade de marcar a importância de sermos independentes e a vontade de querermos assim continuar – corresponde a considerar dispensável a necessidade do simbolismo da comemoração do dia em que restauramos o autogoverno, com a finalidade de manter viva a vontade de os portugueses pugnarem pela independência nacional. Quem duvidasse do patriotismo dos governantes até poderia ser levado a considerar, erradamente penso eu, que eles não se importariam de o país estar submetido aos interesses de qualquer outro, onde, com toda a probabilidade, a independência seria comemorada.
Mas ainda há esperança. Não se compreenderia que os deputados da República Portuguesa se não opusessem à extinção do feriado nacional que comemora a independência da nação que representam, o que ainda podem fazer. Se isso não acontecer, por virtude do "caudilhismo partidário" aparentemente em vigor, espero que o Presidente da República, intérprete supremo do interesse nacional e figura que materializa a nossa independência, aja em conformidade com a necessidade de preservar e reforçar a vontade de manter a identidade e a permanência da nação portuguesa num Portugal independente.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
II Guerra Mundial e actualidade


Há tempos, quando se dava a II Guerra Mundial [9.º ano de escolaridade] e era - é ainda - muito actual a grave crise financeira da Grécia, um aluno questionou até que ponto é que os políticos gregos tinham razão ao lembrarem a ocupação nazi do seu país e as destruições provocadas que nunca foram saldadas. Este texto, mais uma vez do PÚBLICO, é a melhor resposta para essa dúvida.
II Guerra Mundial - As sequelas da ocupação nazi
Contas por saldar? As reparações de guerra alemãs e a Grécia
(PÚBLICO) 2012.Março.25 - Pedro Aires Oliveira
Por iniciativa de alguns políticos helénicos, a memória da II Guerra e das reparações foi convocada para o debate em torno crise grega. Há quem reclame um acerto de contas com a Alemanha. Qual a base histórica de tais reivindicações?
Ns últimos meses, a escalada de recriminações que tem acompanhado a discussão sobre os planos de resgate da Grécia conheceu novos desenvolvimentos. Depois de um ministro do Governo de Papandreou, Theodoros Pangalos, ter recordado, em Fevereiro de 2010, que a Alemanha nunca havia compensado devidamente a Grécia pelos crimes e destruições resultantes da ocupação nazi entre 1941 e 1944, um grupo de deputados helénicos apresentou há algumas semanas uma proposta de discussão da questão das reparações de guerra que poderão ainda ser imputadas a Berlim.
Essas alegações remetem, desde logo, para os efeitos brutais da intervenção alemã na Grécia, iniciada em Abril de 1941 com o propósito de evitar que a campanha desencadeada uns meses antes por Mussolini redundasse num desastre para o Eixo. Embora essa intervenção não estivesse nos planos de Hitler (na altura concentrado na preparação do assalto à URSS), e de este ter declarado publicamente a sua admiração pela resistência oferecida pelos gregos, nem por isso a ocupação alemã foi exactamente branda. Bem pelo contrário. País rural e atrasado, a Grécia não beneficiou da exploração menos abertamente "colonial" que os nazis aplicaram aos países industrializados da Europa Ocidental, vistos como fundamentais para alimentar o esforço de guerra alemão (e mais bem colocados na hierarquia racial nazi do que os europeus dos Balcãs).
Uma factura pesada
Uma vez que desde a guerra franco-prussiana se tinha tomado habitual impor aos Estados vencidos os custos da ocupação, as autoridades alemãs rapidamente confrontaram o governo colaboracionista de Atenas com uma pesada factura. Para satisfazer essa imposição, os gregos tiveram de recorrer a um expediente familiar: a emissão monetária pelo Banco Central, a qual veio a estar na origem de um colossal surto hiperinflacionário. A isto somou-se ainda a exigência de um empréstimo forçado à Alemanha no valor de 476 milhões de marcos, isento de juros. O impacto destas medidas no funcionamento da economia e do Estado não será difícil de adivinhar. No fim da guerra, as receitas fiscais da Grécia cobriam apenas 6% das despesas governamentais, como nota Mark Mazower, um especialista na história da ocupação nazi da Grécia (Hitler's Empire, 2008).
Mas as coisas não se ficaram por aqui. Uma das premissas da política de guerra do III Reich era a de poupar o mais possível a população alemã aos sacrifícios inerentes ao conflito. Como tal, as autoridades nazis nos países ocupados tinham instruções claras para proceder ao confisco de bens alimentares e de outras maté-
Cartaz de propaganda dos aliados de apoio à resistência grega; a bandeira nazi na Acrópole
rias-primas sempre que tal se revelasse indispensável para prevenir situações de carência na Alemanha. A Grécia não escapou a essas exigências e, nos primeiros meses de ocupação, produções alimentares locais no valor de quatro milhões de marcos foram requisitadas por Berlim. Para um país que estava longe de ser auto-suficiente em termos alimentares, e que se encontrava sujeito a um bloqueio naval britânico, esta situação não tardou a evoluir para um desastre humanitário. No Inverno de 1941-42, a fome instalou-se – e os nazis foram completamente insensíveis às privações dos gregos comuns. Estimativas conservadoras apontam para 250 mil vítimas directas e indirectas dessa catástrofe, apenas mitigada pela chegada de alguma assistência através da Cruz Vermelha.
O impacto da ocupação do Eixo (os alemães partilharam a administração do país com os seus aliados italianos e búlgaros) revestiu-se ainda de outros aspectos traumáticos. Como resposta às acções do movimento de resistência helénico entretanto constituído, as autoridades militares alemãs não hesitaram em ordenar retaliações "exemplares" sobre populações civis suspeitas de dar apoio aos insurrectos. Unidades das Waffen SS levaram a cabo dezenas de chacinas contra aldeias e bairros, nalguns casos não poupando crianças, mulheres e idosos. O saldo das atrocidades cometidas pelas forças do Eixo terá rondado os 70 mil mortos.
Com uma persistência metódica, equipas de “especialistas” das SS entregaram-se à tarefa de identificar e reunir a maior parte dos membros da comunidade judaica grega – um núcleo populacional cujas raízes remontavam à Antiguidade e, mais recentemente; à chegada de um grande número de judeus sefarditas expulsos de Espanha no século XV. Calcula-se que cerca de 87% dessa comunidade (aproximadamente 67 mil pessoas, sendo 46 mil oriundas de Salónica) tenha perecido nos campos de extermínio de Auschwitz, na sequência de uma deportação organizada em 1943 pelo Obersturmbannführer Adolf Eichmann. Os sobreviventes desse crime testemunharam depois a atitude solidária e corajosa de muitos dos seus compatriotas gregos, que se dispuseram a enfrentar riscos consideráveis para dar abrigo a crianças e mulheres judias.
Com o seu estatuto de nação aliada, e vítima das depredações do Eixo, a Grécia constituía um dos países em posição de reclamar a sua quota-parte das reparações que viessem a ser fixadas no termo do conflito.
Em 1945, o sentimento geral estava longe de ser favorável a uma atitude de magnanimidade para com os vencidos. A ideia de que uma reedição da "paz cartaginense" imposta à Alemanha e seus aliados no final da Guerra de 14-18 poderia ser contra-producente para a estabilidade do Velho Continente não tinha muitos adeptos. O consenso geral ia muito mais no sentido de obrigar os vencidos a expiar e a pagar pelos seus crimes. Do lado dos soviéticos, a questão quase nem se punha – à medida que o Exército Vermelho avançava, a retribuição ia sendo cobrada aos alemães e aos seus colaboradores, sempre de forma impiedosa. Entre as potências ocidentais, a intenção genérica era também a de tratar a Alemanha como "uma nação inimiga derrotada". Elementos da Administração Roosevelt desenharam planos que davam prioridade à ideia de extirpar as raízes do nazismo, o que pressuponha um esforço consistente para desmilitarizar, desindustrializar e reeducar a sociedade alemã. Nos meses imediatamente posteriores à capitulação alemã,
Em 1941-42, a Grécia teve de ceder alimentos à Alemanha e mais de 250 mil pessoas morreram de fome
Até à crise da dívida, a questão das reparações não afectou muito as relações entre os dois países
Uma força blindada numa cidade grega
os líderes da coligação aliada não foram capazes de chegar a acordo quanto ao montante exacto das reparações que a Alemanha deveria pagar, mas os objectivos genéricos fixados em Ialta e Potdsam mantiveram-se válidos. A Alemanha foi sujeita a um regime de ocupação militar quadri- partida (EUA, Grã-Bretanha, França e URSS) e as potências aliadas foram imputando os custos dessa ocupação aos alemães, através do uso de mão-de-obra forçada (prisioneiros de guerra alemães), apropriação de patentes industriais e confisco de maquinaria e unidades fabris.
A mudança dos aliados
Mas as consequências de uma abordagem demasiado punitiva foram ficando claras, pelo menos aos olhos dos aliados ocidentais. "Pastorilizada" e enfraquecida, a Alemanha tornar-se-ia um sorvedouro de recursos, fazendo da ocupação um compromisso ruinoso. Por outro lado, figuras como o general Lucius Clay, o procônsul americano, não tardaram a reparar que, para pôr a economia e os serviços públicos a funcionar, dificilmente se poderia ser muito esquisito com o tipo de pessoas que se empregavam, tão extenso fora o envolvimento das elites alemãs com o regime de Hitler. Em suma, o objectivo de edificar uma Alemanha estável, democrática e economicamente viável era incompatível com alguns dos desígnios mais draconianos esboçados no fim da guerra. Esta reorientação da postura americana ao longo de 1946 teve vários efeitos. Os mais conhecidos foram o empenho dos aliados ocidentais em construir, primeiro, o embrião de um futuro Estado alemão que abrangesse os seus três sectores de ocupação (por sinal, os mais industrializados); e, em segundo lugar, a ancoragem desse Estado nas instituições fundadas com o propósito de garantir a prosperidade e segurança da Europa Ocidental.
Nada disto seria possível sem um Estado alemão democrático e, sobretudo, estável – pelo que a muitos pareceu indispensável evitar que uma questão tão melindrosa como as reparações voltasse a envenenar a política alemã, como sucedera no período entre-guerras. Isso explica, em boa medida, a atitude lenitiva adoptada pelos norte-americanos face aos termos das compensações passíveis de serem exigidas à Alemanha. Na Conferência de Paris de 1946, a Grécia viu ser-lhe atribuída uma percentagem de 4,5% de reparações materiais, e 2,7 % em outras modalidades, o que equivaleria a um total de cerca de 105 milhões de marcos – mas esse pagamento acabaria por nunca se materializar devido à oposição dos norte-americanos. O tratado final que resultaria dessa conferência, em 1947, circunscreveu-se às reparações imputadas aos aliados da Alemanha, cabendo à Grécia uma compensação da Itália (105 milhões de dólares) e da Bulgária (45 milhões). Em 1953, o Acordo das Dívidas de Londres, que a URSS não subscreveu, adiava para o momento em que fosse possível assinar um tratado de paz envolvendo a Alemanha e todas as nações aliadas, o pagamento de eventuais reparações. Para restaurar a reputação financeira da Alemanha, o Governo de Adenauer aceitou pagar as reparações de Versalhes ainda em falta, bem como as dívidas (e juros) contraídas pela República de Weimar entre 1919 e 1933, o que perfazia um montante de cerca de 15 biliões de marcos (a dívida foi finalmente saldada em 2010). Usando todo o seu talento político, Adenauer conseguiu ainda que compensações devidas a "vítimas de guerra" fossem definidas de maneira a que os seus recipientes fossem, basicamente, cidadãos alemães. E as reparações a pagar a Israel – impopulares
entre o eleitorado conservador alemão – foram objecto de complicadas negociações com os representantes do Estado judaico.
Às vítimas da ocupação nazi na Grécia, o Governo Federal alemão aceitou pagar 115 milhões de marcos em 1960, na condição de que não seriam depois apresentadas reclamações individuais. De fora ficava, por exemplo, o empréstimo de 476 milhões de marcos arrancado aos gregos em 1941, que em valores actuais, e acrescidos juros de 3% ao ano, equivaleria a cerca de 70 biliões de euros. Várias instâncias internacionais, como o Tribunal de Justiça de Haia, têm, por outro lado, recusado dar provimento aos pedidos de compensação reclamados, a título individual, por sobreviventes de várias atrocidades nazis na Grécia.
Apesar de nas últimas décadas alguns políticos gregos terem tentado marcar pontos com a questão das reparações alemãs, a verdade é que até à crise das dívidas soberanas isso não constituiu um tema demasiado espinhoso na agenda entre os dois Estados. De certa forma, a pujança económica alemã foi um dos factores determinantes para o êxito do projecto europeu, de que os gregos foram óbvios beneficiários até há pouco tempo. E embora a historiografia tenda hoje a desvalorizar o impacto pernicioso das reparações na economia alemã do pós-I Guerra Mundial, parece indiscutível que o impacto político, esse, foi explosivo – algo que a memória europeia do período entre-guerras tem bem presente. E, tragicamente, essa é uma lição que a actual classe dirigente alemã parece estar a negligenciar, ao pretender impor programas de austeridade tão obviamente punitivos aos "maus alunos" da Eurolândia.
Historiador
Este texto é publicado no âmbito do projecto Público Mais
publico.pt/publicomais
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Ainda a importância de História
Se houver ainda mais necessidade de afirmar a importância da História é só seguir com atenção a exposição seguinte.
Basta aceder a
http://www.youtube.com/watch?v=FebPPRNtBAU&feature=email
Basta aceder a
http://www.youtube.com/watch?v=FebPPRNtBAU&feature=email
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Curiosidade - Medalhão português encontrado em Malaca

Independentemente das muitas questões que possa suscitar - como lá foi parar, quando, quem o levou, ... há milhentas hipóteses e todas plausíveis, importa conhecer esta pequenina história, porque, afinal, «se mais mundo houvera lá chegara!»
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Encontrado medalhão português do século XIII
dentro de um tubarão na Malásia (JN) 2012.Fev.23
Uma dona de casa de Klebang, na Malásia, encontrou um medalhão, de origem portuguesa e datado do século XIII, quando preparava um tubarão para cozinhar, divulgou hoje a comunicação social local.
O medalhão, com um peso de cerca de 10 gramas, exibe, num dos lados, o perfil de uma mulher com uma coroa na cabeça, enquanto que na outra face é visível a figura de um crucifixo e uma inscrição - ANTONII, referiu a mesma fonte.
De acordo com um historiador local, citado pelo diário The Star, o perfil feminino pertence à rainha Isabel, consorte do rei D. Dinis, que governou Portugal de 1279 a 1325.
A mulher que fez a descoberta, Suseela Menon, de 47 anos, encontrou o objecto dentro de um tubarão, que tinha comprado num mercado local.
"Decidimos não comer o tubarão, uma vez que o objecto parece ter elementos religiosos", afirmou Suseela, em declarações ao jornal. Para a dona de casa, mãe de duas crianças, a descoberta "foi uma bênção para a família".
O medalhão, com 7,4 centímetros de comprimento e seis de largura, pode ter sido transportado por um soldado ou missionário português durante a colonização da Malásia (Malaca) em 1511.
A cidade malaia esteve sob domínio português entre 1511 e 1641.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA
Artigo curioso num tempo em que tudo é visto imediatamente em função do dinheiro ... que escasseia, como é escasso o emprego que é a fonte desse dinheiro. É uma opinião pessoal, mas é uma achega para o debate. Que curso tirar, o que estudar?
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Muita asneira que para aí circula poderia ser evitada lendo um pouco mais sobre História
A nova luta de classes
(PÚBLICO) 2012.Fev.11 | José Pacheco Pereira*
Há dias, no programa Prós e Contras, um conselheiro de "ernpreendedorismo" teorizava, de forma prosélita e desenvolta, sobre as más escolhas de "projecto de vida" que justificariam muito do desemprego actual. Era evidente pela conversa, que achava que existia uma espécie de culpa individual em se estar desempregado. Pelo meio, perguntou, com evidente escárnio, a um desempregado se este tinha tirado um curso de História, uma imprevidência para quem quer ter um emprego. Não tenho dúvida de que quem formulava esta pergunta fazia parte de um dos lados do novo binómio da luta de classes descrito por Passos Coelho, o dos "descomplexados competitivos". O curso de História, se tivesse feito parte do currículo do desempregado, colocá-lo-ia de imediato na categoria de "preguiçoso autocentrado", antiquado e inútil, "piegas" e queixoso, a quem é preciso dar um abanão de pobreza a ver se se toma "competitivo". Estamos, como já referi, perante uma nova forma de luta de classes: a que opõe "descomplexados competitivos" a "preguiçosos autocen- trados". Pelos vistos, uma característica destes últimos é que se interessam por História.
É verdade que saber História vale muito pouco no mercado de trabalho, mas também é verdade que saber Matemática pura, Física Teórica, Astronomia, Biologia Molecular, já para não falar de Filosofia, Sociologia, Geografia, Grego Clássico e Latim, Literatura Portuguesa, também não valem muito mais. E, by the way, os milhares de licenciados em Marketing, Economia, Jornalismo, ou como se diz agora "Ciências de Comunicação", Artes Performativas, Arquitectura, Composição, os pianistas, violoncelistas, violinistas, também não vão muito longe. Seguindo o critério do nosso mago do "empreendedorismo" , não é muito difícil, e no meu caso gratuito, aconselhar cursos seguros e certos. Eu costumo aconselhar maltês, uma língua de que há enorme escassez de tradutores e intérpretes na UE, e o turco, russo, chinês e árabe também podem fazer parte do currículo dos candidatos a "descomplexados competitivos". Mandarim ou cantonês de certeza que têm futuro, assim como "beber a água do Bengo", na exacta composição químico-financeira corrente para esses lados.
Saber de História não é garantia de nada, nem o conhecimento da História garante que se saiba governar
um país. Mas ajuda, ajuda pelo menos a ter-se uma visão menos cega da nossa missão no governo das coisas privadas e públicas, e a conhecer alguma coisa sobre os limites do voluntarismo político. E ajuda bastante a não se ser ignorante, nem a se actuar como um ignorante quando se pensa que tudo começa em nós, essa ilusão adâmica muito corrente nestes dias. .
A História ajuda nas coisas grandes e nas pequenas, toma o mundo mais interessante e alimenta a curiosi- dade e o engenho. Para gostar de comer um croissant não é preciso olhar para ele com os olhos da História e perceber que se está a cometer um acto muito pouco politicamente correcto de turcofobia, ou, pior, de
islamofobia. Mas quem sabe o que é e de onde vem o croissant, costuma saber um pouco mais sobre a História da Europa e isso faz bem à sanidade do debate público. Muita asneira que para aí circula sobre os feriados e o seu significado, sobre a Maçonaria, sobre o comunismo, sobre o fascismo, sobre a democracia, poderia ser evitada lendo um pouco mais sobre História.
A História, como todas as formas de cultura viva, é uma forma de saber e olhar. Engana e ilude muito, mas também modera a tendência para a vã glória. Se é que a História nos ensina alguma coisa, é que poucas coisas são realmente importantes e que 99,99% dos casos o que fazemos pouco muda, ou não muda nada. Para os governantes, é obrigatório, para se enxergarem melhor, uma actividade a que normalmente não lhes “assiste”. Países como o Reino Unido, ou os EUA, têm a História no centro da política, o que nem sempre dá bons resultados, como se vê em França, onde todos os Presidentes do passado achavam que eram uma encarnação de Vercingétorix, Joana d'Arc, Luís XIV, Napoleão ou De GauIle e os actuais já ficam contentes em serem como o Astérix.
O discurso de Odivelas do primeiro-ministro ganhava alguma coisa com a História, embora, como ele se encontra na categoria dos "descomplexados competitivos", não ligue muito a uma disciplina dos perdedores. Mas assim saberia que, antes de nomear os "preguiçosos autocentrados" como seus adversários, deveria pensar duas vezes sobre o papel que o epíteto de "preguiçosos" tem quando é usado genericamente para designar grupos ou comportamentos sociais. Para os colonos, os "pretos" eram a quinta-essência dos "preguiçosos" e por isso deviam ser obrigados a trabalhar à força de castigos corporais. Puxem pela língua a muitos patrões e aos seus capatazes (hoje chamam-se "responsáveis pelo pessoal"), às "patroas" sobre as suas "criadas", e o epíteto de "preguiçoso" aparece quase de imediato. Em países em que coexistem zonas industrializadas com regiões rurais, os habitantes dessas regiões, o Alentejo, a Galiza, a Andaluzia, o Sul de Itália, são descritos em anedotas como "preguiçosos". Nos campos trabalha-se muito, dependendo do ciclo agrícola, e há períodos de inactividade, onde, como toda a gente sabe das anedotas, os alentejanos estão debaixo de um "chaparro" a ver o mundo passar em slow motion.
Existe, aliás, outra classificação que costuma vir junto, a de associar essa ruralidade à falta de inteligência e dificuldade em socializar de forma adequada, ou seja, não só eram estúpidos, limitados, como não sabiam comer à mesa. É para isso que servem os epítetos de "saloios" ou de "labregos", a interessante migração da palavra galega para camponês, que veio junto nos anos trinta e quarenta do século XX com os galegos, que a miséria da sua terra trouxe para trabalhar em mercearias e restaurantes, ou outros ofícios menores, em Lisboa e no Porto. O problema da História é este, o de tornar poucas palavras inocentes.
Na luta de classes entre os "descomplexados competitivos" e os "preguiçosos autocentrados", a ordem dos pares é interessante, quer na parte social, quer na do psicologismo vulgar. Os "preguiçosos" são primeiro preguiçosos e só depois são "autocentrados", e os "competitivos" são primeiro "descomplexados" e é por isso que são "competitivos". Os pares têm, por isso, uma ordem invertida: nos "preguiçosos", avulta a condição social, nos "descomplexados", a psicologia domina. Embora provavelmente nada disto tenha sido muito pensado e saiu assim, como poderia ter saído de outra maneira semelhante, este dualismo revela aquilo que os sociólogos chamam as background assumptions do seu autor. Os que estão presos na sua condição social, deixam soçobrar a sua psicologia no egoísmo; os dinâmicos psicologistas ultrapassam a sua condição social pelo êxito no mercado.
O país divide-se assim entre funcionários públicos, vivendo do erário público, acima das suas posses, e fazendo tudo para ter feriados e não trabalhar (os "preguiçosos"), cultivando um egoísmo social assente em pretensos "direitos adquiridos" ("autocentrados"); e jovens yuppies, dinâmicos e empreendedores, com uma "cultura empresarial", capazes de correrem riscos ("competitivos"), sem cuidarem de terem "direitos" para subirem "por mérito", na escala social ("descomplexados"). Nem uns nem outros existem na vida real, nem sequer como caricaturas, que é o que isto é, mas isso pouco importa.
A História está cheia destes dualismos, velhos como o tempo, mas típicos da linguagem abastardada do poder dos nossos dias. É um esquema assente numa mistura de demonização e de wishful thinking, que circula assente num moralismo social, também típico dos dias que passam. A História revela o poder destrutivo deste tipo de discursos, que se tomam, de um momento para o outro, socialmente insuportáveis.
Esse momento ainda não se deu, e os papagaios do "pensamento único" repetem este discurso sem pararem para pensar. Ou sequer para ler alguma coisa de História, mesmo com o risco de se tomarem "preguiçosos auto-centrados". Historiador
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Muita asneira que para aí circula poderia ser evitada lendo um pouco mais sobre História
A nova luta de classes
(PÚBLICO) 2012.Fev.11 | José Pacheco Pereira*
Há dias, no programa Prós e Contras, um conselheiro de "ernpreendedorismo" teorizava, de forma prosélita e desenvolta, sobre as más escolhas de "projecto de vida" que justificariam muito do desemprego actual. Era evidente pela conversa, que achava que existia uma espécie de culpa individual em se estar desempregado. Pelo meio, perguntou, com evidente escárnio, a um desempregado se este tinha tirado um curso de História, uma imprevidência para quem quer ter um emprego. Não tenho dúvida de que quem formulava esta pergunta fazia parte de um dos lados do novo binómio da luta de classes descrito por Passos Coelho, o dos "descomplexados competitivos". O curso de História, se tivesse feito parte do currículo do desempregado, colocá-lo-ia de imediato na categoria de "preguiçoso autocentrado", antiquado e inútil, "piegas" e queixoso, a quem é preciso dar um abanão de pobreza a ver se se toma "competitivo". Estamos, como já referi, perante uma nova forma de luta de classes: a que opõe "descomplexados competitivos" a "preguiçosos autocen- trados". Pelos vistos, uma característica destes últimos é que se interessam por História.
É verdade que saber História vale muito pouco no mercado de trabalho, mas também é verdade que saber Matemática pura, Física Teórica, Astronomia, Biologia Molecular, já para não falar de Filosofia, Sociologia, Geografia, Grego Clássico e Latim, Literatura Portuguesa, também não valem muito mais. E, by the way, os milhares de licenciados em Marketing, Economia, Jornalismo, ou como se diz agora "Ciências de Comunicação", Artes Performativas, Arquitectura, Composição, os pianistas, violoncelistas, violinistas, também não vão muito longe. Seguindo o critério do nosso mago do "empreendedorismo" , não é muito difícil, e no meu caso gratuito, aconselhar cursos seguros e certos. Eu costumo aconselhar maltês, uma língua de que há enorme escassez de tradutores e intérpretes na UE, e o turco, russo, chinês e árabe também podem fazer parte do currículo dos candidatos a "descomplexados competitivos". Mandarim ou cantonês de certeza que têm futuro, assim como "beber a água do Bengo", na exacta composição químico-financeira corrente para esses lados.
Saber de História não é garantia de nada, nem o conhecimento da História garante que se saiba governar
um país. Mas ajuda, ajuda pelo menos a ter-se uma visão menos cega da nossa missão no governo das coisas privadas e públicas, e a conhecer alguma coisa sobre os limites do voluntarismo político. E ajuda bastante a não se ser ignorante, nem a se actuar como um ignorante quando se pensa que tudo começa em nós, essa ilusão adâmica muito corrente nestes dias. .
A História ajuda nas coisas grandes e nas pequenas, toma o mundo mais interessante e alimenta a curiosi- dade e o engenho. Para gostar de comer um croissant não é preciso olhar para ele com os olhos da História e perceber que se está a cometer um acto muito pouco politicamente correcto de turcofobia, ou, pior, de
islamofobia. Mas quem sabe o que é e de onde vem o croissant, costuma saber um pouco mais sobre a História da Europa e isso faz bem à sanidade do debate público. Muita asneira que para aí circula sobre os feriados e o seu significado, sobre a Maçonaria, sobre o comunismo, sobre o fascismo, sobre a democracia, poderia ser evitada lendo um pouco mais sobre História.
A História, como todas as formas de cultura viva, é uma forma de saber e olhar. Engana e ilude muito, mas também modera a tendência para a vã glória. Se é que a História nos ensina alguma coisa, é que poucas coisas são realmente importantes e que 99,99% dos casos o que fazemos pouco muda, ou não muda nada. Para os governantes, é obrigatório, para se enxergarem melhor, uma actividade a que normalmente não lhes “assiste”. Países como o Reino Unido, ou os EUA, têm a História no centro da política, o que nem sempre dá bons resultados, como se vê em França, onde todos os Presidentes do passado achavam que eram uma encarnação de Vercingétorix, Joana d'Arc, Luís XIV, Napoleão ou De GauIle e os actuais já ficam contentes em serem como o Astérix.
O discurso de Odivelas do primeiro-ministro ganhava alguma coisa com a História, embora, como ele se encontra na categoria dos "descomplexados competitivos", não ligue muito a uma disciplina dos perdedores. Mas assim saberia que, antes de nomear os "preguiçosos autocentrados" como seus adversários, deveria pensar duas vezes sobre o papel que o epíteto de "preguiçosos" tem quando é usado genericamente para designar grupos ou comportamentos sociais. Para os colonos, os "pretos" eram a quinta-essência dos "preguiçosos" e por isso deviam ser obrigados a trabalhar à força de castigos corporais. Puxem pela língua a muitos patrões e aos seus capatazes (hoje chamam-se "responsáveis pelo pessoal"), às "patroas" sobre as suas "criadas", e o epíteto de "preguiçoso" aparece quase de imediato. Em países em que coexistem zonas industrializadas com regiões rurais, os habitantes dessas regiões, o Alentejo, a Galiza, a Andaluzia, o Sul de Itália, são descritos em anedotas como "preguiçosos". Nos campos trabalha-se muito, dependendo do ciclo agrícola, e há períodos de inactividade, onde, como toda a gente sabe das anedotas, os alentejanos estão debaixo de um "chaparro" a ver o mundo passar em slow motion.
Existe, aliás, outra classificação que costuma vir junto, a de associar essa ruralidade à falta de inteligência e dificuldade em socializar de forma adequada, ou seja, não só eram estúpidos, limitados, como não sabiam comer à mesa. É para isso que servem os epítetos de "saloios" ou de "labregos", a interessante migração da palavra galega para camponês, que veio junto nos anos trinta e quarenta do século XX com os galegos, que a miséria da sua terra trouxe para trabalhar em mercearias e restaurantes, ou outros ofícios menores, em Lisboa e no Porto. O problema da História é este, o de tornar poucas palavras inocentes.
Na luta de classes entre os "descomplexados competitivos" e os "preguiçosos autocentrados", a ordem dos pares é interessante, quer na parte social, quer na do psicologismo vulgar. Os "preguiçosos" são primeiro preguiçosos e só depois são "autocentrados", e os "competitivos" são primeiro "descomplexados" e é por isso que são "competitivos". Os pares têm, por isso, uma ordem invertida: nos "preguiçosos", avulta a condição social, nos "descomplexados", a psicologia domina. Embora provavelmente nada disto tenha sido muito pensado e saiu assim, como poderia ter saído de outra maneira semelhante, este dualismo revela aquilo que os sociólogos chamam as background assumptions do seu autor. Os que estão presos na sua condição social, deixam soçobrar a sua psicologia no egoísmo; os dinâmicos psicologistas ultrapassam a sua condição social pelo êxito no mercado.
O país divide-se assim entre funcionários públicos, vivendo do erário público, acima das suas posses, e fazendo tudo para ter feriados e não trabalhar (os "preguiçosos"), cultivando um egoísmo social assente em pretensos "direitos adquiridos" ("autocentrados"); e jovens yuppies, dinâmicos e empreendedores, com uma "cultura empresarial", capazes de correrem riscos ("competitivos"), sem cuidarem de terem "direitos" para subirem "por mérito", na escala social ("descomplexados"). Nem uns nem outros existem na vida real, nem sequer como caricaturas, que é o que isto é, mas isso pouco importa.
A História está cheia destes dualismos, velhos como o tempo, mas típicos da linguagem abastardada do poder dos nossos dias. É um esquema assente numa mistura de demonização e de wishful thinking, que circula assente num moralismo social, também típico dos dias que passam. A História revela o poder destrutivo deste tipo de discursos, que se tomam, de um momento para o outro, socialmente insuportáveis.
Esse momento ainda não se deu, e os papagaios do "pensamento único" repetem este discurso sem pararem para pensar. Ou sequer para ler alguma coisa de História, mesmo com o risco de se tomarem "preguiçosos auto-centrados". Historiador
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
História da Arte - um contributo fundamental da Química
"CRISTO E A MULHER ADÚLTERA",
QUE CHEGOU A SER ATRIBUIDO
A JOHANNES VERMEER, NÃO
PASSA DE UMA FALSIFICAÇÃO
SEGREDOS DA HISTÓRIA DA ARTE
Expresso/Atual, 2011.Agosto.20 | Virgílio Azevedo
João Peixoto Cabral, pioneiro na aplicação em Portugal de métodos nucleares na investigação em arqueologia e nos estudos de história da arte, lança, aos 83 anos de idade, uma obra única a nível internacional: ”A Radioactividade - Contributos para a História da Arte"
Aos 83 anos, João Pei¬xoto Cabral lançou-se num projeto ambicio¬so: fazer um manual que explicasse ao mes¬mo tempo ao público em geral, aos estudan¬tes e aos peritos – de uma forma exaustiva, rigorosa, profusamen¬te ilustrada e com exemplos concretos – o papel decisivo da radioatividade na história da arte. A tare¬fa não era fácil, porque ninguém tinha feito em Por¬tugal ou a nível internacional uma obra desta enver-gadura. Mas o professor jubilado de Radioquímica do Instituto Superior Técnico (IST) não tinha pressa e demorou três anos a completar o seu projeto.
"A Radioactividade - Contributos para a Histó¬ria da Arte", lançada recentemente pela IST Press, é uma obra monumental, com quase 500 páginas, on¬de estão em destaque os métodos de datação de pin¬turas e esculturas deixadas por gerações de artistas talentosos ao longo de séculos e milénios. Dividida em duas partes - 'A Radioactividade' e 'Contributos para a História da Arte' –, o livro aborda a radioativi¬dade natural e artificial, os processos de decaimento radioativo, a interação das radiações com a matéria, a datação com base na radioatividade da arte paleolí¬tica, a autenticação de obras de arte – desde as pin¬turas de cavalete às esculturas em terracota, cerâmi¬ca ou metal. E o seu exame por irradiação de neu¬trões, onde a aplicação da chamada autorradiogafia às pinturas de Van Dyck, Rembrandt ou Vermeer, permitiu descobrir detalhes sobre os seus esboços originais, alterações feitas ao longo da execução das suas obras, enfim, o que passou pela mente destes pintores geniais no processo de criação artística.
O prestigiado físico nuclear alemão Joseph Ma¬gill, do laboratório europeu Joint Research Centre, interessou-se pelo livro e apoiou o autor, tal como Jean Clottes, o maior especialista francês – e um dos maiores do mundo – em arte rupestre, que for¬neceu gratuitamente várias das fotos que o ilus¬tram. O conhecido arqueólogo português João Zi¬lhão, professor catedrático de investigação na Insti¬tuição Catalã para a Investigação Avançada (ICREA) da Universidade de Barcelona, e um dos apresentadores do livro na sessão de lançamento, argumenta que, na datação das obras de arte, "os arqueólogos não têm muitas vezes os conhecimen¬tos técnicos necessários nas áreas da física e da quí¬mica e, em contrapartida, os laboratórios não pon¬deram o contexto arqueológico, cultural e ambien¬tal do que estão a analisar". Ou seja, "não têm co¬nhecimentos profundos para serem suficientemen¬te críticos". Quem fica a perder é, obviamente, a história da arte,
"O ideal é que existam arqueólogos que perce¬bam o suficiente das técnicas da física e da química e físicos e químicos com experiência na datação que tenham um conhecimento profundo da história da arte", prossegue João Zilhão. "Isso é raro em Portu¬gal e no mundo, mas João Peixoto Cabral reúne as duas qualidades, o que se reflete no seu livro." O próprio autor explica ao Expresso que, "desde que a energia nuclear caiu em desgraça, a radioquímica e a física nuclear perderam interesse por parte das próprias universidades". Peixoto Cabral reconhece que há falta de informação em Portugal sobre esta matéria entre os arqueólogos, e Fernando Pina, que escreveu o prefácio do livro e é presidente do Depar¬tamento de Conservação e Restauro da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, salienta que "estamos num país onde as ofer¬tas educativas nesta área são escassas e onde a maio¬ria das pessoas abomina e teme o nuclear". E se as ciências ligadas à física e à química nucleares "têm sido por vezes usadas de um modo condenável, per¬mitem ao mesmo tempo um maior conhecimento da atividade do Homem ao longo da História".
Os exemplos dados por João Peixoto Cabral na sua obra são, sem dúvida, esclarecedores a este res¬peito. É o caso da história de Han Van Meegeren, um artista holandês com talento mas, sobretudo, um falsificador exímio com uma atração especial pe¬los quadros de Johannes Vermeer, o famoso pintor holandês do século XVII. Em novembro de 1937, o historiador de arte Abraham Bredius anunciou a descoberta de um quadro de Vermeer, "Cristo em Emaús", tendo afirmado que se tratava de uma pin¬tura de rara beleza e de elevada qualidade artística. A obra foi considerada uma falsificação por um peri¬to de uma leiloeira mas acabou por ser comprada a peso de ouro pelo Museu Boymans de Roterdão.
Quando as tropas nazis ocuparam a Holanda, du¬rante a Segunda Guerra Mundial, surgiram no mer¬cado mais quadros de Vermeer que acabaram por ser comprados por colecionadores. O mais célebre foi o marechal alemão Hermann Göring, que adqui¬riu o quadro "Cristo e a Mulher Adúltera" (ver imagem) a um banqueiro nazi. Depois da guerra, em 1945, Göring foi julgado pelo Tribunal de Nuremberga e condenado à morte, tendo-se suicidado na prisão. O quadro foi encontrado na sua coleção e as investiga¬ções da polícia concluíram que tinha sido vendido a Göring através de Han Van Meegeren.
O artista holandês foi então acusado de colabora¬ção com os nazis, tendo sido preso e julgado como traidor em 1946, o que podia ter levado à pena de morte. Mas, no julgamento, Meegeren argumentou, em sua defesa, que o "Cristo e a Mulher Adúltera" era falso porque fora pintado por ele, bem como to¬dos os quadros inéditos de Vermeer descobertos en¬tre 1939 e 1943. Para o provar – e para provar a sua inocência – pintou um novo quadro ao estilo de Ver¬meer perante uma equipa de peritos, a que chamou "Jesus entre os Doutores". O tribunal decidiu, por isso, que os 'Vermeers' fossem analisados nos labora¬tórios do Instituto Real do Património Artístico de Bruxelas, que efetivamente confirmou que todos os quadros eram falsos, com base em três evidências: foi encontrado azul-cobalto, um pigmento sintético que só começou a ser fabricado depois da morte de Vermeer (século XVIII); todas as pinturas conti¬nham baquelite, uma resina descoberta apenas no início do século XX; as radiografias tiradas às obras mostravam que as fissuras no verniz eram superfi¬ciais, ao contrário do que acontecia nos verdadeiros quadros de Vermeer, onde eram mais fundas, Mas as dúvidas continuaram e só em 1968, através de um novo método de datação de obras de arte baseado na radioatividade natural do pigmento branco de chumbo, tudo ficou devidamente esclarecido.
Outra polémica relatada no livro é bem conheci¬da dos portugueses: as gravuras do vale do Coa, des-cobertas em 1994, tendo as mais antigas sido dese¬nhadas há cerca de 20 mil anos. Hoje são considera¬das o maior complexo de arte rupestre paleolítica ao ar livre do mundo e levaram a EDP a desistir da cons¬trução de uma barragem. A empresa encomendou na altura a datação a quatro peritos estrangeiros, que concluíram que as gravuras não seriam paleolíti¬cas mas teriam apenas 200 anos. Um deles, o austra¬liano Robert Bednarik, assinou mesmo um artigo na revista "Antiquity" onde criticou os argumentos e os métodos de datação usados por arqueólogos portu¬gueses e de outras nacionalidades para provarem a antiguidade das gravuras. João Zilhão liderou a con¬testação a Bednarik, publicando um artigo na mes¬ma edição da revista, e a polémica foi tão grande que no Congresso Internacional de Arte Rupestre em Tu¬rim, em 1995, as gravuras do Coa foram praticamen¬te o único tema em debate. Os métodos de datação usados em toda a investigação foram muito diversifi¬cados (radiocarbono, microerosão, termolumines¬cência, luminescência estimulada oticamente, etc.) e acabaram por dar razão à tese de João Zilhão. A
vazevedo@expresso.impresa.pt
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Guerra e clima
A crise actual na Somália está ligada com o clima (Feisal Omar/Reuters)
Estudo publicado na Nature
Um quinto das guerras desde 1950 está associado ao El Niño
(PÚBLICO) 2011.08.24 | Nicolau Ferreira
Sempre se tentou relacionar acontecimentos climáticos e meteorológicos a conflitos, guerras ou fins de civilizações, desde a queda do império Egípcio em 2180 a.C. até à Revolução Francesa, em 1789. O que agora uma equipa de cientistas acrescentou foram números que mostram que o fenómeno climático El Niño faz duplicar as probabilidades da existência de guerras e conflitos civis nas regiões do globo que sofrem os efeitos do aquecimento das águas do oceano Pacífico. O estudo publicado nesta quarta-feira na edição online da revista Nature defende ainda que um quinto dos conflitos no mundo desde 1950 está associado de alguma forma a este fenómeno.
“Tradicionalmente, pensa-se que os fenómenos socioeconómicos são os principais responsáveis pelos conflitos. O que é surpreendente no nosso estudo é a capacidade que o clima global tem para provocar violência”, disse ao PÚBLICO Kyle Meng, da Universidade de Columbia, Nova Iorque (EUA) e um dos três investigadores responsáveis pelo estudo.
O El Niño serve como modelo perfeito para estudar a dicotomia entre guerras e clima. Acontece a cada três a sete anos, faz subir as temperaturas e diminui as chuvas nas zonas dos trópicos, e é alternado pela La Niña, que se traduz por um arrefecimento das águas do Pacífico, e que inverte a situação meteorológica dos países afectados pelo El Niño.
Os investigadores dividiram os países da Terra num grupo afectado pelo fenómeno e noutro não afectado. Depois mediram os conflitos civis desde 1950, partindo do princípio que um novo conflito num país tinha que estar temporalmente separado do anterior por dois anos e tinha que ter sido responsável por pelo menos 25 mortos. Os dados incluíram ao todo 234 conflitos, mais de metade matou acima de mil pessoas.
Antecipar crises
Os resultados mostram que nos anos de El Niño, os países que estão sob a sua influência climática duplicam a probabilidade de três para seis por cento de iniciarem um conflito civil. No grupo de países que não estão sob o jugo do El Niño — Europa, Ásia e parte da América do Norte —, a probabilidade do início de uma guerra civil é sempre de dois por cento ao longo dos anos. “É muito difícil dizer se estes países são mais pacíficos porque estão menos expostos aos efeitos do El Niño ou porque têm instituições políticas estáveis ou por outra razão qualquer”, disse Meng.
O estudo conclui também que nos últimos 60 anos, o El Niño “pode ter afectado” 21 por cento dos conflitos no mundo e 30 por cento dos conflitos nos países susceptíveis ao fenómeno. “O mais importante deste estudo é que olha para os tempos modernos, e é feito numa escala global”, disse por comunicado Solomon Hsiang, co-autor do artigo, acrescentando que as pessoas não podem argumentar que a humanidade está imune ao clima.
Segundo o autor, a crise actual na Somália, onde já foi declarada a fome, é um exemplo perfeito das consequências do El Niño.
Apesar do estudo não fazer uma ligação directa entre os efeitos do El Niño e o início dos conflitos, os autores defendem que já se pode actuar sobre o problema. Pode-se prever o El Niño e “o mundo tem algum tempo de avanço para se preparar para surtos de violência, muito pode ser feito por instituições como a ONU”, disse Mong.
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