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sábado, 22 de junho de 2013
terça-feira, 28 de maio de 2013
domingo, 28 de outubro de 2012
«Descobrimento/Achamento» do Brasil
Assunto histórico interessante, devidamente contextualizado, porque este assunto é «mais abordado» no 8.º ano e a problematizaçao é ainda muito incipiente
Francisco Contente Domingues
O caso Pacheco Pereira
(PÚBLICO) 2012.Out.14 - Frederico Carvalho / Entrevista
Afinal quem chegou primeiro ao Brasil, Pedro Álvares Cabral ou Duarte Pacheco Pereira? Uma nova resposta é dada por Francisco Contente Domingues, da Universidade de Lisboa: Duarte Pacheco Pereira foi lá em 1498, mas não percebeu onde estava, por ter uma imagem errada do mundo
Duarte Pacheco Pereira, um dos grandes navegadores dos séculos XV-XVI e capitão de guerra na Índia, primeiro grande herói da Expansão recebido em Lisboa com um desfile triunfal e a quem Camões chamou "Aquiles lusitano", deixou na obra Esmeraldo de Situ Orbis frases que têm sido tomadas como prova do descobrimento do Brasil antes de 1500, a data oficial. O debate mantém-se aceso desde que o escrito foi revelado em 1892. Francisco Contente Domingues, professor de História dos Descobrimentos na Universidade de Lisboa, propõe-se romper o círculo vicioso com uma interpretação inovadora, num livro lançado esta semana em Lisboa: A Travessia do Mar Oceano. A viagem ao Brasil de Duarte Pacheco Pereira em 1498 (ed. Tribuna da História).
Porquê voltar a debater hoje as incógnitas da exploração de Duarte Pacheco Pereira em 1498, depois de mais de um século de polémicas?
Porque é um problema que está mal resolvido.
Decidiu pôr perguntas novas à passagem do Esmeraldo de Situ Orbis onde é mencionada a travessia do Atlântico. Pode sintetizar a sua proposta?
Acho que nunca foi colocada a questão de se saber o resultado da viagem em função da visão do mundo do próprio navegador. Os historiadores pensaram sempre em função da imagem do mundo que ternos hoje. Assim sendo, discutiram resultados que não eram compatíveis com aquilo que o navegador encontrou. Depois, a visão do mundo que está plasmada no Esmeraldo tem uma expressão cartográfica. Há um mapa de 1519 que ilustra bem o que é a concepção de Duarte Pacheco Pereira – coisa que já foi notada desde Armando Cortesão, mas nunca tinha sido feita a articulação entre o texto e o mapa para chegar à conclusão devida sobre o alcance da viagem.
Ponto capital da sua interpretação: Pacheco Pereira passou para a outra margem e chegou a uma terra desconhecida que, para ele, não era continental nem insular. Era o quê, então?
Urna das duas concepções do mundo dominantes na época pretendia que todo o mundo conhecido e todos os oceanos eram rodeados por terra. No texto de Pacheco Pereira, aquilo que ele está verdadeiramente a discutir quando fala desta viagem é qual a proporção entre terra e água. Ele conclui que a terra ocupa a maior parte do espaço e que a água se situa no centro. É, em termos gerais, a concepção ptolomaica do mundo [de Cláudio Ptolomeu, séc. II d.C.]. Duarte Pacheco pensa que chegou a essa terra que tudo envolve – como ele diz, "que vai em cercoito per toda a redondeza". A ideia de continente ou de ilha não se aplica a este conceito.
Mas concorda com Jorge Couto, que diz em A Construção do Brasil (ed. Cosmos, 1995) que o Esmeraldo mostra uma "observação directa" da orla marítima da região amazónica?
Concordo genericamente. Pacheco Pereira deve ter estado naquilo a que nós hoje chamamos Brasil, e a descrição que faz pode significar que andou também pelo mar das Caraíbas. Creio que foi uma viagem longa, ligada à necessidade de identificar os territórios que pertenciam a Portugal ou a Castela de acordo com o Tratado de Tordesilhas, de 1494.
Escreve no seu livro: "Discutir quem foi o primeiro a chegar a uma terra até então desconhecida podia fazer sentido há 50 anos, mas hoje não é assim". A maioria das pessoas que se interessam pelos Descobrimentos fora do mundo académico diria o contrário. Quer explicar?
Quando pensamos em descobrimentos em História, pensamos num universo cultural que detém um conhecimento geográfico e vê esse conhecimento ser acrescido. Saber quem foi o primeiro a chegar a um sítio é impossível. Quando muito, podemos saber quem foi o primeiro que deixou notícia de ter chegado. A segunda distinção tem a ver com o impacto dessa viagem. Urna viagem fortuita que não tem consequências não cabe na noção de descobrimento corno nós a usamos. A questão não é ir pela primeira vez: é ir, dar conhecimento dessa nova realidade e haver capacidade para lá voltar sucessivamente, integrando esse território no conhecimento colectivo. Normalmente a forma corno isso ocorre é através da representação
cartográfica.
A questão da primazia perde então toda a relevância?
Pode ter alguma relevância quando há viagens praticamente simultâneas e se põem questões de natureza política quanto à ocupação de territórios.
Mas a viagem de Pacheco Pereira não foi fortuita. Ele diz que a fez a mando do rei.
Não foi fortuita, foi de certeza muito intencional. Mas julgo, porque certezas absolutas não há, que não foi feita com o objectivo de descobrir terras novas.
A carta de Pêro Vaz de Caminha a D. Manuel I, em 1500, deve assim continuar a ser considerada a "certidão de nascimento" do Brasil?
Sim, é um dos três documentos que elucidam uma viagem [a de Pedro Álvares Cabral] e pode ser considerada o primeiro testemunho real e duradouro da chegada dos portugueses ao Brasil, a par das cartas de Mestre João e do chamado Piloto Anónimo. A carta de Pêro Vaz é a mais importante das três.
Como explicar que Duarte Pacheco tenha mantido uma ideia próxima da Geografia de Ptolomeu, vendo o Atlântico como "uma muito grande alagoa metida dentro na concavidade da terra", sendo ele um perito da navegação, tendo participado nas negociações do Tratado de Tordesilhas e viajado até à Índia duas vezes, e quando em Portugal já se produziam mapas como o Planisfério de Cantino, em 1502?
Essa é a parte difícil de entender, apenas porque para nós hoje não é fácil compreender que haja duas maneiras radicalmente distintas e coexistentes de ver o mundo. A questão é essa: há. Na época, muita gente acreditava que o mundo era como disse Ptolomeu, enquanto outros acreditavam exactamente no contrário, que a água rodeia toda a terra. Isto tem a ver com o facto de a representação de Ptolomeu não ser conflituante de com as viagens feitas até então. Por outro lado, joga-se em cima da mesa quer todo o prestígio da cultura clássica, quer o facto de a imagem de Ptolomeu ser aquela que mais se aproxima dos textos sagrados, e da Bíblia em primeiro lugar. Digamos que seria mais lógico as pessoas estarem de acordo com Ptolomeu do que com a perspectiva contrária.
Mas quando foi escrito o Esmeraldo as navegações não tinham já mostrado erros de Ptolomeu?
O Esmeraldo terá sido escrito entre 1505 e 1508, e em 1507 saiu uma edição extremamente interessante da Geografia de Ptolomeu. Até então, as cartas acrescentadas a Ptolomeu mostravam que não havia ligação entre o Atlântico e o Índico. Na nova edição, as chamadas "tábuas novas" já mostram a ligação dos oceanos, mas ao mesmo tempo continuam a incluir-se as cartas antigas em que a ligação não existe. É a melhor prova de que esta é uma matéria conflitual.
O facto de o Esmeraldo se ter mantido impublicado pode explicar-se por ter sido contraditado pela circum-navegação de Magalhães e Elcano, em 1519-22?
Penso que a razão é exactamente essa. Tem havido discussão sobre isso, e alguns autores pretenderam que havia sobre a obra uma espécie de segredo devido à sua importância. Mas na verdade o Esmeraldo circulava em cópias manuscritas. Foi utilizado por João de Barros e foi levado para Espanha por um espião ao serviço de Filipe II chamado João Baptista Gésio.
Em que medida a exploração de Pacheco Pereira está ligada à terceira viagem de Colombo, que ia reconhecer a parte Sul das novas descobertas? Os reinos ibéricos, mesmo depois de Tordesilhas, estavam numa corrida de marcação de território?
A demarcação interessava mais a Castela do que a Portugal, porque Portugal estava voltado para o Oriente. Mas julgo que havia interesse em tentar perceber o que havia ali, porque em 1498 ninguém tinha a certeza. Creio, por isso, não ser coincidência que Colombo tenha feito uma viagem para explorar parte da costa sul-americana ao mesmo tempo que Duarte Pacheco fala da sua viagem.
Vários autores dizem que D. Manuel não divulgou a viagem de Duarte Pacheco porque percebeu que boa parte do litoral percorrido estava na esfera castelhana. Concorda?
É muito possível que ele tenha viajado por regiões que pertenceriam a Castela. Mas eu não tenho resposta para tudo, e ninguém tem.
Noutros escritos seus, refuta a ideia de que houve uma política de sigilo dos monarcas portugueses relativa às navegações. Então o silêncio sobre a exploração de Pacheco Pereira e a retenção durante um ano da informação da descoberta de Cabral são meramente circunstanciais?
Refuto a existência da política de sigilo no exacto seguimento do que foi escrito por Damião Peres há uns 80 anos: o sigilo é um contra-senso, porque na ausência de regulação político-diplomática, como a que decorre de tratados, o principal critério que permite reclamar a soberania de uma terra é dizer que se chegou lá primeiro. O que faz sentido é publicitar. Em relação ao que nós hoje chamamos Brasil, penso que era um destino secundário para as navegações portuguesas, que estavam completamente voltadas para Oriente. No final do século XV e primeiras décadas do século XVI, o rei via a costa brasileira como ponto de apoio da rota da Índia e não um destino em si mesma. A exploração do território não tomou um projecto da Coroa de imediato .
Diz acreditar que Pacheco não foi estranho à elaboração do mapa-múndi de Lopo Homem, de 1519, mas só revelado no século xx. Esse mapa apresenta uma reconhecível costa brasileira, mas desenha-a como excrescência de uma terra que circunda os velhos três continentes e os oceanos, ao arrepio de quase toda a cartografia da época. Como crer que Pacheco Pereira tenha colaborado nessa visão depois, por exemplo, do famoso mapa de WaldseemüIler, em que surge o nome América, em 1507?
A influência de Pacheco Pereira pode ter existido na construção de um mapa que reflecte exactamente aquilo que ele pensava, mas em rigor não é necessária; havia várias pessoas a pensar a mesma coisa. A coincidência no tempo e no espaço da redacção do Esmeraldo e da elaboração do mapa de Waldseemüller também não deve espantar-nos: corno já disse, visões do mundo opostas são perfeitamente coexistentes. Os europeus ainda não têm o quadro do conhecimento geográfico global. Compreender essa coexistência, insisto, é a dificuldade do historiador actual.
A frase mais citada do Esmeraldo é "a experiência, que é madre das cousas, nos desengana e de todas as dúvidas nos tira". Na sua análise mostra como o autor invoca a experiência para dar força à descrição errada do mundo. E distingue esta experiência prática da experimentação-base da revolução científica do séc. XVII, como construída por Galileu, Bacon ou Newton.
Está perfeitamente claro que a experiência de Pacheco Pereira é a experiência empírica e não a científica. O que é interessante é que a experiência é o terceiro argumento que ele invoca, por ordem de importância, para justificar a sua visão da forma do mundo, depois dos textos bíblicos e dos autores da Igreja medieval. A experiência dele certifica um erro.
Concluindo: afinal tanto Colombo, que morreu acreditando ter chegado perto da China ou da Índia, como Pacheco Pereira, pelo que sabemos o primeiro a atingir a costa do Brasil, estavam os dois fundamentalmente errados?
Penso que Colombo, no final da vida, sabia aonde tinha chegado. Era melhor navegador do que aquilo que a historiografia portuguesa gosta de admitir, e não tão excelente corno muitos historiadores italianos e castelhanos gostam de dizer. O engano que cometeu na primeira viagem não era sustentável por muito tempo. Julgo que a persistência na afirmação de que chegara ao destino original tinha a ver com a necessidade de manter a sua posição perante os patronos, os Reis Católicos – mas ninguém podia adivinhar na época que existia aquele quarto continente. Quanto a Pacheco Pereira, haveria de perceber ainda em vida, com a circum-navegação de Fernão de Magalhães, que o mundo não era como ele pensava.
terça-feira, 17 de julho de 2012
Elvas, Património Mundial
Fiel àquele princípio de que vale mais uma imagem que mil palavras, nada como aceder a http://videos.publico.pt/Default.aspx?Id=0c21bad0-29cd-4c89-b830-781fb51a671d
A visita vale a pena.
domingo, 8 de julho de 2012
FORTIFICAÇÕES DE ELVAS, PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE
O Expresso de 2012.junho.30, dá notícia da elevação a Património Mundial da Humanidade das Fortificações de Elvas. Um pedaço da nossa História que ficará salvaguardada para lá dos tempos afirmando a nossa nacionalidade e a luta pela independência.
Fortificações de Elvas são Património Mundial
Expresso.2012.junho.30
UNESCO classifica como Património Mundial todas as fortificações de Elvas, o único monumento português entre os 33 candidatos.
A maior fortificação abaluartada do mundo, em Elvas, foi hoje classificada como Património Mundial, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), revelou à Agência Lusa fonte do município.
As fortificações de Elvas foram classificadas, na categoria de bens culturais, ao início da tarde de hoje na 36.ª sessão do Comité do Património Mundial, que está reunido até 6 de julho, em São Petersburgo, na Rússia.
O conjunto de fortificações de Elvas, cuja fundação remonta ao reinado de D. Sancho II, é o maior do mundo na tipologia de fortificações abaluartadas terrestres, possuindo um perímetro de oito a dez quilómetros e uma área de 300 hectares.
Único monumento português
As fortificações de Elvas constituíam o único monumento português entre os 33 candidatos que fazem parte da lista de Património Mundial, elaborada pela Unesco.
A fonte do município explicou à Lusa que foram classificadas todas as fortificações da cidade, os dois fortes, o de Santa Luzia, do século XVII, e o da Graça, do século XVIII, três fortins do século XIX, as três muralhas medievais e a mudalha do século XVII, além do Aqueduto da Amoreira.
Classificado como Património Nacional em 1910, o Forte da Graça, monumento militar do século XVIII situado a dois quilómetros a norte da cidade de Elvas, constitui um dos símbolos máximos das fortalezas abaluartadas em zonas fronteiriças.
O Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios (ICOMOS) já tinha dado parecer "decisivo e favorável", tendo sido provado que as fortificações da cidade alentejana "reúnem o valor universal excecional, que é o principal para que uma candidatura seja aprovada", segundo a vereadora da Cultura do município de Elvas, Elsa Grilo.
Ler mais: http://expresso.sapo.pt/fortificacoes-de-elvas-sao-patrimonio-mundial=f736687#ixzz1zUd0Z0ZL
ARTE RUPESTRE
O Expresso, de 2012.Junho.16, dá notícia de uma descoberta no campo da pré-História que antecipa, no tempo, a arte rupestre. Os manuais do 7.º ano indicam esta atividade do homem com o homo sapiens sapiens. Cabe agora refrenciá-la com o homo sapiens / Homem de Neanderthal.
Pintura rupestre deve ter começado com homem de Neanderthal
Uma nova técnica radiométrica ajudou a descobrir que a prática artística pré-histórica deve ter começado na Europa, dez mil anos antes do que os cientistas previam.
A gruta de El Castillo, em Espanha, tem a pintura rupestre mais antiga da Europa, com mais de 40.000 anos, noticiaram as agências internacionais, citando uma nova investigação na qual participou o arqueólogo português João Zilhão.
A investigação, com recurso à técnica radiométrica com urânio e tório, foi efetuada em 50 pinturas paleolíticas de 11 grutas localizadas nas regiões espanholas das Astúrias e Cantábria, incluindo as grutas de Altamira, El Castillo e Tito Bustillo.
Em El Castillo, os peritos detetaram uma gravura que creem ter mais de 40.800 anos.
Até há bem pouco tempo, a gruta Abri Castanet, em França, reclamava ter a imagem rupestre mais antiga da Europa, com 37.000 anos.
Estudo é publicado hoje
Na descoberta agora divulgada participaram 11 investigadores, incluindo o português João Zilhão, especialista em arqueologia pré-histórica e antigo coordenador do projeto do Parque Arqueológico do Vale do Côa.
O estudo, a publicar hoje na revista "Science", conclui que a prática artística pré-histórica começou na Europa talvez dez mil anos antes do que os cientistas previam e pela mão do homem de Neanderthal, que terá morrido há cerca de 40.000 anos.
Segundo um dos investigadores envolvidos na descoberta, Alistair Pike, da Universidade de Bristol, no Reino Unido, "os resultados desta datação mostram que os homens modernos terão chegado de África à Europa, com a pintura mural a fazer já parte das suas atividades culturais ou a ser desenvolvida por eles muito rapidamente".
Ainda de acordo com o mesmo especialista, "os vestígios da presença dos homens modernos no norte de Espanha remontam a 41.500 anos, altura em que havia ainda [na região] homens de Neanderthal".
Medir a idade dos sedimentos carborizados
A técnica de datação usada na investigação mede a idade dos sedimentos carbonizados sobre as pinturas, mas não data a camada superior dos pigmentos, para não os estragar.
Por isso, ressalva o arqueólogo João Zilhão, as pinturas poderão ser "vários milhares de anos mais antigas do que os sedimentos carbonizados que as cobrem".
Ver mais em
http://expresso.sapo.pt/pintura-rupestre-deve-ter-comecado-com-homem-de-neanderthal=f733078
sábado, 5 de maio de 2012
Dia 9 de Maio, dia da Europa!
Para melhor conhecer a Europa, e utilizando informação específica do 8.º ano de escolaridade, eis um exercício e um desafio. JOGAR É APRENDER.
http://portal.esesmoriz.edu.pt/images/stories/2011_2012/DiaEuropa2012/DiaEuropa2012.htm
E para construir a Europa - União Europeia» - acede a
http://www.bpb.de/fsd/europapuzzle/puzzle_flash1.html
e diverte-te.
1.º de Dezembro - Dia da Restauração de Portugal
Portugal assiste a alguma «discussão» sobre se deve ou não continuar a ser feriado nacional o dia 1 de Dezembro. E isto em nome do aumento da produtividade. Sim? Não?
Mais uma vez, se recorre ao Público.
Queremos ser independentes ou não?
Debate Feriado do 1.º de Dezembro
(PÚBLICO) 2012.Abril.05 - José Loureiro dos Santos (General)
Atualmente, a independência já não é uma postura que procura garantir a sobrevivência de um país orgulhosamente só. A globalização, que entrelaçou os interesses das unidades políticas e as tornou incapazes de resolverem por si só os problemas com que se confrontam, implicou um tipo de independência cuja garantia depende frequentemente mais das interdependências do que de um isolamento pretensamente autossuficiente. O que deverá ser traçado com subtileza e inteligência de atuação estratégica.
Uma vez que, na democracia, o Estado emana da nação (conjunto dos cidadãos), é indispensável que esta percecione que as decisões políticas sejam capazes de garantir que, em cada circunstância, prevaleça a vontade de ela agir em conformidade com os seus interesses.
A liberdade de ação de um país consegue-se através de estratégias de afirmação nacional que passam pela utilização dos diferentes vetores estratégicos à disposição do Estado e da sociedade civil com a finalidade de garantir o bem-estar e a segurança nacional.
Agindo no domínio da economia, das finanças, da política externa, da segurança interna e externa, da informação, etc., os governantes têm a obrigação de procurar ultrapassar os constrangimentos que nos criam dificuldades e explorar os pontos em que temos vantagem, para sermos fortes e podermos atuar sem condicionamentos que nos paralisem.
Quando falamos em pontos fortes, não nos estamos a referir apenas a fatores de natureza material. Estes são muito importantes para sustentar uma estratégia consequente e para alcançar os objetivos que nos propusermos atingir. Mas não são suficientes para alcançar uma situação de liberdade de ação na esfera internacional capaz de garantir que sejam nossas as principais decisões sobre o que nos diz respeito; isto é, que continuemos a ser uma nação livre e senhora das escolhas que precisamos de fazer, a partir de Lisboa, e não de Washington, de Berlim, de Bruxelas, de Madrid ou de qualquer outra capital.
Além dos fatores materiais, terão de existir elementos de natureza intangível, do domínio das convicções e dos valores, que nos deem força para resistir aos interesses de quem nos queira explorar ou dominar e se concretizem na vontade de sermos nós a escolher o nosso destino e a lutar por ele, por intermédio de um governo próprio, a quem delegamos autoridade para agir em nosso nome e em defesa dos nossos interesses. Querermos ser portugueses, termos orgulho no nosso país e na nossa História, estarmos disponíveis a arriscar individualmente para defender os interesses da comunidade nacional, estes e outros sentimentos de dedicação à Pátria onde nascemos, queremos viver e onde repousam os nossos antepassados, constituem fatores indispensáveis para consubstanciar a vontade de sermos independentes. Sem eles, por mais favoráveis que sejam os elementos materiais, é impossível alcançar e garantir a independência que nos permita atuar no quadro do que entendemos ser da nossa conveniência e julgamos capaz de defender os nossos interesses.
A recuperação da independência nacional no dia 1 de Dezembro de 1640 e a sua consolidação através de uma guerra que durou 28 longos anos confirma estas afirmações. O quadro estratégico de 1580, com o exército destroçado pela derrota de Alcácer-Quibir, um rei à beira da morte e sem descendência, uma economia desfeita, e a candidatura do rei de Espanha – o mais poderoso país da época – ao trono português, configurou uma situação conjuntural que conduziu à impossibilidade de garantir a independência contra um exército forte e bem comandado. Se os portugueses não tivessem mantido a vontade de voltarem a ter governo próprio e de traçarem o destino que fosse da sua escolha, não teria sido possível que, numa situação estratégia conjuntural posterior, em 1640, com a Espanha em decadência, a nossa economia em progresso e a França a afirmar-se como principal potência europeia, os portugueses tivessem restaurado a independência nacional, na esteira da revolta dos quarenta conjurados no dia 1 de Dezembro de 1640.
Os atos simbólicos e a comemoração das datas mais marcantes da História de uma nação contribuem para reforçar a vontade de querer ser independente e, como tal, de viver num país com autonomia para decidir e concretizar os seus objetivos e para defender os interesses que neles convergem. Não há nação que não festeje um dia relacionado com a sua independência. Em Portugal, este dia tem sido o 1.º de Dezembro, o primeiro feriado nacional que foi instituído, aliás a única data visível e concreta de luta para fazer ressurgir a independência nacional, com êxito. Parece que estamos na véspera de esse feriado ser extinto, por determinação dos governantes, num "negócio" que, em termos económicos, corresponde à venda da comemoração da nossa independência por um "prato de lentilhas", ainda, por cima, mais vazio do que cheio.
Contrariamente às minhas expectativas, nem o primeiro-ministro nem o líder do segundo partido da coligação governamental, nem tão-pouco (que se saiba) o ministro da Defesa Nacional contrariaram este "negócio". A eliminação do mais significativo feriado nacional quando estamos com a soberania limitada – em termos de oportunidade de marcar a importância de sermos independentes e a vontade de querermos assim continuar – corresponde a considerar dispensável a necessidade do simbolismo da comemoração do dia em que restauramos o autogoverno, com a finalidade de manter viva a vontade de os portugueses pugnarem pela independência nacional. Quem duvidasse do patriotismo dos governantes até poderia ser levado a considerar, erradamente penso eu, que eles não se importariam de o país estar submetido aos interesses de qualquer outro, onde, com toda a probabilidade, a independência seria comemorada.
Mas ainda há esperança. Não se compreenderia que os deputados da República Portuguesa se não opusessem à extinção do feriado nacional que comemora a independência da nação que representam, o que ainda podem fazer. Se isso não acontecer, por virtude do "caudilhismo partidário" aparentemente em vigor, espero que o Presidente da República, intérprete supremo do interesse nacional e figura que materializa a nossa independência, aja em conformidade com a necessidade de preservar e reforçar a vontade de manter a identidade e a permanência da nação portuguesa num Portugal independente.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
II Guerra Mundial e actualidade


Há tempos, quando se dava a II Guerra Mundial [9.º ano de escolaridade] e era - é ainda - muito actual a grave crise financeira da Grécia, um aluno questionou até que ponto é que os políticos gregos tinham razão ao lembrarem a ocupação nazi do seu país e as destruições provocadas que nunca foram saldadas. Este texto, mais uma vez do PÚBLICO, é a melhor resposta para essa dúvida.
II Guerra Mundial - As sequelas da ocupação nazi
Contas por saldar? As reparações de guerra alemãs e a Grécia
(PÚBLICO) 2012.Março.25 - Pedro Aires Oliveira
Por iniciativa de alguns políticos helénicos, a memória da II Guerra e das reparações foi convocada para o debate em torno crise grega. Há quem reclame um acerto de contas com a Alemanha. Qual a base histórica de tais reivindicações?
Ns últimos meses, a escalada de recriminações que tem acompanhado a discussão sobre os planos de resgate da Grécia conheceu novos desenvolvimentos. Depois de um ministro do Governo de Papandreou, Theodoros Pangalos, ter recordado, em Fevereiro de 2010, que a Alemanha nunca havia compensado devidamente a Grécia pelos crimes e destruições resultantes da ocupação nazi entre 1941 e 1944, um grupo de deputados helénicos apresentou há algumas semanas uma proposta de discussão da questão das reparações de guerra que poderão ainda ser imputadas a Berlim.
Essas alegações remetem, desde logo, para os efeitos brutais da intervenção alemã na Grécia, iniciada em Abril de 1941 com o propósito de evitar que a campanha desencadeada uns meses antes por Mussolini redundasse num desastre para o Eixo. Embora essa intervenção não estivesse nos planos de Hitler (na altura concentrado na preparação do assalto à URSS), e de este ter declarado publicamente a sua admiração pela resistência oferecida pelos gregos, nem por isso a ocupação alemã foi exactamente branda. Bem pelo contrário. País rural e atrasado, a Grécia não beneficiou da exploração menos abertamente "colonial" que os nazis aplicaram aos países industrializados da Europa Ocidental, vistos como fundamentais para alimentar o esforço de guerra alemão (e mais bem colocados na hierarquia racial nazi do que os europeus dos Balcãs).
Uma factura pesada
Uma vez que desde a guerra franco-prussiana se tinha tomado habitual impor aos Estados vencidos os custos da ocupação, as autoridades alemãs rapidamente confrontaram o governo colaboracionista de Atenas com uma pesada factura. Para satisfazer essa imposição, os gregos tiveram de recorrer a um expediente familiar: a emissão monetária pelo Banco Central, a qual veio a estar na origem de um colossal surto hiperinflacionário. A isto somou-se ainda a exigência de um empréstimo forçado à Alemanha no valor de 476 milhões de marcos, isento de juros. O impacto destas medidas no funcionamento da economia e do Estado não será difícil de adivinhar. No fim da guerra, as receitas fiscais da Grécia cobriam apenas 6% das despesas governamentais, como nota Mark Mazower, um especialista na história da ocupação nazi da Grécia (Hitler's Empire, 2008).
Mas as coisas não se ficaram por aqui. Uma das premissas da política de guerra do III Reich era a de poupar o mais possível a população alemã aos sacrifícios inerentes ao conflito. Como tal, as autoridades nazis nos países ocupados tinham instruções claras para proceder ao confisco de bens alimentares e de outras maté-
Cartaz de propaganda dos aliados de apoio à resistência grega; a bandeira nazi na Acrópole
rias-primas sempre que tal se revelasse indispensável para prevenir situações de carência na Alemanha. A Grécia não escapou a essas exigências e, nos primeiros meses de ocupação, produções alimentares locais no valor de quatro milhões de marcos foram requisitadas por Berlim. Para um país que estava longe de ser auto-suficiente em termos alimentares, e que se encontrava sujeito a um bloqueio naval britânico, esta situação não tardou a evoluir para um desastre humanitário. No Inverno de 1941-42, a fome instalou-se – e os nazis foram completamente insensíveis às privações dos gregos comuns. Estimativas conservadoras apontam para 250 mil vítimas directas e indirectas dessa catástrofe, apenas mitigada pela chegada de alguma assistência através da Cruz Vermelha.
O impacto da ocupação do Eixo (os alemães partilharam a administração do país com os seus aliados italianos e búlgaros) revestiu-se ainda de outros aspectos traumáticos. Como resposta às acções do movimento de resistência helénico entretanto constituído, as autoridades militares alemãs não hesitaram em ordenar retaliações "exemplares" sobre populações civis suspeitas de dar apoio aos insurrectos. Unidades das Waffen SS levaram a cabo dezenas de chacinas contra aldeias e bairros, nalguns casos não poupando crianças, mulheres e idosos. O saldo das atrocidades cometidas pelas forças do Eixo terá rondado os 70 mil mortos.
Com uma persistência metódica, equipas de “especialistas” das SS entregaram-se à tarefa de identificar e reunir a maior parte dos membros da comunidade judaica grega – um núcleo populacional cujas raízes remontavam à Antiguidade e, mais recentemente; à chegada de um grande número de judeus sefarditas expulsos de Espanha no século XV. Calcula-se que cerca de 87% dessa comunidade (aproximadamente 67 mil pessoas, sendo 46 mil oriundas de Salónica) tenha perecido nos campos de extermínio de Auschwitz, na sequência de uma deportação organizada em 1943 pelo Obersturmbannführer Adolf Eichmann. Os sobreviventes desse crime testemunharam depois a atitude solidária e corajosa de muitos dos seus compatriotas gregos, que se dispuseram a enfrentar riscos consideráveis para dar abrigo a crianças e mulheres judias.
Com o seu estatuto de nação aliada, e vítima das depredações do Eixo, a Grécia constituía um dos países em posição de reclamar a sua quota-parte das reparações que viessem a ser fixadas no termo do conflito.
Em 1945, o sentimento geral estava longe de ser favorável a uma atitude de magnanimidade para com os vencidos. A ideia de que uma reedição da "paz cartaginense" imposta à Alemanha e seus aliados no final da Guerra de 14-18 poderia ser contra-producente para a estabilidade do Velho Continente não tinha muitos adeptos. O consenso geral ia muito mais no sentido de obrigar os vencidos a expiar e a pagar pelos seus crimes. Do lado dos soviéticos, a questão quase nem se punha – à medida que o Exército Vermelho avançava, a retribuição ia sendo cobrada aos alemães e aos seus colaboradores, sempre de forma impiedosa. Entre as potências ocidentais, a intenção genérica era também a de tratar a Alemanha como "uma nação inimiga derrotada". Elementos da Administração Roosevelt desenharam planos que davam prioridade à ideia de extirpar as raízes do nazismo, o que pressuponha um esforço consistente para desmilitarizar, desindustrializar e reeducar a sociedade alemã. Nos meses imediatamente posteriores à capitulação alemã,
Em 1941-42, a Grécia teve de ceder alimentos à Alemanha e mais de 250 mil pessoas morreram de fome
Até à crise da dívida, a questão das reparações não afectou muito as relações entre os dois países
Uma força blindada numa cidade grega
os líderes da coligação aliada não foram capazes de chegar a acordo quanto ao montante exacto das reparações que a Alemanha deveria pagar, mas os objectivos genéricos fixados em Ialta e Potdsam mantiveram-se válidos. A Alemanha foi sujeita a um regime de ocupação militar quadri- partida (EUA, Grã-Bretanha, França e URSS) e as potências aliadas foram imputando os custos dessa ocupação aos alemães, através do uso de mão-de-obra forçada (prisioneiros de guerra alemães), apropriação de patentes industriais e confisco de maquinaria e unidades fabris.
A mudança dos aliados
Mas as consequências de uma abordagem demasiado punitiva foram ficando claras, pelo menos aos olhos dos aliados ocidentais. "Pastorilizada" e enfraquecida, a Alemanha tornar-se-ia um sorvedouro de recursos, fazendo da ocupação um compromisso ruinoso. Por outro lado, figuras como o general Lucius Clay, o procônsul americano, não tardaram a reparar que, para pôr a economia e os serviços públicos a funcionar, dificilmente se poderia ser muito esquisito com o tipo de pessoas que se empregavam, tão extenso fora o envolvimento das elites alemãs com o regime de Hitler. Em suma, o objectivo de edificar uma Alemanha estável, democrática e economicamente viável era incompatível com alguns dos desígnios mais draconianos esboçados no fim da guerra. Esta reorientação da postura americana ao longo de 1946 teve vários efeitos. Os mais conhecidos foram o empenho dos aliados ocidentais em construir, primeiro, o embrião de um futuro Estado alemão que abrangesse os seus três sectores de ocupação (por sinal, os mais industrializados); e, em segundo lugar, a ancoragem desse Estado nas instituições fundadas com o propósito de garantir a prosperidade e segurança da Europa Ocidental.
Nada disto seria possível sem um Estado alemão democrático e, sobretudo, estável – pelo que a muitos pareceu indispensável evitar que uma questão tão melindrosa como as reparações voltasse a envenenar a política alemã, como sucedera no período entre-guerras. Isso explica, em boa medida, a atitude lenitiva adoptada pelos norte-americanos face aos termos das compensações passíveis de serem exigidas à Alemanha. Na Conferência de Paris de 1946, a Grécia viu ser-lhe atribuída uma percentagem de 4,5% de reparações materiais, e 2,7 % em outras modalidades, o que equivaleria a um total de cerca de 105 milhões de marcos – mas esse pagamento acabaria por nunca se materializar devido à oposição dos norte-americanos. O tratado final que resultaria dessa conferência, em 1947, circunscreveu-se às reparações imputadas aos aliados da Alemanha, cabendo à Grécia uma compensação da Itália (105 milhões de dólares) e da Bulgária (45 milhões). Em 1953, o Acordo das Dívidas de Londres, que a URSS não subscreveu, adiava para o momento em que fosse possível assinar um tratado de paz envolvendo a Alemanha e todas as nações aliadas, o pagamento de eventuais reparações. Para restaurar a reputação financeira da Alemanha, o Governo de Adenauer aceitou pagar as reparações de Versalhes ainda em falta, bem como as dívidas (e juros) contraídas pela República de Weimar entre 1919 e 1933, o que perfazia um montante de cerca de 15 biliões de marcos (a dívida foi finalmente saldada em 2010). Usando todo o seu talento político, Adenauer conseguiu ainda que compensações devidas a "vítimas de guerra" fossem definidas de maneira a que os seus recipientes fossem, basicamente, cidadãos alemães. E as reparações a pagar a Israel – impopulares
entre o eleitorado conservador alemão – foram objecto de complicadas negociações com os representantes do Estado judaico.
Às vítimas da ocupação nazi na Grécia, o Governo Federal alemão aceitou pagar 115 milhões de marcos em 1960, na condição de que não seriam depois apresentadas reclamações individuais. De fora ficava, por exemplo, o empréstimo de 476 milhões de marcos arrancado aos gregos em 1941, que em valores actuais, e acrescidos juros de 3% ao ano, equivaleria a cerca de 70 biliões de euros. Várias instâncias internacionais, como o Tribunal de Justiça de Haia, têm, por outro lado, recusado dar provimento aos pedidos de compensação reclamados, a título individual, por sobreviventes de várias atrocidades nazis na Grécia.
Apesar de nas últimas décadas alguns políticos gregos terem tentado marcar pontos com a questão das reparações alemãs, a verdade é que até à crise das dívidas soberanas isso não constituiu um tema demasiado espinhoso na agenda entre os dois Estados. De certa forma, a pujança económica alemã foi um dos factores determinantes para o êxito do projecto europeu, de que os gregos foram óbvios beneficiários até há pouco tempo. E embora a historiografia tenda hoje a desvalorizar o impacto pernicioso das reparações na economia alemã do pós-I Guerra Mundial, parece indiscutível que o impacto político, esse, foi explosivo – algo que a memória europeia do período entre-guerras tem bem presente. E, tragicamente, essa é uma lição que a actual classe dirigente alemã parece estar a negligenciar, ao pretender impor programas de austeridade tão obviamente punitivos aos "maus alunos" da Eurolândia.
Historiador
Este texto é publicado no âmbito do projecto Público Mais
publico.pt/publicomais
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Ainda a importância de História
Se houver ainda mais necessidade de afirmar a importância da História é só seguir com atenção a exposição seguinte.
Basta aceder a
http://www.youtube.com/watch?v=FebPPRNtBAU&feature=email
Basta aceder a
http://www.youtube.com/watch?v=FebPPRNtBAU&feature=email
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Curiosidade - Medalhão português encontrado em Malaca

Independentemente das muitas questões que possa suscitar - como lá foi parar, quando, quem o levou, ... há milhentas hipóteses e todas plausíveis, importa conhecer esta pequenina história, porque, afinal, «se mais mundo houvera lá chegara!»
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Encontrado medalhão português do século XIII
dentro de um tubarão na Malásia (JN) 2012.Fev.23
Uma dona de casa de Klebang, na Malásia, encontrou um medalhão, de origem portuguesa e datado do século XIII, quando preparava um tubarão para cozinhar, divulgou hoje a comunicação social local.
O medalhão, com um peso de cerca de 10 gramas, exibe, num dos lados, o perfil de uma mulher com uma coroa na cabeça, enquanto que na outra face é visível a figura de um crucifixo e uma inscrição - ANTONII, referiu a mesma fonte.
De acordo com um historiador local, citado pelo diário The Star, o perfil feminino pertence à rainha Isabel, consorte do rei D. Dinis, que governou Portugal de 1279 a 1325.
A mulher que fez a descoberta, Suseela Menon, de 47 anos, encontrou o objecto dentro de um tubarão, que tinha comprado num mercado local.
"Decidimos não comer o tubarão, uma vez que o objecto parece ter elementos religiosos", afirmou Suseela, em declarações ao jornal. Para a dona de casa, mãe de duas crianças, a descoberta "foi uma bênção para a família".
O medalhão, com 7,4 centímetros de comprimento e seis de largura, pode ter sido transportado por um soldado ou missionário português durante a colonização da Malásia (Malaca) em 1511.
A cidade malaia esteve sob domínio português entre 1511 e 1641.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA
Artigo curioso num tempo em que tudo é visto imediatamente em função do dinheiro ... que escasseia, como é escasso o emprego que é a fonte desse dinheiro. É uma opinião pessoal, mas é uma achega para o debate. Que curso tirar, o que estudar?
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Muita asneira que para aí circula poderia ser evitada lendo um pouco mais sobre História
A nova luta de classes
(PÚBLICO) 2012.Fev.11 | José Pacheco Pereira*
Há dias, no programa Prós e Contras, um conselheiro de "ernpreendedorismo" teorizava, de forma prosélita e desenvolta, sobre as más escolhas de "projecto de vida" que justificariam muito do desemprego actual. Era evidente pela conversa, que achava que existia uma espécie de culpa individual em se estar desempregado. Pelo meio, perguntou, com evidente escárnio, a um desempregado se este tinha tirado um curso de História, uma imprevidência para quem quer ter um emprego. Não tenho dúvida de que quem formulava esta pergunta fazia parte de um dos lados do novo binómio da luta de classes descrito por Passos Coelho, o dos "descomplexados competitivos". O curso de História, se tivesse feito parte do currículo do desempregado, colocá-lo-ia de imediato na categoria de "preguiçoso autocentrado", antiquado e inútil, "piegas" e queixoso, a quem é preciso dar um abanão de pobreza a ver se se toma "competitivo". Estamos, como já referi, perante uma nova forma de luta de classes: a que opõe "descomplexados competitivos" a "preguiçosos autocen- trados". Pelos vistos, uma característica destes últimos é que se interessam por História.
É verdade que saber História vale muito pouco no mercado de trabalho, mas também é verdade que saber Matemática pura, Física Teórica, Astronomia, Biologia Molecular, já para não falar de Filosofia, Sociologia, Geografia, Grego Clássico e Latim, Literatura Portuguesa, também não valem muito mais. E, by the way, os milhares de licenciados em Marketing, Economia, Jornalismo, ou como se diz agora "Ciências de Comunicação", Artes Performativas, Arquitectura, Composição, os pianistas, violoncelistas, violinistas, também não vão muito longe. Seguindo o critério do nosso mago do "empreendedorismo" , não é muito difícil, e no meu caso gratuito, aconselhar cursos seguros e certos. Eu costumo aconselhar maltês, uma língua de que há enorme escassez de tradutores e intérpretes na UE, e o turco, russo, chinês e árabe também podem fazer parte do currículo dos candidatos a "descomplexados competitivos". Mandarim ou cantonês de certeza que têm futuro, assim como "beber a água do Bengo", na exacta composição químico-financeira corrente para esses lados.
Saber de História não é garantia de nada, nem o conhecimento da História garante que se saiba governar
um país. Mas ajuda, ajuda pelo menos a ter-se uma visão menos cega da nossa missão no governo das coisas privadas e públicas, e a conhecer alguma coisa sobre os limites do voluntarismo político. E ajuda bastante a não se ser ignorante, nem a se actuar como um ignorante quando se pensa que tudo começa em nós, essa ilusão adâmica muito corrente nestes dias. .
A História ajuda nas coisas grandes e nas pequenas, toma o mundo mais interessante e alimenta a curiosi- dade e o engenho. Para gostar de comer um croissant não é preciso olhar para ele com os olhos da História e perceber que se está a cometer um acto muito pouco politicamente correcto de turcofobia, ou, pior, de
islamofobia. Mas quem sabe o que é e de onde vem o croissant, costuma saber um pouco mais sobre a História da Europa e isso faz bem à sanidade do debate público. Muita asneira que para aí circula sobre os feriados e o seu significado, sobre a Maçonaria, sobre o comunismo, sobre o fascismo, sobre a democracia, poderia ser evitada lendo um pouco mais sobre História.
A História, como todas as formas de cultura viva, é uma forma de saber e olhar. Engana e ilude muito, mas também modera a tendência para a vã glória. Se é que a História nos ensina alguma coisa, é que poucas coisas são realmente importantes e que 99,99% dos casos o que fazemos pouco muda, ou não muda nada. Para os governantes, é obrigatório, para se enxergarem melhor, uma actividade a que normalmente não lhes “assiste”. Países como o Reino Unido, ou os EUA, têm a História no centro da política, o que nem sempre dá bons resultados, como se vê em França, onde todos os Presidentes do passado achavam que eram uma encarnação de Vercingétorix, Joana d'Arc, Luís XIV, Napoleão ou De GauIle e os actuais já ficam contentes em serem como o Astérix.
O discurso de Odivelas do primeiro-ministro ganhava alguma coisa com a História, embora, como ele se encontra na categoria dos "descomplexados competitivos", não ligue muito a uma disciplina dos perdedores. Mas assim saberia que, antes de nomear os "preguiçosos autocentrados" como seus adversários, deveria pensar duas vezes sobre o papel que o epíteto de "preguiçosos" tem quando é usado genericamente para designar grupos ou comportamentos sociais. Para os colonos, os "pretos" eram a quinta-essência dos "preguiçosos" e por isso deviam ser obrigados a trabalhar à força de castigos corporais. Puxem pela língua a muitos patrões e aos seus capatazes (hoje chamam-se "responsáveis pelo pessoal"), às "patroas" sobre as suas "criadas", e o epíteto de "preguiçoso" aparece quase de imediato. Em países em que coexistem zonas industrializadas com regiões rurais, os habitantes dessas regiões, o Alentejo, a Galiza, a Andaluzia, o Sul de Itália, são descritos em anedotas como "preguiçosos". Nos campos trabalha-se muito, dependendo do ciclo agrícola, e há períodos de inactividade, onde, como toda a gente sabe das anedotas, os alentejanos estão debaixo de um "chaparro" a ver o mundo passar em slow motion.
Existe, aliás, outra classificação que costuma vir junto, a de associar essa ruralidade à falta de inteligência e dificuldade em socializar de forma adequada, ou seja, não só eram estúpidos, limitados, como não sabiam comer à mesa. É para isso que servem os epítetos de "saloios" ou de "labregos", a interessante migração da palavra galega para camponês, que veio junto nos anos trinta e quarenta do século XX com os galegos, que a miséria da sua terra trouxe para trabalhar em mercearias e restaurantes, ou outros ofícios menores, em Lisboa e no Porto. O problema da História é este, o de tornar poucas palavras inocentes.
Na luta de classes entre os "descomplexados competitivos" e os "preguiçosos autocentrados", a ordem dos pares é interessante, quer na parte social, quer na do psicologismo vulgar. Os "preguiçosos" são primeiro preguiçosos e só depois são "autocentrados", e os "competitivos" são primeiro "descomplexados" e é por isso que são "competitivos". Os pares têm, por isso, uma ordem invertida: nos "preguiçosos", avulta a condição social, nos "descomplexados", a psicologia domina. Embora provavelmente nada disto tenha sido muito pensado e saiu assim, como poderia ter saído de outra maneira semelhante, este dualismo revela aquilo que os sociólogos chamam as background assumptions do seu autor. Os que estão presos na sua condição social, deixam soçobrar a sua psicologia no egoísmo; os dinâmicos psicologistas ultrapassam a sua condição social pelo êxito no mercado.
O país divide-se assim entre funcionários públicos, vivendo do erário público, acima das suas posses, e fazendo tudo para ter feriados e não trabalhar (os "preguiçosos"), cultivando um egoísmo social assente em pretensos "direitos adquiridos" ("autocentrados"); e jovens yuppies, dinâmicos e empreendedores, com uma "cultura empresarial", capazes de correrem riscos ("competitivos"), sem cuidarem de terem "direitos" para subirem "por mérito", na escala social ("descomplexados"). Nem uns nem outros existem na vida real, nem sequer como caricaturas, que é o que isto é, mas isso pouco importa.
A História está cheia destes dualismos, velhos como o tempo, mas típicos da linguagem abastardada do poder dos nossos dias. É um esquema assente numa mistura de demonização e de wishful thinking, que circula assente num moralismo social, também típico dos dias que passam. A História revela o poder destrutivo deste tipo de discursos, que se tomam, de um momento para o outro, socialmente insuportáveis.
Esse momento ainda não se deu, e os papagaios do "pensamento único" repetem este discurso sem pararem para pensar. Ou sequer para ler alguma coisa de História, mesmo com o risco de se tomarem "preguiçosos auto-centrados". Historiador
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Muita asneira que para aí circula poderia ser evitada lendo um pouco mais sobre História
A nova luta de classes
(PÚBLICO) 2012.Fev.11 | José Pacheco Pereira*
Há dias, no programa Prós e Contras, um conselheiro de "ernpreendedorismo" teorizava, de forma prosélita e desenvolta, sobre as más escolhas de "projecto de vida" que justificariam muito do desemprego actual. Era evidente pela conversa, que achava que existia uma espécie de culpa individual em se estar desempregado. Pelo meio, perguntou, com evidente escárnio, a um desempregado se este tinha tirado um curso de História, uma imprevidência para quem quer ter um emprego. Não tenho dúvida de que quem formulava esta pergunta fazia parte de um dos lados do novo binómio da luta de classes descrito por Passos Coelho, o dos "descomplexados competitivos". O curso de História, se tivesse feito parte do currículo do desempregado, colocá-lo-ia de imediato na categoria de "preguiçoso autocentrado", antiquado e inútil, "piegas" e queixoso, a quem é preciso dar um abanão de pobreza a ver se se toma "competitivo". Estamos, como já referi, perante uma nova forma de luta de classes: a que opõe "descomplexados competitivos" a "preguiçosos autocen- trados". Pelos vistos, uma característica destes últimos é que se interessam por História.
É verdade que saber História vale muito pouco no mercado de trabalho, mas também é verdade que saber Matemática pura, Física Teórica, Astronomia, Biologia Molecular, já para não falar de Filosofia, Sociologia, Geografia, Grego Clássico e Latim, Literatura Portuguesa, também não valem muito mais. E, by the way, os milhares de licenciados em Marketing, Economia, Jornalismo, ou como se diz agora "Ciências de Comunicação", Artes Performativas, Arquitectura, Composição, os pianistas, violoncelistas, violinistas, também não vão muito longe. Seguindo o critério do nosso mago do "empreendedorismo" , não é muito difícil, e no meu caso gratuito, aconselhar cursos seguros e certos. Eu costumo aconselhar maltês, uma língua de que há enorme escassez de tradutores e intérpretes na UE, e o turco, russo, chinês e árabe também podem fazer parte do currículo dos candidatos a "descomplexados competitivos". Mandarim ou cantonês de certeza que têm futuro, assim como "beber a água do Bengo", na exacta composição químico-financeira corrente para esses lados.
Saber de História não é garantia de nada, nem o conhecimento da História garante que se saiba governar
um país. Mas ajuda, ajuda pelo menos a ter-se uma visão menos cega da nossa missão no governo das coisas privadas e públicas, e a conhecer alguma coisa sobre os limites do voluntarismo político. E ajuda bastante a não se ser ignorante, nem a se actuar como um ignorante quando se pensa que tudo começa em nós, essa ilusão adâmica muito corrente nestes dias. .
A História ajuda nas coisas grandes e nas pequenas, toma o mundo mais interessante e alimenta a curiosi- dade e o engenho. Para gostar de comer um croissant não é preciso olhar para ele com os olhos da História e perceber que se está a cometer um acto muito pouco politicamente correcto de turcofobia, ou, pior, de
islamofobia. Mas quem sabe o que é e de onde vem o croissant, costuma saber um pouco mais sobre a História da Europa e isso faz bem à sanidade do debate público. Muita asneira que para aí circula sobre os feriados e o seu significado, sobre a Maçonaria, sobre o comunismo, sobre o fascismo, sobre a democracia, poderia ser evitada lendo um pouco mais sobre História.
A História, como todas as formas de cultura viva, é uma forma de saber e olhar. Engana e ilude muito, mas também modera a tendência para a vã glória. Se é que a História nos ensina alguma coisa, é que poucas coisas são realmente importantes e que 99,99% dos casos o que fazemos pouco muda, ou não muda nada. Para os governantes, é obrigatório, para se enxergarem melhor, uma actividade a que normalmente não lhes “assiste”. Países como o Reino Unido, ou os EUA, têm a História no centro da política, o que nem sempre dá bons resultados, como se vê em França, onde todos os Presidentes do passado achavam que eram uma encarnação de Vercingétorix, Joana d'Arc, Luís XIV, Napoleão ou De GauIle e os actuais já ficam contentes em serem como o Astérix.
O discurso de Odivelas do primeiro-ministro ganhava alguma coisa com a História, embora, como ele se encontra na categoria dos "descomplexados competitivos", não ligue muito a uma disciplina dos perdedores. Mas assim saberia que, antes de nomear os "preguiçosos autocentrados" como seus adversários, deveria pensar duas vezes sobre o papel que o epíteto de "preguiçosos" tem quando é usado genericamente para designar grupos ou comportamentos sociais. Para os colonos, os "pretos" eram a quinta-essência dos "preguiçosos" e por isso deviam ser obrigados a trabalhar à força de castigos corporais. Puxem pela língua a muitos patrões e aos seus capatazes (hoje chamam-se "responsáveis pelo pessoal"), às "patroas" sobre as suas "criadas", e o epíteto de "preguiçoso" aparece quase de imediato. Em países em que coexistem zonas industrializadas com regiões rurais, os habitantes dessas regiões, o Alentejo, a Galiza, a Andaluzia, o Sul de Itália, são descritos em anedotas como "preguiçosos". Nos campos trabalha-se muito, dependendo do ciclo agrícola, e há períodos de inactividade, onde, como toda a gente sabe das anedotas, os alentejanos estão debaixo de um "chaparro" a ver o mundo passar em slow motion.
Existe, aliás, outra classificação que costuma vir junto, a de associar essa ruralidade à falta de inteligência e dificuldade em socializar de forma adequada, ou seja, não só eram estúpidos, limitados, como não sabiam comer à mesa. É para isso que servem os epítetos de "saloios" ou de "labregos", a interessante migração da palavra galega para camponês, que veio junto nos anos trinta e quarenta do século XX com os galegos, que a miséria da sua terra trouxe para trabalhar em mercearias e restaurantes, ou outros ofícios menores, em Lisboa e no Porto. O problema da História é este, o de tornar poucas palavras inocentes.
Na luta de classes entre os "descomplexados competitivos" e os "preguiçosos autocentrados", a ordem dos pares é interessante, quer na parte social, quer na do psicologismo vulgar. Os "preguiçosos" são primeiro preguiçosos e só depois são "autocentrados", e os "competitivos" são primeiro "descomplexados" e é por isso que são "competitivos". Os pares têm, por isso, uma ordem invertida: nos "preguiçosos", avulta a condição social, nos "descomplexados", a psicologia domina. Embora provavelmente nada disto tenha sido muito pensado e saiu assim, como poderia ter saído de outra maneira semelhante, este dualismo revela aquilo que os sociólogos chamam as background assumptions do seu autor. Os que estão presos na sua condição social, deixam soçobrar a sua psicologia no egoísmo; os dinâmicos psicologistas ultrapassam a sua condição social pelo êxito no mercado.
O país divide-se assim entre funcionários públicos, vivendo do erário público, acima das suas posses, e fazendo tudo para ter feriados e não trabalhar (os "preguiçosos"), cultivando um egoísmo social assente em pretensos "direitos adquiridos" ("autocentrados"); e jovens yuppies, dinâmicos e empreendedores, com uma "cultura empresarial", capazes de correrem riscos ("competitivos"), sem cuidarem de terem "direitos" para subirem "por mérito", na escala social ("descomplexados"). Nem uns nem outros existem na vida real, nem sequer como caricaturas, que é o que isto é, mas isso pouco importa.
A História está cheia destes dualismos, velhos como o tempo, mas típicos da linguagem abastardada do poder dos nossos dias. É um esquema assente numa mistura de demonização e de wishful thinking, que circula assente num moralismo social, também típico dos dias que passam. A História revela o poder destrutivo deste tipo de discursos, que se tomam, de um momento para o outro, socialmente insuportáveis.
Esse momento ainda não se deu, e os papagaios do "pensamento único" repetem este discurso sem pararem para pensar. Ou sequer para ler alguma coisa de História, mesmo com o risco de se tomarem "preguiçosos auto-centrados". Historiador
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
História da Arte - um contributo fundamental da Química
"CRISTO E A MULHER ADÚLTERA",
QUE CHEGOU A SER ATRIBUIDO
A JOHANNES VERMEER, NÃO
PASSA DE UMA FALSIFICAÇÃO
SEGREDOS DA HISTÓRIA DA ARTE
Expresso/Atual, 2011.Agosto.20 | Virgílio Azevedo
João Peixoto Cabral, pioneiro na aplicação em Portugal de métodos nucleares na investigação em arqueologia e nos estudos de história da arte, lança, aos 83 anos de idade, uma obra única a nível internacional: ”A Radioactividade - Contributos para a História da Arte"
Aos 83 anos, João Pei¬xoto Cabral lançou-se num projeto ambicio¬so: fazer um manual que explicasse ao mes¬mo tempo ao público em geral, aos estudan¬tes e aos peritos – de uma forma exaustiva, rigorosa, profusamen¬te ilustrada e com exemplos concretos – o papel decisivo da radioatividade na história da arte. A tare¬fa não era fácil, porque ninguém tinha feito em Por¬tugal ou a nível internacional uma obra desta enver-gadura. Mas o professor jubilado de Radioquímica do Instituto Superior Técnico (IST) não tinha pressa e demorou três anos a completar o seu projeto.
"A Radioactividade - Contributos para a Histó¬ria da Arte", lançada recentemente pela IST Press, é uma obra monumental, com quase 500 páginas, on¬de estão em destaque os métodos de datação de pin¬turas e esculturas deixadas por gerações de artistas talentosos ao longo de séculos e milénios. Dividida em duas partes - 'A Radioactividade' e 'Contributos para a História da Arte' –, o livro aborda a radioativi¬dade natural e artificial, os processos de decaimento radioativo, a interação das radiações com a matéria, a datação com base na radioatividade da arte paleolí¬tica, a autenticação de obras de arte – desde as pin¬turas de cavalete às esculturas em terracota, cerâmi¬ca ou metal. E o seu exame por irradiação de neu¬trões, onde a aplicação da chamada autorradiogafia às pinturas de Van Dyck, Rembrandt ou Vermeer, permitiu descobrir detalhes sobre os seus esboços originais, alterações feitas ao longo da execução das suas obras, enfim, o que passou pela mente destes pintores geniais no processo de criação artística.
O prestigiado físico nuclear alemão Joseph Ma¬gill, do laboratório europeu Joint Research Centre, interessou-se pelo livro e apoiou o autor, tal como Jean Clottes, o maior especialista francês – e um dos maiores do mundo – em arte rupestre, que for¬neceu gratuitamente várias das fotos que o ilus¬tram. O conhecido arqueólogo português João Zi¬lhão, professor catedrático de investigação na Insti¬tuição Catalã para a Investigação Avançada (ICREA) da Universidade de Barcelona, e um dos apresentadores do livro na sessão de lançamento, argumenta que, na datação das obras de arte, "os arqueólogos não têm muitas vezes os conhecimen¬tos técnicos necessários nas áreas da física e da quí¬mica e, em contrapartida, os laboratórios não pon¬deram o contexto arqueológico, cultural e ambien¬tal do que estão a analisar". Ou seja, "não têm co¬nhecimentos profundos para serem suficientemen¬te críticos". Quem fica a perder é, obviamente, a história da arte,
"O ideal é que existam arqueólogos que perce¬bam o suficiente das técnicas da física e da química e físicos e químicos com experiência na datação que tenham um conhecimento profundo da história da arte", prossegue João Zilhão. "Isso é raro em Portu¬gal e no mundo, mas João Peixoto Cabral reúne as duas qualidades, o que se reflete no seu livro." O próprio autor explica ao Expresso que, "desde que a energia nuclear caiu em desgraça, a radioquímica e a física nuclear perderam interesse por parte das próprias universidades". Peixoto Cabral reconhece que há falta de informação em Portugal sobre esta matéria entre os arqueólogos, e Fernando Pina, que escreveu o prefácio do livro e é presidente do Depar¬tamento de Conservação e Restauro da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, salienta que "estamos num país onde as ofer¬tas educativas nesta área são escassas e onde a maio¬ria das pessoas abomina e teme o nuclear". E se as ciências ligadas à física e à química nucleares "têm sido por vezes usadas de um modo condenável, per¬mitem ao mesmo tempo um maior conhecimento da atividade do Homem ao longo da História".
Os exemplos dados por João Peixoto Cabral na sua obra são, sem dúvida, esclarecedores a este res¬peito. É o caso da história de Han Van Meegeren, um artista holandês com talento mas, sobretudo, um falsificador exímio com uma atração especial pe¬los quadros de Johannes Vermeer, o famoso pintor holandês do século XVII. Em novembro de 1937, o historiador de arte Abraham Bredius anunciou a descoberta de um quadro de Vermeer, "Cristo em Emaús", tendo afirmado que se tratava de uma pin¬tura de rara beleza e de elevada qualidade artística. A obra foi considerada uma falsificação por um peri¬to de uma leiloeira mas acabou por ser comprada a peso de ouro pelo Museu Boymans de Roterdão.
Quando as tropas nazis ocuparam a Holanda, du¬rante a Segunda Guerra Mundial, surgiram no mer¬cado mais quadros de Vermeer que acabaram por ser comprados por colecionadores. O mais célebre foi o marechal alemão Hermann Göring, que adqui¬riu o quadro "Cristo e a Mulher Adúltera" (ver imagem) a um banqueiro nazi. Depois da guerra, em 1945, Göring foi julgado pelo Tribunal de Nuremberga e condenado à morte, tendo-se suicidado na prisão. O quadro foi encontrado na sua coleção e as investiga¬ções da polícia concluíram que tinha sido vendido a Göring através de Han Van Meegeren.
O artista holandês foi então acusado de colabora¬ção com os nazis, tendo sido preso e julgado como traidor em 1946, o que podia ter levado à pena de morte. Mas, no julgamento, Meegeren argumentou, em sua defesa, que o "Cristo e a Mulher Adúltera" era falso porque fora pintado por ele, bem como to¬dos os quadros inéditos de Vermeer descobertos en¬tre 1939 e 1943. Para o provar – e para provar a sua inocência – pintou um novo quadro ao estilo de Ver¬meer perante uma equipa de peritos, a que chamou "Jesus entre os Doutores". O tribunal decidiu, por isso, que os 'Vermeers' fossem analisados nos labora¬tórios do Instituto Real do Património Artístico de Bruxelas, que efetivamente confirmou que todos os quadros eram falsos, com base em três evidências: foi encontrado azul-cobalto, um pigmento sintético que só começou a ser fabricado depois da morte de Vermeer (século XVIII); todas as pinturas conti¬nham baquelite, uma resina descoberta apenas no início do século XX; as radiografias tiradas às obras mostravam que as fissuras no verniz eram superfi¬ciais, ao contrário do que acontecia nos verdadeiros quadros de Vermeer, onde eram mais fundas, Mas as dúvidas continuaram e só em 1968, através de um novo método de datação de obras de arte baseado na radioatividade natural do pigmento branco de chumbo, tudo ficou devidamente esclarecido.
Outra polémica relatada no livro é bem conheci¬da dos portugueses: as gravuras do vale do Coa, des-cobertas em 1994, tendo as mais antigas sido dese¬nhadas há cerca de 20 mil anos. Hoje são considera¬das o maior complexo de arte rupestre paleolítica ao ar livre do mundo e levaram a EDP a desistir da cons¬trução de uma barragem. A empresa encomendou na altura a datação a quatro peritos estrangeiros, que concluíram que as gravuras não seriam paleolíti¬cas mas teriam apenas 200 anos. Um deles, o austra¬liano Robert Bednarik, assinou mesmo um artigo na revista "Antiquity" onde criticou os argumentos e os métodos de datação usados por arqueólogos portu¬gueses e de outras nacionalidades para provarem a antiguidade das gravuras. João Zilhão liderou a con¬testação a Bednarik, publicando um artigo na mes¬ma edição da revista, e a polémica foi tão grande que no Congresso Internacional de Arte Rupestre em Tu¬rim, em 1995, as gravuras do Coa foram praticamen¬te o único tema em debate. Os métodos de datação usados em toda a investigação foram muito diversifi¬cados (radiocarbono, microerosão, termolumines¬cência, luminescência estimulada oticamente, etc.) e acabaram por dar razão à tese de João Zilhão. A
vazevedo@expresso.impresa.pt
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Guerra e clima
A crise actual na Somália está ligada com o clima (Feisal Omar/Reuters)
Estudo publicado na Nature
Um quinto das guerras desde 1950 está associado ao El Niño
(PÚBLICO) 2011.08.24 | Nicolau Ferreira
Sempre se tentou relacionar acontecimentos climáticos e meteorológicos a conflitos, guerras ou fins de civilizações, desde a queda do império Egípcio em 2180 a.C. até à Revolução Francesa, em 1789. O que agora uma equipa de cientistas acrescentou foram números que mostram que o fenómeno climático El Niño faz duplicar as probabilidades da existência de guerras e conflitos civis nas regiões do globo que sofrem os efeitos do aquecimento das águas do oceano Pacífico. O estudo publicado nesta quarta-feira na edição online da revista Nature defende ainda que um quinto dos conflitos no mundo desde 1950 está associado de alguma forma a este fenómeno.
“Tradicionalmente, pensa-se que os fenómenos socioeconómicos são os principais responsáveis pelos conflitos. O que é surpreendente no nosso estudo é a capacidade que o clima global tem para provocar violência”, disse ao PÚBLICO Kyle Meng, da Universidade de Columbia, Nova Iorque (EUA) e um dos três investigadores responsáveis pelo estudo.
O El Niño serve como modelo perfeito para estudar a dicotomia entre guerras e clima. Acontece a cada três a sete anos, faz subir as temperaturas e diminui as chuvas nas zonas dos trópicos, e é alternado pela La Niña, que se traduz por um arrefecimento das águas do Pacífico, e que inverte a situação meteorológica dos países afectados pelo El Niño.
Os investigadores dividiram os países da Terra num grupo afectado pelo fenómeno e noutro não afectado. Depois mediram os conflitos civis desde 1950, partindo do princípio que um novo conflito num país tinha que estar temporalmente separado do anterior por dois anos e tinha que ter sido responsável por pelo menos 25 mortos. Os dados incluíram ao todo 234 conflitos, mais de metade matou acima de mil pessoas.
Antecipar crises
Os resultados mostram que nos anos de El Niño, os países que estão sob a sua influência climática duplicam a probabilidade de três para seis por cento de iniciarem um conflito civil. No grupo de países que não estão sob o jugo do El Niño — Europa, Ásia e parte da América do Norte —, a probabilidade do início de uma guerra civil é sempre de dois por cento ao longo dos anos. “É muito difícil dizer se estes países são mais pacíficos porque estão menos expostos aos efeitos do El Niño ou porque têm instituições políticas estáveis ou por outra razão qualquer”, disse Meng.
O estudo conclui também que nos últimos 60 anos, o El Niño “pode ter afectado” 21 por cento dos conflitos no mundo e 30 por cento dos conflitos nos países susceptíveis ao fenómeno. “O mais importante deste estudo é que olha para os tempos modernos, e é feito numa escala global”, disse por comunicado Solomon Hsiang, co-autor do artigo, acrescentando que as pessoas não podem argumentar que a humanidade está imune ao clima.
Segundo o autor, a crise actual na Somália, onde já foi declarada a fome, é um exemplo perfeito das consequências do El Niño.
Apesar do estudo não fazer uma ligação directa entre os efeitos do El Niño e o início dos conflitos, os autores defendem que já se pode actuar sobre o problema. Pode-se prever o El Niño e “o mundo tem algum tempo de avanço para se preparar para surtos de violência, muito pode ser feito por instituições como a ONU”, disse Mong.
"Villa" romana no Monte da Chaminé - F. Alentejo
Nem a história nem o historiador vão de férias...
Ferreira do Alentejo
Escavações na “villa” romana
Os trabalhos arqueológicos na "villa" romana do Monte da Chaminé, em Ferreira do Alentejo, recomeçaram ontem, para os arqueólogos confirmarem a área do lagar de azeite identificado e a eventual ocupação do sítio em período visigótico. A "villa" descoberta em 1982 foi ocupada desde o século I a. C. até ao século V d.C. […]
in Correio da Manhã, 2011.Agosto.23
Ferreira do Alentejo
Escavações na “villa” romana
Os trabalhos arqueológicos na "villa" romana do Monte da Chaminé, em Ferreira do Alentejo, recomeçaram ontem, para os arqueólogos confirmarem a área do lagar de azeite identificado e a eventual ocupação do sítio em período visigótico. A "villa" descoberta em 1982 foi ocupada desde o século I a. C. até ao século V d.C. […]
in Correio da Manhã, 2011.Agosto.23
domingo, 24 de julho de 2011
Alterações climáticas
A História diz-nos que o clima não é «determinado» pelo comportamento do homem...

Calor, secas, cheias
Bem-vindos à Idade Média
PÚBLICO) 2010.Outubro.21 | Ricardo Garcia
Na Gronelândia, os vikings chegaram a pontos hoje inacessíveis. Há muito que se sabe que a era medieval foi quente em parte da Terra. Mas hoje o aquecimento é maior e global, dizem os cientistas.
Secas épicas, permanentes. Cheias brutais, sucessivas. Alterações profundas na agricultura, na floração das plantas, nas estações do ano. Populações deslocadas. Um retrato das alterações climáticas no final do século XXI? Não, bem-¬vindos à Idade Média. Entre 900 e 1300, aproximadamente, algumas regiões do globo foram tão ou mais quentes do que a Terra no século XX, quando o mundo acordou para o problema do aquecimento global.
A existência de um Período Quente Medieval é um dos principais argumentos dos que contestam a tese de que o aquecimento actual é uma realidade sem precedentes nos últimos mil anos e tem origem sobretudo humana. Se é verdade que foi tão ou mais quente há alguns séculos – muito antes do carvão e do petróleo –, então como dizer agora que a culpa é do ser humano e não da variabilidade natural do clima?
O climatologista Ricardo Trigo, do Centro de Geofísica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, reconhece que se trata de uma questão importante. Mas não tem dúvidas. "Várias reconstruções mostram que aquele período teve, de facto, valores próximos dos do século XX. Mas não como os das últimas três décadas", afirma.
Ricardo Trigo foi um dos organizadores de um encontro científico, em Lisboa, no qual alguns dos maiores especialistas mundiais no passado climático da Terra puseram em dia o que se sabe hoje sobre o Período Quente Medieval. Sob um clima ameno de fim de Setembro, o tema foi discutido por um grupo selecto de cientistas, em mangas de camisa, escolhidos a dedo pela Faculdade de Ciências de Lisboa e pela agência norte-americana para os oceanos e a atmosfera (NOAA).
Palavra-chave
Há uma palavra-chave em torno da qual orbita o trabalho destes cientistas – "reconstrução". Para saber se o clima quente de hoje é inédito, é preciso conhecer como foi o do passado. Mas, a nível global, só há dados de termómetros para os últimos 150 anos. Daí que seja preciso "reconstruir" o passado climático, com base noutros tipos de fontes – uma tarefa susceptível a grandes incertezas.
Sem termómetros, tudo o que os cientistas têm à mão são indicadores climáticos indirectos (proxies, no jargão académico). Documentos históricos são um deles. Registos escritos, muitos feitos nos mosteiros, de colheitas, de observação do tempo, de catástrofes meteorológicas, de épocas de floração, ajudam a reconstituir o clima. O mesmo vale para imagens.
É na própria natureza, porém, que estão as maiores fontes. Amostras de gelo das regiões polares guardam testemunhos milenares sobre a precipitação, sobre a fusão periódica da cobertura gelada, sobre a composição da atmosfera. De corais do Pacífico também se extraem dados climáticos.
Há cientistas que se dedicam a avaliar o clima passado pelos tipos de pólen encontrados em diferentes camadas de solo. Outros analisam a composição de estalagmites nas cavernas, cuja formação pode estender-se por dezenas de milhares de anos. Sedimentos recolhidos em lagos também dão pistas sobre como foi o clima há séculos ou milénios.
De todos os indicadores indirectos, os anéis de crescimento das árvores são considerados um dos mais importantes. A sua largura e densidade indicam, ano a ano, se o clima foi mais quente ou mais frio, mais húmido ou mais seco. Combinando-se amostras de diferentes idades, é possível reconstituir as condições climáticas ao longo de milhares de anos.
Uma das vantagens dos anéis de árvores está no facto de haver amostras em vários pontos do planeta. "As árvores são provavelmente os proxies mais largamente distribuídos", afirma o climatologista Phil Jones, do Centro de Investigação Climática da Universidade de East Anglia. Além disso, somam-se já largas décadas de experiência com a dendroclimatologia – o nome desta técnica que nasceu na Escandinávia no final do século XIX. "É a mais conhecida ciência de proxies", diz Phil Jones.
O que todos estes indicadores indirectos sugerem é que na Idade Média as temperaturas estavam em alta, pelo menos nalguns pontos do planeta. E há muito tempo que se sabe disso. Em 1914, o cientista sueco Otto Pettersson descreveu como largas áreas da Islândia eram cultivadas no século X, antes de serem posteriormente cobertas de gelo. Na mesma altura, os vikings colonizaram a Gronelândia, chegando a pontos
que o frio também tornaria depois inacessíveis.
Foi o climatologista britânico Hubert Lamb, porém, quem cunhou a designação Medieval Warm Period (Período Quente Medieval). Em 1965, Lamb publicou um artigo sugerindo que, pelo menos na Europa, o tempo foi particularmente quente entre 1000 e 1200, seguido de séculos de frio, entre 1500 e 1700. Lamb calculou que, entre esses dois períodos, a temperatura média na Inglaterra variou entre 1,2 e 1,4 graus Celsius – muito mais do que os 0,7 graus Celsius de diferença verificado no planeta ao longo do século XX. Anos mais tarde, o mesmo cientista estimou que, nalguns pontos, as temperaturas na Idade Média chegaram a ser 1,0 a 2,0 graus mais elevadas do que no princípio do século XX.
A maior parte das reconstruções feitas desde então corrobora a tese de um aquecimento durante a época medieval, pelo menos no Hemisfério: Norte. Com base nesses resultados, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) conclui que o período mais quente dos últimos dois mil anos, antes do século XX, centra-se entre 950 e 1100.
Dizer se foi mais ou menos quente do que agora depende da escala de tempo a que se olha para o fenómeno. Analisando períodos de 100 anos, um estudo submetido à conferência de Lisboa conclui que o aquecimento na Idade Média foi tão uniforme como o do século XX. A uma escala menor, outro estudo sugere que, na Europa, o aquecimento nas primaveras e verões medievais foi mais heterogéneo, década a década, do que o de agora. E os picos de temperaturas extremas eram muito menos frequentes.
Secas de 200 anos
Temperaturas à parte, o Período Quente Medieval foi marcado por outras perturbações climáticas – como as "megassecas" que ocorreram no que hoje são os Estados Unidos. Duas delas foram praticamente simultâneas - uma no actual Nebrasca, que durou 38 anos (1276-1313), e outra, de 24 anos (1276-1299), no Colorado, que terá afastado populações nativas que ali viviam, da civilização anasazi. Na Califórnia, o cientista norte¬ americano Scott Stine encontrou, em resquícios de árvores submersas, evidências de secas ainda maiores, de até dois séculos de duração.
Longe dali, no Egipto, há registos de cheias avassaladoras, combinadas com crises de fome, entre os séculos
IX e XV. O facto de as alterações climáticas nessa altura não se terem manifestado apenas na temperatura faz com que alguns cientistas prefiram designar àquele período como Anomalia Climática Medieval.
As evidências do aquecimento, em si, são mais fortes no Hemisfério Norte, sobretudo nas latitudes mais altas. Mas, quanto ao resto do mundo, o conhecimento é ainda modesto. Há poucos indicadores para as temperaturas passadas nos trópicos, em África, em grande parte dos oceanos. "Estamos longe de ter dados suficientes para qualquer estimativa significativa de um aquecimento medieval global", conclui o IPCC, no seu último relatório de avaliação da ciência climática, de 2007.
Mesmo os estudos que agora surgem são ainda muito pontuais. Um deles, liderado pelo investigador Jürg Luterbacher, da Universidade de Giessen, na Alemanha, produziu, pela primeira vez, uma reconstrução das temperaturas de parte do Hemisfério Sul – abaixo do paralelo 20ºS (mais ou menos de São Paulo para baixo). E concluiu que, naquela região, o clima entre 950 e 1350 era, em média, ainda mais quente do que o do século XX.
Segundo outros investigadores, nos trópicos, poderá ter ocorrido o contrário, um arrefecimento do clima, devido a uma tendência maior para o fenómeno La Niña, no qual a temperatura do Pacífico equatorial permanece mais baixa.
As incertezas são grandes, sobretudo pelo número reduzido de proxies além do Hemisfério Norte. "Temos de ser cautelosos ao interpretar esses resultados", afirma Luterbacher.
Phil Jones acredita que, para determinadas regiões do globo, tão cedo não será possível chegar a reconstruções fiáveis. "A incerteza vai diminuir no futuro, mas não será rápido", antecipa.
Manchas solares
Variações na actividade solar poderão explicar em parte o aquecimento da Idade Média. Mas sabe-se menos sobre estas flutuações naquele período do que nos séculos seguintes, para quando se generalizou a observação das manchas solares. A Pequena Idade do Gelo, que trouxe invernos rigorosos à Europa e à América do Norte entre 1400 e 1900, coincidiu parcialmente com um período de actividade solar excepcionalmente baixo, conhecido por Maunder Minimum (1645-1715).
Apesar das incertezas, os cientistas reconhecem avanços no conhecimento do Período Quente Medieval. "Há muito mais dados agora do que há dez anos", diz Ricardo Trigo. Foi há cerca de uma década que um grupo de investigadores produziu o célebre gráfico do hockey-stick – que mostra as temperaturas médias do Hemisfério Norte desde o ano 1000, mas com uma subida exponencial, sem precedentes, nas últimas décadas. Incluído num relatório do IPCC de 2001, o gráfico foi alvo de críticas, por alegadas falhas metodológicas.
Mas, segundo Ricardo Trigo, outras reconstruções climáticas desde então, mesmo levando em conta o aquecimento medieval, confirmaram aqueles resultados.

Calor, secas, cheias
Bem-vindos à Idade Média
PÚBLICO) 2010.Outubro.21 | Ricardo Garcia
Na Gronelândia, os vikings chegaram a pontos hoje inacessíveis. Há muito que se sabe que a era medieval foi quente em parte da Terra. Mas hoje o aquecimento é maior e global, dizem os cientistas.
Secas épicas, permanentes. Cheias brutais, sucessivas. Alterações profundas na agricultura, na floração das plantas, nas estações do ano. Populações deslocadas. Um retrato das alterações climáticas no final do século XXI? Não, bem-¬vindos à Idade Média. Entre 900 e 1300, aproximadamente, algumas regiões do globo foram tão ou mais quentes do que a Terra no século XX, quando o mundo acordou para o problema do aquecimento global.
A existência de um Período Quente Medieval é um dos principais argumentos dos que contestam a tese de que o aquecimento actual é uma realidade sem precedentes nos últimos mil anos e tem origem sobretudo humana. Se é verdade que foi tão ou mais quente há alguns séculos – muito antes do carvão e do petróleo –, então como dizer agora que a culpa é do ser humano e não da variabilidade natural do clima?
O climatologista Ricardo Trigo, do Centro de Geofísica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, reconhece que se trata de uma questão importante. Mas não tem dúvidas. "Várias reconstruções mostram que aquele período teve, de facto, valores próximos dos do século XX. Mas não como os das últimas três décadas", afirma.
Ricardo Trigo foi um dos organizadores de um encontro científico, em Lisboa, no qual alguns dos maiores especialistas mundiais no passado climático da Terra puseram em dia o que se sabe hoje sobre o Período Quente Medieval. Sob um clima ameno de fim de Setembro, o tema foi discutido por um grupo selecto de cientistas, em mangas de camisa, escolhidos a dedo pela Faculdade de Ciências de Lisboa e pela agência norte-americana para os oceanos e a atmosfera (NOAA).
Palavra-chave
Há uma palavra-chave em torno da qual orbita o trabalho destes cientistas – "reconstrução". Para saber se o clima quente de hoje é inédito, é preciso conhecer como foi o do passado. Mas, a nível global, só há dados de termómetros para os últimos 150 anos. Daí que seja preciso "reconstruir" o passado climático, com base noutros tipos de fontes – uma tarefa susceptível a grandes incertezas.
Sem termómetros, tudo o que os cientistas têm à mão são indicadores climáticos indirectos (proxies, no jargão académico). Documentos históricos são um deles. Registos escritos, muitos feitos nos mosteiros, de colheitas, de observação do tempo, de catástrofes meteorológicas, de épocas de floração, ajudam a reconstituir o clima. O mesmo vale para imagens.
É na própria natureza, porém, que estão as maiores fontes. Amostras de gelo das regiões polares guardam testemunhos milenares sobre a precipitação, sobre a fusão periódica da cobertura gelada, sobre a composição da atmosfera. De corais do Pacífico também se extraem dados climáticos.
Há cientistas que se dedicam a avaliar o clima passado pelos tipos de pólen encontrados em diferentes camadas de solo. Outros analisam a composição de estalagmites nas cavernas, cuja formação pode estender-se por dezenas de milhares de anos. Sedimentos recolhidos em lagos também dão pistas sobre como foi o clima há séculos ou milénios.
De todos os indicadores indirectos, os anéis de crescimento das árvores são considerados um dos mais importantes. A sua largura e densidade indicam, ano a ano, se o clima foi mais quente ou mais frio, mais húmido ou mais seco. Combinando-se amostras de diferentes idades, é possível reconstituir as condições climáticas ao longo de milhares de anos.
Uma das vantagens dos anéis de árvores está no facto de haver amostras em vários pontos do planeta. "As árvores são provavelmente os proxies mais largamente distribuídos", afirma o climatologista Phil Jones, do Centro de Investigação Climática da Universidade de East Anglia. Além disso, somam-se já largas décadas de experiência com a dendroclimatologia – o nome desta técnica que nasceu na Escandinávia no final do século XIX. "É a mais conhecida ciência de proxies", diz Phil Jones.
O que todos estes indicadores indirectos sugerem é que na Idade Média as temperaturas estavam em alta, pelo menos nalguns pontos do planeta. E há muito tempo que se sabe disso. Em 1914, o cientista sueco Otto Pettersson descreveu como largas áreas da Islândia eram cultivadas no século X, antes de serem posteriormente cobertas de gelo. Na mesma altura, os vikings colonizaram a Gronelândia, chegando a pontos
que o frio também tornaria depois inacessíveis.
Foi o climatologista britânico Hubert Lamb, porém, quem cunhou a designação Medieval Warm Period (Período Quente Medieval). Em 1965, Lamb publicou um artigo sugerindo que, pelo menos na Europa, o tempo foi particularmente quente entre 1000 e 1200, seguido de séculos de frio, entre 1500 e 1700. Lamb calculou que, entre esses dois períodos, a temperatura média na Inglaterra variou entre 1,2 e 1,4 graus Celsius – muito mais do que os 0,7 graus Celsius de diferença verificado no planeta ao longo do século XX. Anos mais tarde, o mesmo cientista estimou que, nalguns pontos, as temperaturas na Idade Média chegaram a ser 1,0 a 2,0 graus mais elevadas do que no princípio do século XX.
A maior parte das reconstruções feitas desde então corrobora a tese de um aquecimento durante a época medieval, pelo menos no Hemisfério: Norte. Com base nesses resultados, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) conclui que o período mais quente dos últimos dois mil anos, antes do século XX, centra-se entre 950 e 1100.
Dizer se foi mais ou menos quente do que agora depende da escala de tempo a que se olha para o fenómeno. Analisando períodos de 100 anos, um estudo submetido à conferência de Lisboa conclui que o aquecimento na Idade Média foi tão uniforme como o do século XX. A uma escala menor, outro estudo sugere que, na Europa, o aquecimento nas primaveras e verões medievais foi mais heterogéneo, década a década, do que o de agora. E os picos de temperaturas extremas eram muito menos frequentes.
Secas de 200 anos
Temperaturas à parte, o Período Quente Medieval foi marcado por outras perturbações climáticas – como as "megassecas" que ocorreram no que hoje são os Estados Unidos. Duas delas foram praticamente simultâneas - uma no actual Nebrasca, que durou 38 anos (1276-1313), e outra, de 24 anos (1276-1299), no Colorado, que terá afastado populações nativas que ali viviam, da civilização anasazi. Na Califórnia, o cientista norte¬ americano Scott Stine encontrou, em resquícios de árvores submersas, evidências de secas ainda maiores, de até dois séculos de duração.
Longe dali, no Egipto, há registos de cheias avassaladoras, combinadas com crises de fome, entre os séculos
IX e XV. O facto de as alterações climáticas nessa altura não se terem manifestado apenas na temperatura faz com que alguns cientistas prefiram designar àquele período como Anomalia Climática Medieval.
As evidências do aquecimento, em si, são mais fortes no Hemisfério Norte, sobretudo nas latitudes mais altas. Mas, quanto ao resto do mundo, o conhecimento é ainda modesto. Há poucos indicadores para as temperaturas passadas nos trópicos, em África, em grande parte dos oceanos. "Estamos longe de ter dados suficientes para qualquer estimativa significativa de um aquecimento medieval global", conclui o IPCC, no seu último relatório de avaliação da ciência climática, de 2007.
Mesmo os estudos que agora surgem são ainda muito pontuais. Um deles, liderado pelo investigador Jürg Luterbacher, da Universidade de Giessen, na Alemanha, produziu, pela primeira vez, uma reconstrução das temperaturas de parte do Hemisfério Sul – abaixo do paralelo 20ºS (mais ou menos de São Paulo para baixo). E concluiu que, naquela região, o clima entre 950 e 1350 era, em média, ainda mais quente do que o do século XX.
Segundo outros investigadores, nos trópicos, poderá ter ocorrido o contrário, um arrefecimento do clima, devido a uma tendência maior para o fenómeno La Niña, no qual a temperatura do Pacífico equatorial permanece mais baixa.
As incertezas são grandes, sobretudo pelo número reduzido de proxies além do Hemisfério Norte. "Temos de ser cautelosos ao interpretar esses resultados", afirma Luterbacher.
Phil Jones acredita que, para determinadas regiões do globo, tão cedo não será possível chegar a reconstruções fiáveis. "A incerteza vai diminuir no futuro, mas não será rápido", antecipa.
Manchas solares
Variações na actividade solar poderão explicar em parte o aquecimento da Idade Média. Mas sabe-se menos sobre estas flutuações naquele período do que nos séculos seguintes, para quando se generalizou a observação das manchas solares. A Pequena Idade do Gelo, que trouxe invernos rigorosos à Europa e à América do Norte entre 1400 e 1900, coincidiu parcialmente com um período de actividade solar excepcionalmente baixo, conhecido por Maunder Minimum (1645-1715).
Apesar das incertezas, os cientistas reconhecem avanços no conhecimento do Período Quente Medieval. "Há muito mais dados agora do que há dez anos", diz Ricardo Trigo. Foi há cerca de uma década que um grupo de investigadores produziu o célebre gráfico do hockey-stick – que mostra as temperaturas médias do Hemisfério Norte desde o ano 1000, mas com uma subida exponencial, sem precedentes, nas últimas décadas. Incluído num relatório do IPCC de 2001, o gráfico foi alvo de críticas, por alegadas falhas metodológicas.
Mas, segundo Ricardo Trigo, outras reconstruções climáticas desde então, mesmo levando em conta o aquecimento medieval, confirmaram aqueles resultados.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Afinal, quem foram os primeiros povoadores dos Açores? Uma "decoberta" polémica.


Dois artigos de dois jornais - `´ublico e Diário de Notícias de 13 de Julho de 2011.
Açores
Alegada descoberta arqueológica na ilha Terceira
não tem comprovação científica
(PÚBLICO) 2011.Julho.13 | Cláudia Carvalho
Supostos monumentos funerários localizados no Monte Brasil obrigariam a rever a história do arquipélago. Diferentes especialistas duvidam, porém, da autenticidade da tese apresentada.
Não existe um consenso em relação à descoberta dos novos sítios arqueológicos no Monte Brasil, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, Açores. A descoberta foi anunciada na passada quinta-feira pelos arqueólogos Nuno Ribeiro e Anabela Joaquinito, da Associação Portuguesa de Investigação Arqueológica (APIA). A Direcção Regional da Cultura dos Açores (DRCA), entidade que regulamenta a actividade arqueológica no arquipélago, não reconhece a descoberta e os especialistas na área não acreditam que existam no Monte Brasil monumentos e santuários do tipo hipogeu, do século IV a.C.
"Em primeiro lugar, não podemos sequer falar de uma descoberta ou um achado. Ninguém descobriu nada agora, aquelas estruturas escavadas na rocha já existem há muitíssimos anos. Diz a história e os documentos que aquelas grutas foram estruturas de apoio militar, propositadamente criadas para aquele efeito. Não tenho nenhuma razão para acreditar que aquilo seja outra coisa", diz ao PÚBLICO Francisco Maduro Dias, presidente do Instituto Histórico da Ilha Terceira, explicando que durante a II Guerra Mundial aquele era um sítio de abrigo e de apoio das tropas portuguesas.
Porém, Nuno Ribeiro, o arqueólogo responsável pelo projecto da APIA, tem a certeza do seu achado. "Aquilo que vimos são estruturas impressionantes, verdadeiros túmulos. No século XV não era esta a forma de construção utilizada. São grandes templos escavados dentro de monumentos do tipo hipogeu [monumentos funerários subterrâneos], de grandes dimensões, muito bem conservados. Pela planta dos monumentos, pela simbologia e pelo contexto, podemos afirmar que são monumentos com cerca de 2500 anos." O arqueólogo diz que ainda não foram feitos quaisquer trabalhos de investigação no sítio, tendo para já apenas recorrido ao método comparativo, em algumas "viagens de recreio", através da observação do espaço e da comparação com complexos arqueológicos semelhantes.
"Aquilo são grutas. Quando há uma ocupação humana, há sempre vestígios que ela deixa. Aqui não há nada. Como é que se pode afirmar isto? Não existem meios que sustentem a existência humana [nas ilhas] antes dos portugueses", comentou o investigador Monge Soares, actualmente no Instituto Tecnológico e Nuclear, em Sacavém. Ideia igualmente partilhada por Ana Arruda, arqueóloga e professora na Faculdade de Letras de Lisboa. "Para haver mortos, teria de haver vivos, ou seja, teriam de existir espaços arqueológicos que provassem a vida, e isso não há", disse a académica, argumentando que se existem evidências de túmulos e santuários, teria de haver provas da existência de pessoas que prestassem culto. Com esta descoberta, a história do povoamento do arquipélago – que, de acordo com as fontes históricas e científicas, ocorreu apenas no século XV – teria de ser revisto. "Eu tenho as maiores reservas em aceitar isto. É preciso apresentar dados arqueológicos que provem isso e até agora não foi feito. Com esta evidência arqueológica, parece-me tudo fantasia."
Fantasia "ao estilo de Indiana Jones" foi como o Centro de Estudos de Arqueologia Moderna e Contemporânea definiu esta notícia, acusando a APIA de falta de "validação científica". A instituição escreveu em comunicado que as descobertas são "meramente sensacionalistas e ao gosto de filmografia de Indiana Jones. Descredibilizam, mormente, a classe arqueológica, que se deve mover com dados fundamentados e com rigor na interpretação e na análise do passado".
Também o presidente da Associação Portuguesa de Arqueólogos, José Arnaut, defende uma comprovação científica dos factos. "Em arqueologia tudo é possível se for devidamente comprovado", refere. "Há muita especulação em relação a estas questões, de tempos em tempos surgem afirmações assim, mas não basta dizer. Na prática, é preciso ser comprovado por especialistas nas áreas, através de métodos científicos específicos."
Numa primeira fase, o projecto da APIA não foi aprovado pela DRCA, por falta de verbas, segundo Nuno Ribeiro. Mas o director regional Jorge Augusto Paulus Bruno considerou "irregular a apresentação pública de resultados e conclusões sobre eventuais sítios arqueológicos no Monte Brasil referentes a ocupações humanas anteriores ao povoamento português". Via email, o responsável explicou que "a associação APIA nunca apresentou até à data qualquer pedido formal de autorização de realização de prospecções". Em relação ao achado, Paulus Bruno partilha da mesma opinião que os arqueólogos: "Falta de comprovação científica". Nuno Ribeiro combate as críticas falando em falta de conhecimento do espaço e possíveis invejas, prometendo que em Setembro, altura em que apresentará as descobertas no congresso SEAC 2011, em Évora, anunciará novidades que provarão que tem razão.
Descoberta de ‘templos’ gera polémica nos Açores
(Diário de Notícias) 2011.Julho.12 | Paulo Faustino (Ponta Delgada
IV A. C. Presidente do Instituto Histórico da Ilha Terceira defende que alegados templos dedicados a deusa lunar cartaginesa não passam de estruturas de apoio militar
O Presidente do Instituto Histórico da Ilha Terceira, Francisco maduro Dias, resume a ‘cafuas’ de apoio às guarnições militares em Angra do Heroísmo, Açores, aquilo que os arqueólogos Nuno Ribeiro e Anabela Joaquinito admitem ser a descoberta no monte Brasil de templos dedicados a Tanit, deusa cartaginesa, do século IV a.C.
Os dois arqueólogos, da Associação Portuguesa de Investigação Arqueológica (APIA), encontraram o que dizem ser túmulos escavados nas rochas que apontam para a existência de cinco monumentos do tipo hipogeu, e de alguns ‘santuários’ proto-históricos. Em causa estarão, segundo Nuno Ribeiro e Anabela Joaquinito, templos de grandes dimensões, bem conservados e com uma planta quase triangular, incluindo pias circulares, associadas a canais para a recolha de água e a realização de rituais com libações e envolvendo sacrifícios.
Vestígios escavados na rocha do monte Brasil (também já o haviam feito na ilha do Corvo) que indiciam, descobertas agora feitas, a “data do povoamento dos Açores pode não ser a que a história refere, mas outra dependente de estudos arqueológicos a estruturas e objectos existentes no arquipélago”-
Os alegados monumentos descobertos pela APIA nas zonas do “monte do Facho” e no Forte de São Diogo incluem ‘cadeiras’ escavadas na rocha, um tanque cerimonial coberto pela vegetação, dezenas de buracos de poste e ainda nichos destinados a acolher a estátua da divindade lunar cartaginesa. Serão dados a conhecer ao mundo em Évora no próximo mês de Setembro e em Florença (Itália) em 2012, no âmbito de encontros mundiais ligados à arqueologia.
Mas o presidente do Instituto Histórico da Ilha Terceira desvaloriza a tese dos investigadores, esclarecendo que as escavações na rocha que encontraram se destinavam apenas a servir de abrigos militares nos séculos XVI e XVII, e ainda para a recolha de água. “A facilidade de escavação fornecia abrigo às tropas – portuguesas e espanholas sem que fosse necessário construi-los na rocha do Monte Brasil”. No seu entender, os alegados templos “não passam de cafuas” junto a posições fortificadas, garantindo não haver “um único elemento que assegure a presença” nos Açores de civilizações anteriores ao século XV d.C. – quando se deu a descoberta e povoamento das ilhas açorianas. O conhecimento anterior a esse período é, conforme referiu, “muito rústico”.
“Entre fantasia e realidade”, para Francisco Maduro Dias, a visão apresentada pela APIA tem “muito mais de fantasia”. Sustenta a sua convicção com o facto de que os alegados túmulos e os rituais envolvendo sacrifícios sugerem situações “instaladas”, criando a ideia, errada, de que o território foi ocupado de uma forma organizada por populações antes do século XV. “Tal não corresponde à realidade, até porque os cartagineses nem eram particularmente exímios na arte da navegação”.
ANTES DE 1427
Factos indiciam conhecimento das ilhas
É hoje facto assente que os Açores não eram habitados aquando das primeiras expedições portuguesas, a partir de 1427, por Diogo de Silves (descobriu o arquipélago a partir do Grupo Oriental). Contudo, há factos que indiciam que a existência das ilhas já era conhecida. O cronista Diogo Domes de Sintra refere que o Infante D. Henrique mandou achar as ilhas antes de 1427, pelo que investigadores argumentam que não se manda achar aquilo que se ignora.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
JUSTIÇA E HISTÓRIA

Que função para a História?
Polémica
Família de Silva Pais queixa-se de difamação
PÚBLICO, 2011.Junho.26 | Tiago Bartolomeu Costa
"Os tribunais não fazem história. Ela é feita pelos historiadores"
A PIDE voltou ao tribunal por causa de uma peça de teatro. Fizemos perguntas aos historiadores sobre o caso Silva Pais: é possível determinar a responsabilidade do director da polícia? O julgamento pode fazer história?
A história não é feita pelos tribu¬nais. É esse o entendimento dos his¬toriadores ouvidos pelo PÚBLICO a propósito do julgamento em que a família do último director da PIDE/ DGS, a polícia política do Estado No-vo, se queixa de difamação, e que amanhã tem mais uma sessão no Campus da Justiça, em Lisboa.
Para os historiadores Rui Ramos, Irene Flunser Pimentel e António Costa Pinto, qualquer que seja o resultado do julgamento que opõe os sobrinhos do major Fernando da Silva Pais aos responsáveis pela apresentação de uma peça de teatro em 2007, daí não se poder fazer uma leitura nova da história.
A acusação argumenta que na peça A Filha Rebelde, sobre as relações de Silva Pais com a sua única filha, apresentada no Teatro Nacional D. Maria II, os réus incluíram frases que sugerem a culpabilidade de Silva Pais no assassinato do general Humberto Delgado, em 1965. Por isso, a autora da peça, Margarida da Fonseca Santos, e os ex-directores do teatro, Carlos Fragateiro e José Manuel Castanhei¬ra, incorreram no crime de difama¬ção da memória de pessoa falecida, uma vez que foram anuladas todas as acusações por morte de Silva Pais durante o julgamento militar que de¬correu em 1981. A defesa contrapõe a responsabilidade moral de Silva Pais: a PIDE era uma estrutura hierárquica e o director teria que saber das intenções da equipa que sequestrou e acabou por matar em Espanha o ex-candidato à Presidência da República, que se opôs a Américo Tomás, apoiado pelo regime liderado por António de Oliveira Salazar.
"Não são os juízes, nem os tribunais, os partidos políticos ou os poderes dominantes que fazem a história. Houve sempre um grande esforço nesse sentido e falharam sempre. A história é feita por historiadores", defende Rui Ramos, co-autor do livro História de Portugal e investigador do Instituto de Ciências Sociais, acrescentando que é preciso fazer uma distinção entre o que pertence "ao domínio judicial e ao domínio histórico". "Era bom que, em Portugal, se evitasse que fossem os poderes públicos a intentar as verdades históricas."
O caso é complexo por fazer correr em simultâneo um plano jurídico, defendido pela acusação, e um histórico, oposto pela defesa, afirma Irene Flunser Pimentel, Prémio Pessoa 2007 e autora do livro A PIDE/DGS (1945-1974).
E pergunta a historiadora: "Como vai o tribunal chegar a uma conclusão sobre o que de facto se passou no caso Humberto Delgado e eliminar taxativamente a autoria moral de Fernando da Silva Pais?" ¬ Pa¬ra Irene Pimentel, tal não é possível "porque, historiograficamente, não se sabe" o que aconteceu, "a não ser que apareçam provas diferentes" que o ilibem. Se ninguém pode dizer que a PIDE quis matar Humberto Delgado e que Salazar deu ordem para matar", também "não há nada que prove que o que Silva Pais disse em julgamento, em que a PIDE só queria raptar e trazê-lo para Portugal, seja verdade". "Não chega que uma pessoa acusada, que tem direito à sua defesa, diga que não se quis matar."
Justiça retroactiva
O historiador António Costa Pinto lembra que "as democracias não têm uma memória histórica unificada ofi-cialmente" e que Portugal não teve "um processo de justiça retroactivo", como fizeram muitas democracias contemporâneas, dando o exemplo da Argentina. Esses processos têm uma dupla característica: "A defesa dos direitos do homem e a punição simbólica, às vezes retroactiva, dos passados autoritários." O historiador, também do Instituto de Ciências So¬ciais, diz que Portugal, por oposição, se caracterizou "por um distancia¬mento, após alguma radicalidade mí¬nima no período pós-autoritário".
Não será através deste processo que se vai rever a história, uma vez que "é uma iniciativa da família", continua Costa Pinto. Esta ideia é se¬cundada por Rui Ramos, para quem este "é um caso descontextualizado da história" pela sua dimensão ju¬rídica: "Não penso que condicione o historiador ou legitime determi¬nadas visões em contraponto com outras."
Mas a ausência de um documento que comprove o que muitos assumem como memória colectiva poderá dar razão à acusação? "No campo jurídi¬co, sim, mas não no caso da memória historiográfica ou oficial das institui¬ções políticas", diz Costa Pinto. Irene Pimentel sublinha que "nem tudo é facilmente comprovável". E explica porquê: "Sendo a polícia secreta, que escondia que funcionava com estes métodos, não há documentação que permita dizer por A+B que Fernando da Silva Pais, ou outro qualquer, deu ordem para torturar ou matar."
Qual poderá ser a importância pa¬ra a história deste julgamento?
O carácter procedente deste pro¬cesso será avaliado pelo tribunal, "mas o trabalho de um historiador, sobretudo num caso delicado como este, é o de examinar e interpretar a documentação e formular hipóte-ses que permitam, a partir daquilo que sabemos, determinar também aquilo que não sabemos", explica Ramos. "O trabalho do historiador é também o de desconstruir e exa¬minar a memória colectiva e con¬frontá-la com outro tipo de docu¬mentação e indícios, o que o torna interessante e interpelante para o grande público."
O julgamento do historiador, ao contrário do do tribunal, diz Irene Pimentel, "não é para condenar ou absolver, mas tentar compreender, entendendo sempre que isso será provisório".
25 de Junho - Dia dos Refugiados
No programa de História - 9.º ano, há referência a Aristides de Sousa Mendes, o "Schindler" português, por ter passado milhares de vistos a fugitivos do jugo nazi. No entanto, avultam outros nomes de portugueses que devemos conhecer, irmanados num objectivo que contrariava as directivas do Estado português, isto é, ...
Ousaram desobedecer
In Expresso, 2011.Junho.25
Aristides de Sousa Mendes
Cônsul em Bordéus em 1940, ignorou as ordens de Salazar: deu dez mil vistos a judeus e o dobro a outros refugiados. Salvou, entre outros, a família real Habsburgo ou o governo belga no exílio.
Carlos de Sampayo Garrido
Enquanto embaixador de Portugal em Budapeste, entre 1939 e 1944, arrendou casas e apartamentos para salvar judeus húngaros do assassínio e da deportação.
Alberto Teixeira Branquinho
Sucede a Garrido na Hungria, em 1944, como encarregado de negócios. Autorizou a emissão de mais de 800 salvo-condutos.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Mombaça - Forte Jesus

Não foi sequer escolhido para uma das maravilhas portuguesas do mundo - concurso de 2009 - mas a UNESCO considerou-o Património da Humanidade.
QUÉNIA - FORTE português Património Mundial
in PÚBLICO, 2011.Junho.29
Uma fortificação de origem portuguesa do século XVI no Quénia foi classificada Património Mundial da UNESCO, de acordo com uma lista de novos sítios divulgados na segunda-feira por aquela organização. Para a UNESCO, o Forte Jesus em Mombaça, construído pelos portugueses entre 1593 e 1596 para proteger o porto daquela cidade queniana, é “um dos mais notáveis e bem conservados exemplos da fortificação militar portuguesa do século XVI e um marco na História deste tipo de construções”.
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