sexta-feira, 30 de abril de 2010

Relações Portugal-Espanha

"Decidi preparar a invasão de Portugal"
(PÚBLICO) 2009.Out.23 | Maria José Oliveira

Em 1940, o Alto Estado-Maior espanhol elaborou, a pedido de Franco, um plano de ataque a Portugal, com a ocupação de Lisboa e a tomada de toda a costa nacional. O documento foi descoberto pelo historiador espanhol Manuel Ros Agudo, que estará em Lisboa, na terça-feira, para dar uma palestra sobre o tema
O plano não permitia qualquer falha. Tudo começaria com um ultimato (impossível de cumprir) e um prazo limite de 24 horas ou 48 horas, findas as quais teria início a invasão de Portugal.
A operação incluía intervenções por terra, ar e mar e as primeiras incursões terrestres, realizadas por um contingente de 250 mil combatentes espanhóis, avançariam em direcção a Ciudad-Rodrigo, Guarda, Celorico da Beira, Coimbra, Lisboa, Elvas, Évora e Setúbal – a ocupação da capital e a divisão do país em três parcelas constituíam os passos fundamentais para a conquista de Portugal. Ao longo de quase 70 anos, o Plano de Campanha n.º 1 (34), o grande projecto de Franco para invadir Portugal, delineado em plena II Guerra Mundial (1940), esteve "adormecido" nos arquivos da Fundação Francisco Franco. Os rumores da tentação franquista de conquistar Portugal há muito que circulam no meio historiográfico – até porque uma das grandes orientações da política externa de António de Oliveira Salazar, durante o conflito mundial, consistia na independência nacional face à ameaça da anexação espanhola. Mas só recentemente foi possível confirmar que os temores de Salazar tinham justificação.
Em 2005, o historiador espanhol Manuel Ros Agudo foi o primeiro investigador a aceder às cem páginas que compõem o plano de ataque contra Portugal, elaborado pela 1.ª secção do Alto Estado-Maior (AEM) espanhol no segundo semestre de 1940. O ineditismo da descoberta levou o investigador, de 47 anos, a dedicar-lhe um capítulo na sua obra A Grande Tentação - Franco, o Império Colonial e o projecto de intervenção espanhola na Segunda Guerra Mundial, recém-editada em Portugal pela Casa das Letras. Na próxima terça-feira, Ros Agudo é um dos oradores da conferência A Península Ibérica na II Guerra Mundial - Os planos de invasão e defesa de Portugal, a realizar no Instituto de Defesa Nacional, a partir das 14h30, numa iniciativa conjunta com o Instituto de História Contemporânea.
Devastador e célere
O projecto de invadir Portugal não configurava uma "acção isolada", como se pode ler numa das alíneas dos documentos analisados por Ros Agudo. Tratava-se de uma operação preventiva, no âmbito da ambição franquista de declarar guerra à Inglaterra. Numa altura em que França já caíra sob o domínio da Alemanha nazi, Espanha, então com o estatuto de país não-beligerante, acalentava o sonho de um império norte-africano. Nem Hitler nem Mussolini podiam, em 1940, garantir a Franco a concretização deste desejo. Mas isso não fez esmorecer as ideias expansionistas e bélicas do "Caudilho".
A guerra contra a Inglaterra teria início com a tomada de Gibraltar. Porém, os estrategas do AEM prenunciavam que a primeira resposta britânica a este ataque fosse "um desembarque em Portugal com a ideia de montar uma cabeça-de-ponte para a invasão da península". Por isso, no plano ofensivo, determinava-se o emprego dos "meios necessários para bater o Exército português e o seu Aliado; ocupação do país e defesa das suas costas".
Tudo isto seria realizado sem o conhecimento prévio de Hitler e Mussolini. Porque Franco "queria manter o carácter secreto das operações, ter liberdade de manobra e também por questões de orgulho", explicou Ros Agudo ao P2. Contudo, após iniciados os ataques a Gibraltar e a Portugal, Espanha previa o apoio da aviação alemã, "nomeadamente com o reforço de bombardeiros e caças". A participação da aviação espanhola estava também definida no plano de ataque (com as missões de "destruir a aviação inimiga e as suas bases" e de "atacar os núcleos de comunicação, especialmente nas direcções da invasão, e os transportes de tropas"). Mas Espanha receava que o vasto contingente de homens em terra se confrontasse com a superioridade luso-britânica no ar. Neste âmbito, o reforço alemão seria indispensável. Assim como se afigurava prioritário um ataque terrestre devastador e célere.
Para a Marinha, o AEM planeara um conjunto de acções de defesa ("exercer acções com os submarinos sobre as comunicações inimigas", "proteger as comunicações com o Protectorado de Marrocos e Baleares"; "efectuar acções de minagem nos próprios portos") que pressupunham uma reacção rápida da Marinha britânica.
E Salazar?
Em Dezembro de 1940, quando Franco escreveu, assessorado pelo AEM, que decidira atacar Portugal – "Decidi [...] preparar a invasão de Portugal, com o objectivo de ocupar Lisboa e o resto da costa portuguesa" –, o Tratado de Amizade e Não Agressão, firmado pelos dois países em Março de 1939, não passava de um documento sem importância para o "Caudilho". Mas foi a partir desse acordo que os franquistas intensificaram as pressões diplomáticas para Portugal deixar de respeitar os compromissos da aliança luso-britânica: fizeram-no através de Nicolau Franco, irmão do ditador espanhol e embaixador em Lisboa; e também "aconselharam" o então embaixador português em Madrid, Pedro Teotónio Pereira.
Perante os planos de anexação, Espanha não desprezava apenas o pacto de não agressão, mas também a intervenção activa e material do Governo de Salazar no apoio aos franquistas durante a Guerra Civil de Espanha – três a cinco mil "viriatos" combateram nas fileiras das milícias da Falange, do Exército e da Legião espanhola, muitos deles recrutados através de anúncios nos jornais pagos pelo Estado; a rádio emitia propaganda franquista; e Salazar promoveu a mobilização anticomunista (recolhendo benefícios para a sustentação do Estado Novo).
Atentando no rigor e na determinação plasmadas no Plano de Campanha nº 1 (34), urge questionar qual o destino que reservava Franco para o ditador português, na eventualidade de a ocupação ter avançado.
A documentação descoberta por Ros Agudo cinge-se aos aspectos puramente militares e não contempla a "sorte pessoal" do presidente do Conselho. Mas o historiador, professor de História Contemporânea na Universidade San Pablo, em Madrid, avançou ao P2 duas hipóteses: "O destino de Salazar e do seu Governo, no caso de Portugal não conseguir resistir à invasão, seria estabelecerem-se nas colónias (Angola ou Moçambique); ou podiam exilar o Governo em Londres, como aconteceu com alguns países europeus ocupados pelo Eixo".
Palavras encomendadas
Quanto ao futuro de Portugal, não há qualquer referência nos documentos, ficando sem resposta a pergunta sobre se a ocupação seria ou não temporária. No entanto, Ros Agudo cita no seu livro as "inquietantes" palavras de Serrano Suñer, ministro dos Assuntos Exteriores espanhol, ao seu homólogo alemão, Joachim von Ribbentrop, datadas de Setembro de 1940: "(...) ninguém pode deixar de se dar conta, ao olhar para o mapa da Europa, que, geograficamente falando, Portugal na realidade não tinha o direito de existir. Tinha apenas uma justificação moral e política para a sua independência pelo facto dos seus quase 800 anos de existência".
Ros Agudo acredita que estas palavras, proferidas em Berlim, foram "encomendadas" a Suñer por Franco, com a intenção de averiguar "a reacção de Hitler perante a ideia de um Portugal integrado num futuro grande Estado ibérico". Mas "o Führer não quis fazer qualquer compromisso sobre este assunto", nota o historiador.
Apesar das declarações de Serrano Suñer, Manuel Ros Agudo não crê que Franco pretendesse "uma integração pura e dura num Estado ibérico" Porque isso arrastaria "muitos problemas". "É possível que, sob uma Nova Ordem europeia, na eventualidade da vitória fascista e da derrota da Grã-Bretanha, Franco tivesse permitido a existência de um Portugal marioneta, fascista e inofensivo", diz. E, continuando num exercício de História virtual, acrescenta: "Se a Rússia tivesse sido eliminada por Hitler, o grande confronto, ou a Guerra Fria dos anos 50 e décadas posteriores, teria acontecido entre os EUA, por um lado, o grande bloco euro-africano fascista, pelo outro, assumindo este último um papel semelhante ao bloco soviético que conhecemos. Tanto Espanha como Portugal teria feito parte desse bloco constituído pelas potências do Eixo".
Nos últimos meses de 1940, o Plano de Campanha n.º 1 (34) esteve prestes a ser realizado. Franco ordenara a prontidão militar para o ataque. Mas o que lhe sobrava em meios operacionais faltava-lhe em condições políticas, nomeadamente a garantia dos apoios alemão e italiano e a concretização das ideias imperialistas. "Os requisitos políticos para dar esse passo – as garantias de obtenção de um império em África – acabaram por não ser dados", explica Ros Agudo.
O plano foi então depositado em arquivo e tornado inacessível durante quase sete décadas.

domingo, 7 de março de 2010

FUGA DO FORTE DE PENICHE


Uma «machadada» no Estado Novo e na toda poderosa PIDE? Foi em Janeiro de 1960.

A fuga que derrotou Salazar e a PIDE, há 50 anos
(DN) 2010.Jan.03 | Irene Pimentel
Evasões de presos políticos durante o regime salazarista, houve-os desde a criação, em 1933 da polícia política – PVDE –, e até 1961, quando, na sequência das ousadas fugas colectivas de Peniche e de Caxias, a PIDE e os Serviços Prisionais colocaram “trancas à porta”. Antes de 1945, fugiram do forte de Peniche, situado junto ao mar, Francisco Horta Catarino e José dos Santos Rocha, em 2 de Maio de 1936, bem como Álvaro Marques Saraiva e António Branco, em 19 de Julho de 1938. Após a criação da PIDE, as fugas de Peniche tornaram-se mais difíceis. Mesmo assim, conseguira escapar desse forte Joaquim Pinto Portela, em 1946, e, na noite de 2 para 3 de Novembro de 1950, dois funcionários do PCP, Jaime Serra e Francisco Miguel Duarte, embora o segundo tivesse sido recapturado. Três anos depois, foi a vez de se evadir, na madrugada de 19 de Dezembro de 1954, o dirigente comunista António Dias Lourenço. Tratou-se de uma fuga muito arrojada, pois envolveu serrar uma abertura na almofada inferior da porta da cela de «segredo» onde ele estava encarcerado, de castigado, descer os vinte metros até ao mar, através de uma corda a partir de três mantas e nadar até terra.
Foi porém a fuga colectiva de Peniche, que ocorreu há 50 anos, em 3 de Janeiro de 1960, que foi a mais importante, audaciosa e bem sucedida evasão. Com a fuga colectiva de Caxias, ocorrida no ano seguinte, com outros 8 elementos do PCP, a de Peniche ficou na memória e na história do PCP, mas também da oposição ao regime, como uma estrondosa vitória desse partido contra o governo ditatorial e a PIDE, em particular. Conseguiram então escapar da fortaleza os dirigentes do PCP Jaime Serra, Pedro Soares, Rogério de Carvalho, Álvaro Cunhal, Guilherme da Costa Carvalho, José Carlos, Carlos Costa, Rogério de Carvalho Joaquim Gomes dos Santos, Francisco Martins Rodrigues, bem como José Augusto Jorge Alves, um soldado da GNR de serviço em Peniche, que facilitou a fuga.
Jaime Serra relatou como decorreu a evasão. Contou que as condições de segurança do forte de Peniche tinham sido então reforçadas e que os «presos considerados “mais perigosos” haviam sido concentrados no terceiro piso, a sua maioria em celas individuais de alta segurança». Era ali que se encontrava Álvaro Cunhal e os três novos “hóspedes” acabados de chegar em Janeiro de 1959, Joaquim Gomes, Pedro Soares e o próprio Jaime Serra. Passado o chamado “período de observação”, começaram a ter recreio em comum e formaram, com outros, «um organismo restrito com a incumbência exclusiva de estudar sistematicamente todas as hipóteses de fuga». Numa «dada altura, por meados de 1959, o camarada Joaquim Gomes conseguiu meter conversa através das grades da janela da sua cela, com o GNR que viria a ser a chave mestra da fuga, o soldado Jorge Alves», concluindo que este era «uma pessoa revoltada».
Por outro lado – acrescentou Serra –, em «virtude de um comportamento calculado, na relação com os carcereiros», os presos haviam «conquistado nesse período uma série de “regalias”», que aumentaram as possibilidades de contacto entre os presos. Dessa forma, nos «últimos meses de 1959, o plano de fuga avançou rapidamente na sua concretização graças ao trabalho desenvolvido no exterior pelo Secretariado do Comité Central, constituído então pelos camaradas Octávio Pato, Joaquim Pires Jorge e António Dias Lourenço». Leia-se a descrição de Serra da fase seguinte da fuga:
«A segunda fase da operação desenrolou-se no exterior do bloco prisional, sob a responsabilidade do guarda Jorge Alves.
Como estava previsto, juntamente com o camarada Álvaro Cunhal, constituímos o primeiro grupo a percorrer, sob a capa do guarda Jorge Alves, a distância que nos separava de uma horta existente num terreno subjacente à muralha da Fortaleza por onde íamos descer.
Tendo alcançado o torreão da fortaleza, tratámos de amarrar solidamente a uma fresta desse torreão uma ponta da “corda” de tiras de lençol por onde descemos. A partir daí tudo foi fácil. Saltámos o último obstáculo, o muro exterior do fosso, e encontrámo-nos de imediato a atravessar o “largo do jogo da bola” misturados com muitos populares que vinham de assistir ao jogo de futebol, discutindo em voz alta o seu resultado. Chegámos assim ao local de encontro previamente marcado, onde nos esperava um camarada conhecido, ao volante do seu carro. Ali aguardámos a chegada dos outros camaradas fugitivos que, segundo o combinado, deveriam participar connosco na retirada, entre eles o Joaquim Gomes e o guarda Jorge Alves» (Jaime Serra, Eles Têm o Direito de Saber, Ed. Avante, 1997).
A fuga do forte de Peniche foi profundamente analisada, nos escalões mais altos do PCP, num trabalho de crítica e procura das «razões do êxito» e das «deficiências verificadas». Da discussão resultou um documento da Comissão Política do CC desse partido, de Maio de 1960, onde eram consideradas seis «razões» para o «êxito»: a cuidadosa e demorada preparação e organização; a coordenação da actividade no interior e exterior; a concentração de preocupações, recursos e quadros; a preparação no interior, na base da centralização da responsabilidade num organismo restrito, harmonizada com a prática de trabalho colectivo e de discussão democrática; coragem, serenidade e disciplina e os sentimentos antifascistas do povo português. Quanto às deficiências, foram apontadas três, verificadas no interior da cadeia, e seis, que ocorreram no exterior. Entre estas, contaram-se a perda de documentação, antes da fuga, cuja apreensão pela PIDE poderia ter inutilizado todos os esforços; falta do aviso combinado fixando a data; marcação de um sítio em lugar diferente do combinado e execução de outro sítio também em lugar diferente do combinado e desconhecimento do trajecto e insuficiente estudo dos troços, que provocaram demoras na retirada (Arquivo do Tribunal da Boa Hora no ANTT, proc. 92/62, Octávio Paro e Albina Fernandes, caixa 703, 2.º juízo, volume 20, fl. 1071, «A fuga do forte Peniche»).
José Dias Coelho, funcionário do PCP que viria a ser assassinado pela PIDE, no ano seguinte, afirmou que, «depois da fuga, o capitão Neves Graça foi demitido do cargo de director da PIDE, e substituído pelo tenente-coronel Homero de Matos», dando a entender que a demissão foi consequência directa da evasão. É um facto que o período de 1959/1960, foi marcado por «dois factos sensacionais», que, segundo Mário Soares vieram «destruir o “mito” de infalibilidade da PIDE, demonstrando tratar-se de uma organização fundamentalmente “burocrática”, um colosso com pés de barro, que só descobre, afinal, aquilo que os presos lhe dizem, mediante “confissões», as mais das vezes arrancadas por violência. Os dois factos foram as fugas do capitão Henrique Galvão, do hospital de Santa Maria, e dos dez dirigentes do PCP, do Forte de Peniche, «dois golpes» com os quais «o prestígio da PIDE ficou singularmente abalado», tendo sido «indescritível a alegria que qualquer deles provocou no comum da população, mesmo entre a gente não politizada». Depois, «duas outras fugas haviam de comprovar este acerto»: a «proeza invulgar de um grupo de dirigentes do partido comunista, que conseguiu fugir do Forte de Caxias, prisão privativa da PIDE ultra-controlada, aproveitando um carro blindado de Salazar – facto que ocorreu em Dezembro de 1961; e, em 1969, a fuga da prisão da PIDE, do Porto, do dirigente revolucionário do LUAR, Hermínio da Palma Inácio (Mário Soares, Portugal Amordaçado, Arcádia, 1974).

quinta-feira, 4 de março de 2010

Mais um quadro de Van Gogh


“Le Blute Fin”, data de 1886
Descoberto um novo quadro de Van Gogh, o primeiro desde 1995
(PÚBLICO) 2010.Fev.25
Trinta e cinco anos depois de ter sido comprada por um coleccionador de arte que acreditava ter em sua posse um Van Gogh, uma pintura do moinho de Montmartre, um bairro parisiense, foi finalmente autentificada como sendo do pintor holandês. Trata-se de “Le Blute Fin”, datado de 1886, descoberto na Holanda, e só agora atribuído a Van Gogh pelo museu com o seu nome.
Tudo começou em 1975, quando Dirk Hannema, antigo director do museu Boymans, em Roterdão, comprou a um comerciante de arte por cerca de mil euros, no valor actual, “Le Blute Fin”, um quadro de 55 por 38 centímetros, que acreditava tratar-se de um Van Gogh. Tinha tanta certeza que tinha em mãos um trabalho do pintor que o assegurou por 35 mil euros. Mas não conseguiu reunir apoio junto dos especialistas e o quadro ficou “escondido” no depósito do museu De Fundatie, em Zwolle, no centro da Holanda. Tudo porque em 1937Dirk Hannema afirmou que tinha em sua posse um quadro de Johannes Vermeer, outro dos grandes nomes da pintura holandesa, mas após análises ao quadro, este revelou-se falso. O caso viria a tornar-se no maior escândalo do mundo da arte na Holanda. Hannema morreria em 1984 sem conseguir provar que “Le Blute Fin” tinha sido pintado pelo mestre do Impressionismo.
Depois de décadas trancado no De Fundatie, o Museu Van Gogh de Amesterdão confirmou ontem que “Le Blute Fin” é de facto um Van Gogh. Louis van Tilborgh, conservador do museu Van Gogh e um dos responsáveis pela autentificação de obras, citado pela edição online do “El Pais”, explica que o quadro suscitou sempre várias dúvidas, além das criadas pela reputação do seu proprietário. “Trata-se de um tema duvidoso escolhido por Van Gogh. Tem figuras muito grandes e coloridas, pouco frequentes no seu trabalho”. Mas após análises mais alargadas, Louis van Tilborgh e a sua equipa concluíram que se tratava de um Van Gogh autêntico através de marcas que o pintor fazia para se orientar na perspectiva e de pigmentos usados na época em cores como o roxo e o verde.
Em “Le Blute Fin”, o Museu Van Gogh reconhece que se trata de um tema “raro” retratado pelo pintor “mas que se encaixa no que fazia em 1886”, data da pintura.
Dirk Hannema não vai assistir à sua “vitória” no próximo dia 4 de Julho, data a partir da qual dia o novo quadro descoberto de Van Gogh irá estar em exposição no museu. A instituição recusa-se a avançar um valor monetário para a obra, que diz ser “incalculável”.

FIM DO «SONHO DA ÍNDIA»

A 18 de Dezembro de 1961 chegava ao fim a presença portuguesa na Índia, ou melhor, porque ficou ainda muito património, o que chegou ao fim foi a soberania nacional. Contra os ventos da História, Portugal continuava a alimentar o "desígnio" do Portugal do Minho a Timor. Tantos anos depois, um eco na nossa imprensa:

Os jornais e a invasão de Goa
(DN) 2009.Dez.16 | Valentino Viegas*
Foram deturpadas as informações sobre aquela invasão e escondida a verdade ao povo português
Recordar e meditar sobre as questões do passado é mergulhar nas profundezas das contradições do presente. Faz sexta-feira 48 anos que se deu a invasão de Goa, precisamente no dia 18 de Dezembro de 1961.
Hoje, que tanto se questiona sobre a validade dos conteúdos divulgados pelos órgãos de comunicação social, em particular pelos jornais, se alguém pretendesse efectuar um estudo sobre aquele acontecimento, apenas com base nos jornais goeses, dificilmente poderia concluir que Goa viria a ser invadida por tropas da União Indiana, muito embora nos diários de Portugal continental já se desse como certa aquela invasão.
Por ter sido criada essa expectativa, a população metropolitana viveu, com muito maior antecedência do que a goesa, o drama desenrolado na terra onde vi avançar os tanques indianos, porque os seus jornalistas, em vez de respeitarem os sentimentos dos familiares dos soldados e procurarem minorar a ansiedade, a dor e o sofrimento dos seus compatriotas, divulgaram informações falsas sobre a real situação ali vivida.
Foi a partir da tarde do dia 18 que a União Indiana teve o domínio quase total de fontes informativas, pois a emissora de Dabolim havia sido destruída pela aviação e o Aviso Afonso de Albuquerque silenciado pelos seus vasos de guerra.
Como as informações que iam chegando eram de origem duvidosa e suspeita, os jornalistas portugueses começaram a divagar, agarrando-se como tábua de salvação às palavras proferidas pelo governador-geral, general Vassalo e Silva: "Resistiremos até ao fim!"
Neste contexto, no dia 19, o jornalista de O Século não só inventa combates encarniçados durante algumas horas em redor da cidade de Pondá como afirma existirem baixas elevadas de parte a parte, inclusive com aprisionamento de alguns soldados indianos. Não lhe quis ficar atrás o Diário de Notícias e, além de mencionar bombardeamentos imaginários contra a Escola Naval de Goa, o porto e os depósitos de gasolina de Mormugão, escreveu esta patranha inqualificável: "durou oito horas a violentíssima luta que precedeu a tomada de Pangim."
Contudo, depreende-se que o Governo português recebia outro tipo de informações sobre a real situação em Goa, razão pela qual o jornal O Século faz sair uma nota da parte do embaixador português dr. Pedro Teotónio Pereira, desmentindo que "o Governo e as forças militares de Goa tenham deixado de opor resistência", caindo assim em contradição com a mensagem do correspondente da Reuters, Gordon Martin: "Às primeiras horas de hoje, 19, as tropas indianas atravessaram o rio Mandovi e entraram em Pangim, capital de Goa."
O mesmo jornal, no dia 20, sem se importar com a angústia dos familiares do Aviso Afonso de Albuquerque, intitula desta maneira um artigo seu: "Foi para o fundo o Afonso de Albuquerque, que deste modo honrou até ao fim o seu nome glorioso".
E apesar de se saber que o governador-geral tinha assinado a rendição às 14 horas locais do dia 19, noticiou também que havia sido escutado às 15 horas "um posto emissor de Goa informando que prosseguiam encarniçadamente os combates para a defesa de Pangim, a capital".
No dia 20, divulga esta comunicação da Embaixada portuguesa sedeada em Paris: "Centenas de mortos em Goa entre as tropas e a população civil." Em 21, ainda tem o desplante de escrever esta notícia espantosa: "Combates corpo a corpo em que os inimigos foram rapidamente vencidos chegaram a travar os portugueses no seu reduto de Mormugão com marinheiros indianos que tentavam desembarcar."
O criador desta notícia, que devia conhecer o Plano de Operações Sentinela, a ser accionado e posto em prática pelos defensores portugueses em Goa, com base na estratégia ali idealizada, dá vida real àquele plano e cria à sua volta um filme de ficção sobre a guerra, onde os heróis lusitanos não só enfrentam e aguentam um violento assalto por terra como vencem fácil e rapidamente os marinheiros indianos em combate corpo a corpo, depois de meterem a pique as suas lanchas de desembarque.
Uma semana após o início da invasão, incapazes de aceitar a realidade dos factos, os seus jornalistas ainda acreditavam que persistia a luta de guerrilhas.
Em consonância com o seu método de tratamento das informações, no dia 30, sem o mínimo respeito pela vida dos militares portugueses aprisionados em Goa, divulga a nota distribuída pelo gabinete do ministro do Exército, em letras gordas e garrafais, com o seguinte título: "1018 baixas de militares?", quando, durante a invasão do Estado da Índia Portuguesa, haviam morrido 25 militares, dos quais quinze em Goa, sete em Damão e três em Diu.
Como os governantes ainda acreditavam que as ordens emanadas na última mensagem de Salazar estavam a ser cumpridas, do "sacrifício total", ali exigido aos militares portugueses, só podia resultar centenas e centenas de vítimas.
De facto, havia uma perfeita sintonia e uma apurada coordenação entre as chefias dos principais centros de decisão. Em consequência, os canais de comunicação entre o Governo, no seu todo, o Ministério do Exército, em particular, e os jornais, funcionavam a uma só voz.
Em jeito de conclusão, podemos afirmar que, devido à incompetência e irresponsabilidade de jornalistas metropolitanos, foram deliberadamente deturpadas as informações sobre aquela invasão e escondida a verdade ao povo português.
*Historiador

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

HOMENAGEMA GALILEU


Noite de 7 de Janeiro de 1610
Galileu observou as luas de Júpiter faz hoje 400 anos

Em seis meses, após ter visto referências a uma luneta inventada pelo holandês Hans Lipperhey, Galileu Galilei já tinha aumentado a potência do seu telescópio, o primeiro, em 32 vezes.
Na noite de há 400 anos precisos, o homem que reafirmou as teses de Copérnico, sustentando que a Terra gira em torno do Sol como outros planetas, observou que Júpiter tem luas próprias. Galileu, em honra de quem tem vindo a ser comemorado o Ano Internacional da Astronomia (prolongado até Março deste ano) estudou medicina, mas a sua vida foi dedicada à matemática, física e astronomia. As suas observações, ainda no ano de 1609, desvendaram uma Lua com crateras e montanhas e uma Vénus com fases. Da Via Láctea contestou a ideia de uma mancha de natureza mística para revelar tratar-se de "uma incontrolável multidão de estrelas amontoadas".
Autor de diversos livros, alguns com circulação interdita pelo Index da Igreja Católica, fez experiências e moldou teorias sobre o movimento pendular, o peso e velocidade da queda dos corpos, demonstrando que o ar pesa pouco, mas pesa. A sua concepção do Universo valeu-lhe um processo do Santo Ofício que o remeteu para regime de prisão domiciliária. Só em 1992 a Igreja Católica o "reabilitou". Pressionado a abjurar da defesa das suas ideias, que retiravam à Terra o centro parado do mundo, Galileu terá dito, pouco resignado: "E no entanto ela move-se".
JN, 2009.Jan.07 / Eduarda Ferreira

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

SÍMBOLO DE ROMA


A loba de Roma é 1800 anos mais nova

(PÚBLICO) 11.07.2008, Joana Caldeira Martinho

A famosa escultura não é etrusca, mas medieval, dizem os especialistas
Afinal, o símbolo da fundação da cidade de Roma não é assim tão antigo. Testes científicos revelaram que a Lupa Capitolina, a escultura em tamanho real que representa uma loba a amamentar os gémeos Rómulo e Remo (segundo a lenda, os fundadores da cidade), é cerca de 1800 anos mais nova do que se pensava.
A notícia de que a famosa estátua de bronze não foi feita na época etrusca (século V a.C.) como até agora se pensava, mas sim na época medieval, fez a primeira página do diário italiano La Repubblica. Segundo o jornal, os resultados dos testes efectuados garantem que a loba foi criada no século XIII.
De acordo com a BBC, os 20 testes de carbono 14 (método que permite saber a idade de um artefacto) foram feitos pela Universidade de Salerno. A investigação foi anunciada a 28 de Fevereiro de 2007 pelos responsáveis dos Museus Capitolinos, onde a escultura está exposta. Só a 31 de Outubro do mesmo ano se soube que os testes tinham sido efectuados, mas os resultados não foram revelados até anteontem.
O mito
Tal como o Coliseu, a loba é uma das marcas de Roma. Benito Mussolini adoptou a figura da Lupa Capitolina durante o regime fascista, por ser conotada com o imperialismo romano. É o símbolo do Roma, clube de futebol da cidade, e foi usada nos Jogos Olímpicos de 1960, realizados na capital italiana.
O mito conta como os gémeos Rómulo e Remo foram atirados ao rio Tibre e salvos por uma loba, que os criou. Mais tarde, Rómulo assassinou o irmão numa disputa pelo trono da nova cidade e tornou-se o primeiro rei de Roma.
A discussão sobre a origem da estátua remonta ao século XVIII e os especialistas sabiam já que as figuras de Rómulo e Remo tinham sido acrescentadas à escultura da loba, no Renascimento. As representações do mito abundavam na Roma antiga e, segundo relatos do filósofo romano Cícero, uma dessas estátuas teria sido atingida por um raio, no ano de 65 a.C., ficando com uma pata danificada, tal como a estátua actual, segundo o Guardian.
A atribuição da origem etrusca à estátua aconteceu no século XVIII e é da responsabilidade do historiador de arte alemão Johann Winckelmann, que se baseou nas características da representação do pêlo do animal, diz ainda o diário britânico. Mas muitos especialistas duvidaram desta tese, atribuindo as características da escultura à época medieval e afirmando que a pata danificada se devia a um defeito de fabrico, explica o La Repubblica.
Em 2006, Anna Maria Carruba, historiadora de arte que colaborou na restauração da estátua entre 1997 e 2000, afirmou que a loba tinha sido fundida como uma única peça, num molde de cera, uma técnica utilizada na Idade Média e desconhecida antes dessa época, de acordo com a BBC.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

E os dentistas doutras eras?

Só por curiosidade,

Dentistas de há 6000 anos

Os dentes postiços, o tratamento dos dentes cariados e as dentaduras completas não são, de modo algum, invenções modernas. Há seis mil anos, talvez muito antes de ter aparecido a civilização grega, a arte dos dentistas havia chegado a um alto grau de perfeição. Já Cícero no seu tratado «De Natura Deorum», atribui a invenção de tirar os dentes a Esculápio, terceiro deste nome. Segundo o «British Medical Joumal», a primeira menção que nos livros antigos se faz das doenças dos dentes, encontra-se em Hipócrates, que trata extensamente da dor de dentes em várias partes dos seus escritos. Os etruscos conheceram também a arte de arrancar dentes, que parece terem aprendido dos fenícios. No congresso internacional celebrado em Roma, em 1900, apresentou o professor Guerini vários instrumentos antigos que provam que na Itália se praticava, há já muitos séculos, cousa muito semelhante à ponte dental.

in Correio da Manhã, 20.Julho.1987