sexta-feira, 15 de julho de 2011

Afinal, quem foram os primeiros povoadores dos Açores? Uma "decoberta" polémica.



Dois artigos de dois jornais - `´ublico e Diário de Notícias de 13 de Julho de 2011.

Açores
Alegada descoberta arqueológica na ilha Terceira
não tem comprovação científica

(PÚBLICO) 2011.Julho.13 | Cláudia Carvalho

Supostos monumentos funerários localizados no Monte Brasil obrigariam a rever a história do arquipélago. Diferentes especialistas duvidam, porém, da autenticidade da tese apresentada.
Não existe um consenso em relação à descoberta dos novos sítios arqueológicos no Monte Brasil, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, Açores. A descoberta foi anunciada na passada quinta-feira pelos arqueólogos Nuno Ribeiro e Anabela Joaquinito, da Associação Portuguesa de Investigação Arqueológica (APIA). A Direcção Regional da Cultura dos Açores (DRCA), entidade que regulamenta a actividade arqueológica no arquipélago, não reconhece a descoberta e os especialistas na área não acreditam que existam no Monte Brasil monumentos e santuários do tipo hipogeu, do século IV a.C.
"Em primeiro lugar, não podemos sequer falar de uma descoberta ou um achado. Ninguém descobriu nada agora, aquelas estruturas escavadas na rocha já existem há muitíssimos anos. Diz a história e os documentos que aquelas grutas foram estruturas de apoio militar, propositadamente criadas para aquele efeito. Não tenho nenhuma razão para acreditar que aquilo seja outra coisa", diz ao PÚBLICO Francisco Maduro Dias, presidente do Instituto Histórico da Ilha Terceira, explicando que durante a II Guerra Mundial aquele era um sítio de abrigo e de apoio das tropas portuguesas.
Porém, Nuno Ribeiro, o arqueólogo responsável pelo projecto da APIA, tem a certeza do seu achado. "Aquilo que vimos são estruturas impressionantes, verdadeiros túmulos. No século XV não era esta a forma de construção utilizada. São grandes templos escavados dentro de monumentos do tipo hipogeu [monumentos funerários subterrâneos], de grandes dimensões, muito bem conservados. Pela planta dos monumentos, pela simbologia e pelo contexto, podemos afirmar que são monumentos com cerca de 2500 anos." O arqueólogo diz que ainda não foram feitos quaisquer trabalhos de investigação no sítio, tendo para já apenas recorrido ao método comparativo, em algumas "viagens de recreio", através da observação do espaço e da comparação com complexos arqueológicos semelhantes.
"Aquilo são grutas. Quando há uma ocupação humana, há sempre vestígios que ela deixa. Aqui não há nada. Como é que se pode afirmar isto? Não existem meios que sustentem a existência humana [nas ilhas] antes dos portugueses", comentou o investigador Monge Soares, actualmente no Instituto Tecnológico e Nuclear, em Sacavém. Ideia igualmente partilhada por Ana Arruda, arqueóloga e professora na Faculdade de Letras de Lisboa. "Para haver mortos, teria de haver vivos, ou seja, teriam de existir espaços arqueológicos que provassem a vida, e isso não há", disse a académica, argumentando que se existem evidências de túmulos e santuários, teria de haver provas da existência de pessoas que prestassem culto. Com esta descoberta, a história do povoamento do arquipélago – que, de acordo com as fontes históricas e científicas, ocorreu apenas no século XV – teria de ser revisto. "Eu tenho as maiores reservas em aceitar isto. É preciso apresentar dados arqueológicos que provem isso e até agora não foi feito. Com esta evidência arqueológica, parece-me tudo fantasia."
Fantasia "ao estilo de Indiana Jones" foi como o Centro de Estudos de Arqueologia Moderna e Contemporânea definiu esta notícia, acusando a APIA de falta de "validação científica". A instituição escreveu em comunicado que as descobertas são "meramente sensacionalistas e ao gosto de filmografia de Indiana Jones. Descredibilizam, mormente, a classe arqueológica, que se deve mover com dados fundamentados e com rigor na interpretação e na análise do passado".
Também o presidente da Associação Portuguesa de Arqueólogos, José Arnaut, defende uma comprovação científica dos factos. "Em arqueologia tudo é possível se for devidamente comprovado", refere. "Há muita especulação em relação a estas questões, de tempos em tempos surgem afirmações assim, mas não basta dizer. Na prática, é preciso ser comprovado por especialistas nas áreas, através de métodos científicos específicos."
Numa primeira fase, o projecto da APIA não foi aprovado pela DRCA, por falta de verbas, segundo Nuno Ribeiro. Mas o director regional Jorge Augusto Paulus Bruno considerou "irregular a apresentação pública de resultados e conclusões sobre eventuais sítios arqueológicos no Monte Brasil referentes a ocupações humanas anteriores ao povoamento português". Via email, o responsável explicou que "a associação APIA nunca apresentou até à data qualquer pedido formal de autorização de realização de prospecções". Em relação ao achado, Paulus Bruno partilha da mesma opinião que os arqueólogos: "Falta de comprovação científica". Nuno Ribeiro combate as críticas falando em falta de conhecimento do espaço e possíveis invejas, prometendo que em Setembro, altura em que apresentará as descobertas no congresso SEAC 2011, em Évora, anunciará novidades que provarão que tem razão.


Descoberta de ‘templos’ gera polémica nos Açores
(Diário de Notícias) 2011.Julho.12 | Paulo Faustino (Ponta Delgada

IV A. C. Presidente do Instituto Histórico da Ilha Terceira defende que alegados templos dedicados a deusa lunar cartaginesa não passam de estruturas de apoio militar
O Presidente do Instituto Histórico da Ilha Terceira, Francisco maduro Dias, resume a ‘cafuas’ de apoio às guarnições militares em Angra do Heroísmo, Açores, aquilo que os arqueólogos Nuno Ribeiro e Anabela Joaquinito admitem ser a descoberta no monte Brasil de templos dedicados a Tanit, deusa cartaginesa, do século IV a.C.
Os dois arqueólogos, da Associação Portuguesa de Investigação Arqueológica (APIA), encontraram o que dizem ser túmulos escavados nas rochas que apontam para a existência de cinco monumentos do tipo hipogeu, e de alguns ‘santuários’ proto-históricos. Em causa estarão, segundo Nuno Ribeiro e Anabela Joaquinito, templos de grandes dimensões, bem conservados e com uma planta quase triangular, incluindo pias circulares, associadas a canais para a recolha de água e a realização de rituais com libações e envolvendo sacrifícios.
Vestígios escavados na rocha do monte Brasil (também já o haviam feito na ilha do Corvo) que indiciam, descobertas agora feitas, a “data do povoamento dos Açores pode não ser a que a história refere, mas outra dependente de estudos arqueológicos a estruturas e objectos existentes no arquipélago”-
Os alegados monumentos descobertos pela APIA nas zonas do “monte do Facho” e no Forte de São Diogo incluem ‘cadeiras’ escavadas na rocha, um tanque cerimonial coberto pela vegetação, dezenas de buracos de poste e ainda nichos destinados a acolher a estátua da divindade lunar cartaginesa. Serão dados a conhecer ao mundo em Évora no próximo mês de Setembro e em Florença (Itália) em 2012, no âmbito de encontros mundiais ligados à arqueologia.
Mas o presidente do Instituto Histórico da Ilha Terceira desvaloriza a tese dos investigadores, esclarecendo que as escavações na rocha que encontraram se destinavam apenas a servir de abrigos militares nos séculos XVI e XVII, e ainda para a recolha de água. “A facilidade de escavação fornecia abrigo às tropas – portuguesas e espanholas sem que fosse necessário construi-los na rocha do Monte Brasil”. No seu entender, os alegados templos “não passam de cafuas” junto a posições fortificadas, garantindo não haver “um único elemento que assegure a presença” nos Açores de civilizações anteriores ao século XV d.C. – quando se deu a descoberta e povoamento das ilhas açorianas. O conhecimento anterior a esse período é, conforme referiu, “muito rústico”.
“Entre fantasia e realidade”, para Francisco Maduro Dias, a visão apresentada pela APIA tem “muito mais de fantasia”. Sustenta a sua convicção com o facto de que os alegados túmulos e os rituais envolvendo sacrifícios sugerem situações “instaladas”, criando a ideia, errada, de que o território foi ocupado de uma forma organizada por populações antes do século XV. “Tal não corresponde à realidade, até porque os cartagineses nem eram particularmente exímios na arte da navegação”.

ANTES DE 1427
Factos indiciam conhecimento das ilhas

É hoje facto assente que os Açores não eram habitados aquando das primeiras expedições portuguesas, a partir de 1427, por Diogo de Silves (descobriu o arquipélago a partir do Grupo Oriental). Contudo, há factos que indiciam que a existência das ilhas já era conhecida. O cronista Diogo Domes de Sintra refere que o Infante D. Henrique mandou achar as ilhas antes de 1427, pelo que investigadores argumentam que não se manda achar aquilo que se ignora.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

JUSTIÇA E HISTÓRIA


Que função para a História?

Polémica
Família de Silva Pais queixa-se de difamação

PÚBLICO, 2011.Junho.26 | Tiago Bartolomeu Costa

"Os tribunais não fazem história. Ela é feita pelos historiadores"

A PIDE voltou ao tribunal por causa de uma peça de teatro. Fizemos perguntas aos historiadores sobre o caso Silva Pais: é possível determinar a responsabilidade do director da polícia? O julgamento pode fazer história?
A história não é feita pelos tribu¬nais. É esse o entendimento dos his¬toriadores ouvidos pelo PÚBLICO a propósito do julgamento em que a família do último director da PIDE/ DGS, a polícia política do Estado No-vo, se queixa de difamação, e que amanhã tem mais uma sessão no Campus da Justiça, em Lisboa.
Para os historiadores Rui Ramos, Irene Flunser Pimentel e António Costa Pinto, qualquer que seja o resultado do julgamento que opõe os sobrinhos do major Fernando da Silva Pais aos responsáveis pela apresentação de uma peça de teatro em 2007, daí não se poder fazer uma leitura nova da história.
A acusação argumenta que na peça A Filha Rebelde, sobre as relações de Silva Pais com a sua única filha, apresentada no Teatro Nacional D. Maria II, os réus incluíram frases que sugerem a culpabilidade de Silva Pais no assassinato do general Humberto Delgado, em 1965. Por isso, a autora da peça, Margarida da Fonseca Santos, e os ex-directores do teatro, Carlos Fragateiro e José Manuel Castanhei¬ra, incorreram no crime de difama¬ção da memória de pessoa falecida, uma vez que foram anuladas todas as acusações por morte de Silva Pais durante o julgamento militar que de¬correu em 1981. A defesa contrapõe a responsabilidade moral de Silva Pais: a PIDE era uma estrutura hierárquica e o director teria que saber das intenções da equipa que sequestrou e acabou por matar em Espanha o ex-candidato à Presidência da República, que se opôs a Américo Tomás, apoiado pelo regime liderado por António de Oliveira Salazar.
"Não são os juízes, nem os tribunais, os partidos políticos ou os poderes dominantes que fazem a história. Houve sempre um grande esforço nesse sentido e falharam sempre. A história é feita por historiadores", defende Rui Ramos, co-autor do livro História de Portugal e investigador do Instituto de Ciências Sociais, acrescentando que é preciso fazer uma distinção entre o que pertence "ao domínio judicial e ao domínio histórico". "Era bom que, em Portugal, se evitasse que fossem os poderes públicos a intentar as verdades históricas."
O caso é complexo por fazer correr em simultâneo um plano jurídico, defendido pela acusação, e um histórico, oposto pela defesa, afirma Irene Flunser Pimentel, Prémio Pessoa 2007 e autora do livro A PIDE/DGS (1945-1974).
E pergunta a historiadora: "Como vai o tribunal chegar a uma conclusão sobre o que de facto se passou no caso Humberto Delgado e eliminar taxativamente a autoria moral de Fernando da Silva Pais?" ¬ Pa¬ra Irene Pimentel, tal não é possível "porque, historiograficamente, não se sabe" o que aconteceu, "a não ser que apareçam provas diferentes" que o ilibem. Se ninguém pode dizer que a PIDE quis matar Humberto Delgado e que Salazar deu ordem para matar", também "não há nada que prove que o que Silva Pais disse em julgamento, em que a PIDE só queria raptar e trazê-lo para Portugal, seja verdade". "Não chega que uma pessoa acusada, que tem direito à sua defesa, diga que não se quis matar."
Justiça retroactiva
O historiador António Costa Pinto lembra que "as democracias não têm uma memória histórica unificada ofi-cialmente" e que Portugal não teve "um processo de justiça retroactivo", como fizeram muitas democracias contemporâneas, dando o exemplo da Argentina. Esses processos têm uma dupla característica: "A defesa dos direitos do homem e a punição simbólica, às vezes retroactiva, dos passados autoritários." O historiador, também do Instituto de Ciências So¬ciais, diz que Portugal, por oposição, se caracterizou "por um distancia¬mento, após alguma radicalidade mí¬nima no período pós-autoritário".
Não será através deste processo que se vai rever a história, uma vez que "é uma iniciativa da família", continua Costa Pinto. Esta ideia é se¬cundada por Rui Ramos, para quem este "é um caso descontextualizado da história" pela sua dimensão ju¬rídica: "Não penso que condicione o historiador ou legitime determi¬nadas visões em contraponto com outras."
Mas a ausência de um documento que comprove o que muitos assumem como memória colectiva poderá dar razão à acusação? "No campo jurídi¬co, sim, mas não no caso da memória historiográfica ou oficial das institui¬ções políticas", diz Costa Pinto. Irene Pimentel sublinha que "nem tudo é facilmente comprovável". E explica porquê: "Sendo a polícia secreta, que escondia que funcionava com estes métodos, não há documentação que permita dizer por A+B que Fernando da Silva Pais, ou outro qualquer, deu ordem para torturar ou matar."
Qual poderá ser a importância pa¬ra a história deste julgamento?
O carácter procedente deste pro¬cesso será avaliado pelo tribunal, "mas o trabalho de um historiador, sobretudo num caso delicado como este, é o de examinar e interpretar a documentação e formular hipóte-ses que permitam, a partir daquilo que sabemos, determinar também aquilo que não sabemos", explica Ramos. "O trabalho do historiador é também o de desconstruir e exa¬minar a memória colectiva e con¬frontá-la com outro tipo de docu¬mentação e indícios, o que o torna interessante e interpelante para o grande público."
O julgamento do historiador, ao contrário do do tribunal, diz Irene Pimentel, "não é para condenar ou absolver, mas tentar compreender, entendendo sempre que isso será provisório".

25 de Junho - Dia dos Refugiados




No programa de História - 9.º ano, há referência a Aristides de Sousa Mendes, o "Schindler" português, por ter passado milhares de vistos a fugitivos do jugo nazi. No entanto, avultam outros nomes de portugueses que devemos conhecer, irmanados num objectivo que contrariava as directivas do Estado português, isto é, ...

Ousaram desobedecer
In Expresso, 2011.Junho.25


Aristides de Sousa Mendes
Cônsul em Bordéus em 1940, ignorou as ordens de Salazar: deu dez mil vistos a judeus e o dobro a outros refugiados. Salvou, entre outros, a família real Habsburgo ou o governo belga no exílio.



Carlos de Sampayo Garrido
Enquanto embaixador de Portugal em Budapeste, entre 1939 e 1944, arrendou casas e apartamentos para salvar judeus húngaros do assassínio e da deportação.



Alberto Teixeira Branquinho
Sucede a Garrido na Hungria, em 1944, como encarregado de negócios. Autorizou a emissão de mais de 800 salvo-condutos.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Mombaça - Forte Jesus


Não foi sequer escolhido para uma das maravilhas portuguesas do mundo - concurso de 2009 - mas a UNESCO considerou-o Património da Humanidade.

QUÉNIA - FORTE português Património Mundial
in PÚBLICO, 2011.Junho.29

Uma fortificação de origem portuguesa do século XVI no Quénia foi classificada Património Mundial da UNESCO, de acordo com uma lista de novos sítios divulgados na segunda-feira por aquela organização. Para a UNESCO, o Forte Jesus em Mombaça, construído pelos portugueses entre 1593 e 1596 para proteger o porto daquela cidade queniana, é “um dos mais notáveis e bem conservados exemplos da fortificação militar portuguesa do século XVI e um marco na História deste tipo de construções”.

domingo, 26 de junho de 2011

Manuais de História

"A História não faz julgamento, antes procura interpretar..." Isto a propósito de

Manuais de História ainda contam o mundo à moda do Estado Novo
(PÚBLICO) 2011.Março.27

Os manuais de História do 3.º ciclo do ensino básico continuam a perpetuar "muitos dos discursos do Estado Novo". São apresentados de um modo "mais subtil e suavizado", mas constituem "um corpo ideológico" que continua a condicionar o modo como se fala do racismo, do nacionalismo e da "história dos outros". As constatações são da investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra Marta Araújo e têm como base uma análise dos cinco manuais de História mais vendidos, em 2008/2009, no 7.º, 8.º e 9.º anos de escolaridade.
Esta análise constituiu o ponto de partida para a investigação Raça e África em Portugal, que Marta Araújo lidera no CES. No âmbito deste projecto, que ficará concluído em Agosto, estão a ser realizadas também entrevistas a historiadores, estudantes universitários, professores e alunos do 3.º ciclo.
"Tentámos ir mais além da identificação das representações dominantes. Sabemos que são estereotipadas, existem imensos estudos que o mostram. Em vez de fazermos mais um, assumimo-los como ponto de partida e fomos antes tentar explorar a ideologia que lhes subjaz e o modo como através desta se naturalizam as relações de poder", explica a investigadora.
Como se conta o mundo então? "Garantindo a presença da Europa no seu centro." "Este eurocentrismo exprime uma pretensão universalizante, através da qual o modelo de desenvolvimento europeu ocidental é adoptado como padrão para avaliar todas as outras sociedades", explica Marta Araújo.
Clara Serrano, investigadora dos Centros de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra, também tem andado à volta dos manuais de História do ensino básico e à semelhança de Marta Araújo constatou que nestes livros " a história universal é estruturada e apresentada a partir de uma perspectiva marcadamente eurocentrista". "A história dos outros continentes é muito pouco leccionada - e, quando é, é-o como efeito secundário do conhecimento de actividades de descobrimento e colonização protagonizadas por povos europeus", explicita. Não é um exclusivo: "É curioso verificar que os próprios manuais dos países não europeus não conseguiram escapar a esta linha europeísta."
Para Marta Araújo, o eurocentrismo como ideologia ganha eficácia "através da despolitização". Por exemplo, a guerra colonial tende a ser descrita "não como uma guerra de libertação, mas sim como uma guerra de guerrilha sem um propósito". Há livros em que as únicas imagens reproduzidas são a de soldados portugueses mortos, uma forma, segundo a investigadora, de reforçar uma narrativa recorrente. "Também a encontramos, por exemplo, nos capítulos da Reconquista da Península Ibérica. E a imagem que se faz passar é que nós, portugueses, fomos forçados a sermos violentos, enquanto eles, sejam angolanos ou mouros, são naturalmente violentos e bárbaros."
É o que está patente nestes trechos apresentados em manuais do 7.º e 9.º ano e que são reproduzidos pela investigadora num artigo publicado na revista Estudos de Sociologia.
Sobre a Reconquista: "No século VIII, os Cristãos viram a sua vida quotidiana - em si bastante instável - ameaçada pela chegada dos Muçulmanos. Em consequência os Cristãos estabeleceram contacto com os Cruzados de outros reinos Cristãos Europeus com os quais reuniram esforços para recuperaram os territórios perdidos(...)."
Sobre a guerra colonial: "Um sentimento generalizado de medo entre os colonos levou-os a matar muitos indígenas enquanto outros fugiram, indo juntar-se aos guerrilheiros. Posteriormente, tribos do Norte de Angola assassinaram centenas de colonos."
"Há sempre um jogo que naturaliza a nossa violência e que esvazia o lado político da luta deles", frisa Marta Araújo.
"Ranking dos colonialismos"
Num manual do 8.º ano explica-se que os portugueses foram para África, porque queriam fazer comércio. O modo como se narra o que aconteceu então e depois acaba por dar corpo a uma espécie de "ranking dos colonialismos". "O racismo é sempre tido como um fenómeno circunscrito e associado aos impérios francês e britânico." As atrocidades ficam sobretudo por conta dos espanhóis. E a nós atribuem-nos uma espécie de "colonialismo suave", uma leitura que, segundo Marta Araújo, voltou a ganhar força nos últimos dez anos.
Com a ênfase europeia no multiculturalismo, Portugal volta a apresentar-se como tendo um papel pioneiro, ressuscitando "o discurso lusotropicalista que foi apropriado pelo Estado Novo" - essa ideia de que os portugueses sempre tiveram melhor capacidade de adaptação a outros povos e culturas. "Nunca se discute o fenómeno do racismo. Ou é tido como um fenómeno circunscrito a outros, ou como uma atitude individual, ou como ligado a situações extremas, como o nazismo", frisa.Não por acaso, acrescenta, na maioria dos manuais não existe uma única referência aos ciganos: "É uma parte da população que desapareceu." Os manuais escolares, sendo um dos principais recursos utilizados nas salas de aulas, "dizem bastante sobre o modo como se ensina a História nas escolas", afirma Clara Serrano.
Existe uma "simplificação" que é potenciada pela extensão dos programas em vigor e a carga horária reduzida atribuída à disciplina. E esta simplificação contribui para o êxito de um propósito, adverte: "Não nos podemos esquecer que os manuais são transmissores de valores que a instituição escolar e, em última análise, o poder instituído pretendem transmitir. Por isso, a escolha da linguagem, do estilo, a selecção dos assuntos e dos textos, a organização e hierarquização dos conteúdos não será de todo inocente."

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Ainda o Coelho, mas ligado à colonização de Porto Santo



Darwin pensava que os coelhos trazidos para a ilha eram domesticados (Carlos Lopes (arquivo)

Na Ilha do Porto Santo os coelhos descendem todos de um só casal
(PÚBLICO) 2011.Jan.31 | Teresa Firmino
O episódio está no livro Décadas da Ásia, de João de Barros, de 1552, em que o historiador relatava os feitos dos Descobrimentos: no navio de Bartolomeu Perestrelo, que em 1419 navegou para a ilha do Porto Santo com a missão de a povoar, seguia "uma coelha prenha metida numa gaiola que pelo mar acertou parir".
Uma vez na ilha, o objectivo era que os coelhos a povoassem e servissem de alimento aos colonizadores. Mas a sua multiplicação foi tal que era impossível cultivar a terra. Roíam tudo, dizia João de Barros. Também Charles Darwin se interessou pelos famosos coelhos do Porto Santo, como mostra a exposição A Evolução de Darwin, inaugurada amanhã, 1 de Fevereiro, na Casa Andresen, no Jardim Botânico do Porto (pode ver-se até 17 de Julho).
No livro A Variação dos Animais e das Plantas sob Domesticação, o pai da teoria da evolução pela selecção natural dizia que os coelhos do Porto Santo resultaram de animais já domesticados. Mas Darwin estava errado, como mostraram os estudos genéticos de Nuno Ferrand de Almeida, do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, no Porto.
"Esta é uma fortíssima prova de que nessa altura – 1419 – ainda não teriam chegado a Portugal as raças domesticadas de coelho", diz Ferrand de Almeida. Os seus estudos genéticos também concluíram que toda a população actual de coelhos do Porto Santo descende de um só casal – pelo que tudo começou com a coelha prenha no navio de Bartolomeu Perestrelo.

DOMESTICAÇÃO DO COELHO


Curiosidade atrás de curiosidade...

Os sinais claros da domesticação do coelho só surgiram a partir de meados do século XV (Punit Paranjpe/Reuters (arquivo)

Cientistas portugueses resolvem o enigmaQuem domesticou o coelho? Os monges da Provença, diz a genética
(PÚBLICO) 2011.Jan.31 | Por Teresa Firmino
É o único mamífero domesticado só na Europa ocidental, e numa fase tardia. A documentação histórica já sugeria o papel dos monges no processo. Tudo porque o papa Gregório I decidiu que os coelhos recém-nascidos não eram carne, pelo que podiam comer-se na Quaresma. A genética confirma agora esta história.
Durante grande parte da sua história, o coelho-europeu, ou coelho-comum, viveu apenas na Península Ibérica e no Sul de França. Hoje está espalhado por quase todos os cantos da Terra, tanto a sua forma selvagem como a doméstica. Mas onde e quando começou a domesticação do coelho? Duas hipóteses têm sido avançadas: tudo terá começado com os romanos na Península Ibérica, há cerca de dois mil anos, ou então terá sido há 1400 anos numa região que actualmente integra o Sul de França e os monges tiveram um papel principal. A equipa de Nuno Ferrand de Almeida, coordenador do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Cibio) da Universidade do Porto, acaba de dar a resposta: foi nos mosteiros da Provença.
O coelho-europeu, ou Oryctolagus cuniculus, o nome científico da espécie, surgiu na Península Ibérica há cerca de dois milhões de anos e é caçado pelos humanos como alimento há milhares de anos. Tem duas subespécies, que no pico da última glaciação, há 20 mil anos, ficaram confinadas a dois refúgios: enquanto a Oryctolagus cuniculus cuniculus habitava em França e no Nordeste da Península Ibérica, a Oryctolagus cuniculus algirus vivia no Sudoeste da Península Ibérica, incluindo o Sul de Portugal.
O primeiro registo que nos chegou da abundância do coelho no Sul da Península Ibérica é dos fenícios, quando vieram até às suas costas há três mil anos, para trocas comerciais. "Viram milhares de coelhos, que confundiram com o damão-do-cabo, que era abundante nas costas das cidades fenícias", conta Nuno Ferrand de Almeida. "Esse registo poderá estar na origem do nome Espanha, que quererá dizer "terra de coelhos": a designação de "i-shephan-im", ou terra de damões-do-cabo, que na verdade eram os coelhos, seria depois latinizada para dar Hispânia, e mais tarde Espanha."
Quando voltavam para sua terra, no Médio Oriente, os fenícios levavam com eles o coelho e espalharam-no pela bacia do Mediterrâneo, por exemplo pelas ilhas Baleares e pelo Norte de África.
Mais tarde vieram os romanos, que se instalaram durante séculos na Península Ibérica, e também levaram o coelho para outras paragens na Europa. "A primeira tentativa de controlar a reprodução do coelho terá ocorrido na Península Ibérica, um século antes de Cristo", conta o biólogo Miguel Carneiro, também do Cibio, e autor principal do artigo com esta descoberta, publicado este mês na edição online da revista britânica Molecular Biology and Evolution.
A partir da ocupação romana passa a haver múltiplas referências aos coelhos. "Uma das mais célebres é a de Plínio, o Velho, na sua História Natural, no primeiro século da nossa era, onde já se refere o hábito de consumir fetos dos coelhos, bem como o facto de produzirem imensos prejuízos na agricultura. Também durante Adriano, um dos mais célebres imperadores romanos - imortalizado por Marguerite Yourcenar em Memórias de Adriano -, circulavam na península moedas com coelhos cunhados na sua face", acrescenta Ferrand de Almeida. "A partir dessa altura há referências permanentes a estruturas belíssimas chamadas "leporaria", que eram cercados feitos de pedras onde os coelhos eram mantidos para serem usados na caça e na alimentação. Há muitos vestígios arqueológicos dessas estruturas. Esta seria uma das hipóteses para a domesticação do coelho ter ocorrido na Península Ibérica."
Carne que não é carne
No entanto, outros registos históricos sugeriam que a domesticação tinha ocorrido mais tarde, por volta do ano 600, nos mosteiros da Provença. A fundamentar esta suposição encontra-se uma decisão do papa Gregório I, que tinha sido monge beneditino, em que considera que os fetos e as crias recém-nascidas de coelho não eram carne, pelo que podiam comer-se durante o jejum da Quaresma. E assim a criação de coelhos difundiu-se nos mosteiros da Provença. "Há muitíssimos documentos históricos que atestam a frequente troca de coelhos entre abadias, e mesmo com países como a Inglaterra. Este processo poderia ter levado à domesticação do coelho e seria uma hipótese de domesticação realizada fora da península, proveniente das populações selvagens do Sul de França", refere Ferrand de Almeida. Tenham sido os romanos ou os monges da Provença, os sinais claros da domesticação do coelho só surgiram muito mais tarde, a partir de meados do século XV. Em iluminuras e pinturas, começaram a aparecer os primeiros coelhos com cores diferentes, desde brancos a avermelhados, em vez da cor parda dos selvagens.
Um dos quadros mais célebres que representa um coelho branco é de Ticiano, Madona e Menino com Santa Catarina, também conhecido como A Virgem do Coelho, de cerca de 1530, que está no Museu do Louvre. "Esses mutantes de cor poderão corresponder a um processo de domesticação já terminado. E a partir daí o coelho doméstico difundiu-se por todo o mundo e teve um sucesso enorme", explica Ferrand de Almeida.
No século XVI, há registos de coelhos de vários tamanhos e cores em França, Itália, Flandres ou Inglaterra, o que sugere que a sua domesticação estava já concluída nessa altura.
Exclusivo da Europa
Mas qual das duas hipóteses para a domesticação do coelho, compatíveis com os registos históricos, está afinal certa?
A equipa Ferrand de Almeida começou à procura de uma resposta na genética, há cerca de uma década, com cientistas de outros países, nomeadamente de França. Já nessa altura os resultados apontavam para os monges da Provença. "Havia indicações genéticas que sustentavam essa hipótese, mas eram muito fragmentadas", diz Ferrand de Almeida.
Agora foi feita uma análise genética mais aprofundada, no trabalho de doutoramento de Miguel Carneiro, orientado por Ferrand de Almeida. Em colaboração com cientistas franceses e norte-americanos, estudaram-se mais regiões no genoma do coelho, comparando-se animais domésticos com populações das duas subespécies selvagens na Península Ibérica e no Sul de França.
O ADN dos coelhos corroborou a história relativa aos monges. "A origem da domesticação do coelho não está na Península Ibérica, mas no Sul de França. Os monges iniciaram a domesticação do coelho que hoje temos em todo o lado, há cerca de 1400 anos. Os nossos dados suportam estes registos históricos", sublinha Miguel Carneiro. "O coelho é o único mamífero domesticado exclusivamente na Europa. Pensa-se que o porco foi domesticado por toda a Eurásia."
A Oryctolagus cuniculus cuniculus, que era a única subespécie presente no Sul de França naquela época, é assim o antepassado directo dos coelhos domésticos. O cenário de um único sítio para a origem da domesticação do coelho contrasta com o que ocorreu com a maioria dos animais - ou foram domesticados em várias regiões, como o cão, ou a partir de várias espécies ou subespécies, como o burro, em África. Em comparação com muitos outros mamíferos, domesticados há mais de cinco mil anos, o caso do coelho também é muito recente. No cão, pelo contrário, tal pode mesmo ter começado há 14 mil anos. Outro aspecto invulgar é o facto de o antepassado do coelho doméstico ainda existir, ao contrário do que acontece noutros casos, como a vaca (os últimos auroques extinguiram-se no século XVII, na Europa Central).
Menos de 1200 animais
E de quantos coelhos selvagens descendem todos os domésticos que existem hoje no mundo? A equipa também pôde determinar esse número, agora que já se sabe quer onde e quando os coelhos foram domesticados (a partir do ano 600), quer quando o processo estava terminado (século XVI). Tendo em conta a diversidade genética dos coelhos domésticos actuais, todos descendem de 1200 animais, no máximo, se a domesticação foi lenta. Ou de apenas 14 coelhos, no mínimo, se foi muito rápida. "Provavelmente foram mais de 14. Terá sido um processo mais lento", diz Ferrand de Almeida. Coelhos bravos e domésticos pertencem à mesma espécie, os últimos apenas se consideram uma população diferente, seleccionada para ter características especiais. Entre essas características inclui-se um comportamento mais dócil e a reprodução ao longo do ano todo, enquanto o selvagem só se reproduz durante quatro a cinco meses. Além das variações de cor, o tamanho do coelho doméstico pode ir dos 800 gramas a dez quilos (o bravo tem pouco mais de um quilo). O tamanho das orelhas também muda bastante.
Hoje há pelo mundo fora mais de 200 variedades de coelhos domésticos, a maioria das quais surgiu nos últimos 200 anos. "Na época vitoriana havia uma paixão pelos animais. Deu-se uma explosão da criação de animais, desde cães, gatos, até canários", realça Miguel Carneiro.
Além de grande relevância económica, o coelho doméstico é muito usado como modelo de estudos em toxicologia, embriologia, osteoporose ou evolução.
Pela sua parte, Ferrand de Almeida vai lançar este ano um projecto de investigação do genoma do coelho com o Instituto Broad (ligado ao MIT e à Universidade de Harvard), nos Estados Unidos, e com a Universidade de Upsala, na Suécia. O genoma do coelho já foi sequenciado pelo Instituto Broad, há menos de dois anos, e agora a ideia é sequenciar genomas de diferentes raças de origens distintas. "Queremos perceber o efeito da domesticação nas diferentes raças", explica o coordenador do Cibio.
Outra coisa que vai estudar-se neste projecto é o caminho evolutivo que as duas subespécies de coelhos estão a tomar. A perda de fertilidade quando ambas se cruzam reprodutivamente é um sinal de que estão a separar-se, pelo que os cientistas podem estudar a formação das espécies em tempo real. "Estão a caminho de se tornarem duas espécies diferentes. É um modelo fabuloso para o estudo da origem das espécies", diz Ferrand de Almeida.
Para os próximos tempos, esperam-se então mais capítulos da história do coelho, que "é tão rica", remata Ferrand de Almeida.