quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Tratado de Windsor consagra a aliança luso-inglesa


Os plenipotenciários do rei de Portugal, D. João I, e do rei de Inglaterra, Ricardo II, assinaram em Windsor, no dia 9 de Maio de1386.um tratado de aliança. Estipulava que entre os dois reinos existiria "uma liga, amizade e confederação real e perpétua, de maneira que um seria obrigado a prestar auxilio ao outro contra todos os que tentassem destruir o Estado do outro". Contemplava também o incremento do comércio marítimo e a circulação de cidadãos entre os dois países. Era a confirmação do tratado de aliança de1383, em que o Mestre de Aviz obteve apoio inglês na guerra contra Castela. Do lado português, o imperativo era a defesa contra as ambições do país vizinho. Do lado inglês, pesou também a reivindicação do trono de Castela por João de Gaunt, duque de Lencastre, filho de Ricardo II e casado com uma infanta castelhana. Por isso, um dos primeiros efeitos de Windsor é o casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre, filha de Gaunt, celebrado a 2 de Fevereiro de 1387. Filipa marcará decisivamente a II dinastia, mudando os hábitos da corte e educando exemplarmente os filhos, a "ínclita geração". O Tratado de Windsor passa por ser a mais antiga aliança do mundo ainda em vigor. Por entre muitas vicissitudes, significou "a comunidade de interesses"' entre duas potências marítimas perante as rivais, inicialmente a Espanha e a França. No século XX a aliança voltou a funcionar nas duas guerras mundiais.

(PÚBLICO) 2009.Maio.09

sábado, 4 de julho de 2009

Capela no Vaticano - Descoberto retrato de Miguel Ângelo


Um auto-retrato do génio do Renascimento, Miguel Ângelo, foi descoberto na Capela Paulina do Vaticano no decurso de uma restauração recente. Segundo o responsável para a restauração dos museus do Vaticano, Maurizio De Luca, no fresco Crucificação de São Pedro, o pintor aparece no canto esquerdo de turbante azul e ar "autoritário" perto dos três romanos que acompanham a crucificação.

(in PÚBLICO, 2009.Julho.03)

terça-feira, 30 de junho de 2009

UNESCO distingue a primeira cidade europeia nos trópicos


Cidade Velha de Cabo Verde é um dos 16 novos sítios Património da Humanidade. É uma estreia deste país africano de expressão portuguesa. Mas a intervenção arquitectónica aí em curso, de Siza Vieira e Helena Albuquerque, tem sido principalmente paga por espanhóis

A Cidade Velha de Cabo Verde é a única presença africana - e tem expressão portuguesa - na lista dos novos sítios classificados pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), na 33.ª sessão do comité do Património da Humanidade que decorreu na última semana em Sevilha, Espanha, e que hoje termina.
A organização avaliou 27 candidaturas e aprovou 11 novos sítios culturais e dois naturais, além da extensão de três outros. Em contrapartida, excluiu o vale do Elba em Dresden, na Alemanha (classificado em 2004), por considerar que o projecto de construção de uma ponte rodoviária no centro da cidade contraria os requisitos da UNESCO. Simultaneamente, entraram agora para a lista do património em risco os monumentos de Mtskhata, na Geórgia, a rede de recifes de Belize e o parque nacional Los Katios, na Colômbia.
A Cidade Velha, na ilha de Santiago, foi fundada em 1462 pelos portugueses segundo "um plano de urbanização ocidental decorrente do modelo renascentista", diz Paulo Pereira, historiador de arte, e foi mesmo "a primeira cidade colonial construída pelos europeus nos trópicos", acrescenta a nota da UNESCO. Foi ainda um importante entreposto comercial e de tráfico de escravos, afirma Paulo Pereira.
A presente classificação (que vem acrescentar-se à recente votação como uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo) veio trazer para a ordem do dia o estado do plano de recuperação patrimonial que para aí foi projectado pelos arquitectos Álvaro Siza Vieira e Helena Albuquerque, há uma década - e que foi tema do documentário, realizado por Catarina Alves Costa, O Arquitecto e a Cidade Velha (2004).
Helena Albuquerque, que viveu vários anos em Cabo Verde, diz-se satisfeita pelo significado que esta classificação tem para a população local. Mas - na ausência de Siza Vieira e falando apenas a título pessoal - lamenta que a intervenção e a cooperação portuguesas relativas ao plano arquitectónico e urbanístico "estejam paradas", e que os trabalhos até agora realizados tenham sido na sua maior parte "subsidiados pelos espanhóis", que aí quiseram preservar a acção desenvolvida no tempo dos Felipes. E cita, em particular, a construção da pousada e a recuperação da fortaleza e do Mosteiro de S. Francisco. "É uma enorme frustração ver que o Governo português não tenha dado sequência a esta intervenção", que Helena Albuquerque considera que seria "prioritária, e teria um custo reduzido", para a melhoria das condições de vida da comunidade local, que vai pouco além dos mil habitantes.
Um farol da humanidade
"O mundo diz-nos que sim, que o nosso farol é de toda a humanidade." A afirmação do alcaide socialista da Corunha, Javier Losada, ontem citada pelo El País, celebra a entrada na lista do mais antigo farol em todo o mundo ainda em actividade, conhecido como Torre de Hércules e ex libris desta cidade-porto da Galiza. É uma construção do século I, que faz da Espanha, agora com 40 sítios classificados, o segundo país mais citado na lista da UNESCO, logo a seguir a Itália.
A restante lista distingue mais nove complexos culturais e dois sítios naturais. Estes são o mar de Wadden, que banha a Alemanha e a Holanda e é um ecossistema temperado com uma multiplicidade de habitats naturais; e os montes Dolomitas, uma cadeia nos Alpes italianos que tem 18 picos com mais de 3000 metros de altitude.
Os sítios culturais são: o palácio Stoclet, em Bruxelas, um projecto de 1905 do arquitecto Josef Hoffmann, que foi construído para o banqueiro e coleccionador Adolphe Stoclet; as ruínas de Loropéni, no Burkina Faso, uma fortificação em pedra na região de Lóbi, na rota subsariana do ouro; o monte Wutai, no Norte da China, um complexo de mais de 50 mosteiros e que é uma dos lugares sagrados do budismo; o sistema hidráulico de Shushtar, no Irão, mandado construir por Dario, o Grande (séculos V e IV a.C.), uma rede de canais no rio Kârun, um dos quais ainda fornece água à cidade de Shushtar; a montanha sagrada de Sulamain-Too, no Quirguistão, no cruzamento da rota da seda na Ásia Central; a cidade sagrada de Caral-Supe, no Peru, um sítio arqueológico com 5000 anos que é a mais antiga cidade do género nas Américas; os túmulos reais da dinastia Joseon, na Coreia do Sul, um complexo de 40 sepulturas construídas em 18 sítios diferentes; a ponte-canal e o canal de Pontcysyllte, no Nordeste do País de Gales, construídos no século XIX, com uma extensão de 18 quilómetros e que é a expressão do génio civil da Revolução Industrial; e La Chaux-de-Fonds/Le Locle, duas cidades vizinhas nos montes do Jura, na Suíça, urbanizações do século XIX planificadas com o objectivo da servir a indústria relojoeira.

in (PÚBLICO) 30.06.2009, Sérgio C. Andrade

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Na Índia, Marrocos, Cabo Verde, Macau e Brasil moram as 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo

Costuma dizer-se que a primeira globalização foi a portuguesa e essa universalidade está bem patente nos monumentos anunciados ontem à noite, numa gala em Portimão, como as 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo. Fortaleza de Diu (Índia), Fortaleza de Mazagão (Marrocos), Basílica do Bom Jesus de Goa (Índia), Cidade Velha de Santiago (Cabo Verde), Igreja de São Paulo (Macau), Convento de São Francisco de Assis da Penitência (Ouro Preto, Brasil) e Convento de São Francisco e Ordem Terceira (Salvador da Baía, Brasil) foram as eleitas, em representação dos três continentes - América, África e Ásia - que fizeram a história da expansão marítima portuguesa. Na votação participaram 239.418 pessoas, que puderam votar pela Internet, telefone e SMS.O critério adoptado na identificação dos monumentos a concurso - 27 em 16 diferentes países - consistia no seu valor histórico e patrimonial. Cerca de duas mil pessoas assistiram ontem à declaração oficial dos vencedores, na Arena de Portimão, entre elas o ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, em representação do Governo português. Na gala actuaram vários nomes da música como Daniela Mercury, Maria João, Boss AC, Paulo Gonzo, Ricardo Ribeiro e Rabih Abou-Khali, Rui Veloso e Tito Paris. Relevar a presença de Portugal no mundo e projectar uma ideia cosmopolita do país eram, segundo a organização da New 7 Wonders, os objectivos da cerimónia. No final do espectáculo foi anunciada a realização de mais uma iniciativa do género, as 7 Maravilhas Naturais de Portugal, cuja declaração oficial será em 2010, nos Açores.As 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo foram criadas no contexto da declaração oficial das Novas 7 Maravilhas do Mundo, que aconteceu em Lisboa há dois anos. Nessa altura, em paralelo, foi organizada a eleição das 7 Maravilhas de Portugal, numa votação que envolveu cerca de 350 mil portugueses. Dos 21 monumentos que foram a votação, os escolhidos foram o Mosteiro de Alcobaça, o Mosteiro dos Jerónimos, o Palácio da Pena, o Mosteiro da Batalha, o Castelo de Óbidos, a Torre de Belém e o Castelo de Guimarães. 239 mil Na votação participaram 239.418 pessoas. Agora seguem--se, em 2010, as 7 Maravilhas Naturais de Portugal
in PÚBLICO 11.06.2009, Vítor Belanciano

Monumento em Ponte de Lima evoca lenda do Lethes

No dia em que Ponte de Lima revive a secular tradição da Vaca das Cordas, a câmara municipal inaugura, em ambas as margens do rio Lima, mesmo em frente à vila, um conjunto escultórico, evocativo da lenda do rio Lethes, rio do Esquecimento. As estátuas, com assinatura dos artistas plásticos Salvador Viera e Mário Rocha, pretendem perpetuar a passagem do general romano Decius Junius Brutus, e das suas tropas, por Ponte de Lima, no ano 135 a.C.
O episódio chegou aos nossos dias pelas palavras, por exemplo, de Almada Negreiros: "Comandadas por Decius Junius Brutus, as hostes romanas atingiram a margem esquerda do Lima no ano 135 a.C. A beleza do lugar as fez julgarem-se perante o lendário rio Lethes, que apagava todas as lembranças da memória de quem o atravessasse. Os soldados negaram-se a atravessá-lo. Então, o comandante passou e, da outra margem, chamou a cada soldado pelo seu nome. Assim lhes provou não ser esse o rio do Esquecimento." O monumento que reproduz a figura do comandante romano vai ficar instalado na margem direita do Lima,e o dos soldados no areal da margem esquerda. Ambos são em ferro e granito, e maiores do que o tamanho real.
in (PÚBLICO) 10.06.2009, Andrea Cruz

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Sete Maravilhas criticado por escamotear esclavagismo

(PÚBLICO) 03.06.2009, Sérgio C. Andrade

A uma semana da cerimónia de anúncio dos sítios vencedores e a quatro dias do fim da votação, o concurso 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo continua a gerar controvérsia. Ela surgiu agora na Internet, através de uma subscrição lançada por historiadores de várias universidades espalhadas pelo mundo, que contestam o facto de a informação associada aos sítios citados escamotear o papel histórico de Portugal na exploração do trabalho escravo. "Para ser fiel à história e moralmente responsável, consideramos que a inclusão desses 'monumentos' no dito concurso deveria ser acompanhada de informações completas sobre o papel deles no tráfico atlântico", diz o documento, que tem versões em português, francês e inglês.Entre os mais de 400 subscritores estão professores de universidades norte-americanas, do Canadá, Brasil e França, além da Universidade Nova de Lisboa. E estão os historiadores portugueses António Hespanha, que presidiu à Comissão dos Descobrimentos, Boaventura Sousa Santos, do Centro de Documentação 25 de Abril, e Miguel Portas, eurodeputado do Bloco de Esquerda.Dos 27 sítios e monumentos distribuídos por 16 países e três continentes colocados a votação, os subscritores referem especificamente a fortaleza de S. Jorge da Mina (Gana), a Cidade Velha na ilha de Santiago (Cabo Verde) e a Ilha de Moçambique, como lugares historicamente associados ao tráfego de escravos. E lembram que Portugal e, depois, o Brasil foram "responsáveis por quase metade dos 12 milhões de cativos transportados através do Atlântico". Lamentam, por isso, que o Governo português e instituições como a Universidade de Coimbra patrocinem esta iniciativa sem cuidar "da dor daqueles que tiveram antepassados seus deportados desses entrepostos comerciais e muitas vezes ali mortos".O historiador Pedro Dias, da Universidade de Coimbra, responsável científico pela escolha dos sítios, responde que os textos sobre cada um deles dizem apenas respeito "à sua dimensão histórico-artística". "Praticamente, e até ao século XIX, houve comércio de escravos em todos esses sítios", nota o ex-director da Torre do Tombo. "Mas isso não é relevante para o concurso", que tem essencialmente uma dimensão "estética e lúdica", defende Pedro Dias, recusando estar a esconder essa vertente, que marcou não só a história portuguesa, mas a de toda a humanidade.
Pedro Dias, responsável pela escolha dos sítios a concurso, diz que este tem uma vocação mais estética do que histórica

domingo, 31 de maio de 2009

PORTUGAL NO GOLFO HÁ 500 ANOS


Portugueses e persas 500 anos de fascínio
(PÚBLICO) 20.06.2008, Margarida Santos Lopes
Em 1507, Portugal chegou à Pérsia quando os safávidas impunham a religião xiita que domina o actual Irão. Até 1622, competiram como ideologias rivais pelo controlo de Ormuz. Olharam--se com desconfiança e fascinação. Mudaram a Eurásia e celebram agora 500 anos de relações
Ao olhar para uma representação da Pérsia e de Ormuz, num atlas de Teixeira de Albernaz do século XVII, que abre a exposição dos 500 anos de relações entre Portugal e o Irão, na Torre do Tombo, em Lisboa, o em-baixador Rasool Mohajer deixou-se maravilhar. Afinal, a imagem moderna do golfo por onde hoje passa 20 a 25 por cento do petróleo que o mundo consome deve muito a essa primeira cartografia.
Vindo de um país onde muitos documentos históricos se perderam devido a invasões, pilhagens ou desastres naturais, o diplomata recém-chegado a Lisboa ouviu atentamente a descrição empolgada que o comissário científico João Teles e Cunha ia fazendo de algumas das 42 peças expostas – mapas, cartas, crónicas, tratados, contratos, discursos.
Minutos antes, ao inaugurar a exposição (quatro vezes adiada), Mohajer já havia enaltecido a "ambição e a coragem dos portugueses que, para controlar os mares, percorreram oceanos e continentes, em barcos artesanais, descobrindo países antes desconhecidos". Realçou o simbolismo de "o primeiro embaixador estrangeiro na Pérsia" (em 1513) ter sido um português e de os portugueses terem chegado à região no momento em que os safávidas unificavam o país com uma religião única – o islão xiita duodecimal (que crê em 12 imãs ou líderes espirituais).
É esse islão xiita que impediu o embaixador de apertar a mão à secretária de Estado da Cultura e às outras mulheres (por serem estranhas e não familiares) presentes na exposição, embora os safávidas da corte do Xá Ismael fossem muito mais liberais do que os actuais iranianos. "Até bebiam vinho, o que escandalizou os portugueses", quando chegaram em 1507, diz-nos João Teles e Cunha.
Relações tensas
Se causou choque, também encantou, porque João de Barros, o cronista do império marítimo lusitano, que ordenou a tradução do primeiro texto literário persa para uma língua europeia (o português), se deixou deslumbrar por uma doutrina muito mais parecida com o cristianismo (crença numa divindade oculta) do que com o islão sunita.
"O xiismo só começa verdadeiramente a ser conhecido em 1503-1504", explica ao P2, por e-mail, Dejanirah Couto, a historiadora portuguesa que herdou, na École Pratique des Hautes Études, de Paris, a cátedra de Jean Aubin, provavelmente o maior estudioso do Golfo Pérsico, que morreu em 1998. "Os costumes sociais não eram os mesmos [dos mais conhecidos muçulmanos do Norte de África] – os persas do Xá Ismael da altura tinha uma cultura de herança chamanista/turcomana/nómada/das estepes da Ásia Central desconhecida dos portugueses."
Assim, quando Afonso de Albuquerque chegou com a sua armada em 1507 e depois em 1515, portugueses e persas olharam-se "com desconfiança, mas também fascinação", acrescenta Dejanirah Couto, autora com Rui Manuel Loureiro de Revisiting Hormuz: Portuguese Interactions in the Persian Gulf Region in the Early Modern Period. "O lado 'belicoso' dos portugueses era apreciado na Pérsia [sobretudo a técnica, armas e navios dos farang ou infiéis, "povo de ladrões que vivia no mar"]. O poder e a riqueza do Xá também impressionavam os portugueses."
No entanto, as relações eram "tensas", acrescenta. "Ormuz pagava um tributo aos persas (ao Xá Ismael desde 1504) e Albuquerque pretendeu confiscar em seu favor esse tributo. Os persas nunca apreciaram, e só não invadiram Ormuz porque havia uma longa tradição de independência do reino (e além disso o Xá estava ocupado com os otomanos)."
A aliança com os safávidas é atribuída por Teles e Cunha à necessidade de os portugueses "neutralizarem os mamelucos do Egipto, que dominavam o Norte do Iraque, Síria e Líbano (...), e bloquearem todas as rotas alternativas das especiarias". Dejanirah Couto acentua que os portugueses "queriam salvaguardar os domínios da Índia ameaçados pelo sultanato de Bijapur", xiita e aliado dos persas. "Fazendo aliança com os persas, salvaguardava-se a Índia (sobretudo Goa)."
Teles e Cunha destacou um pacto que Albuquerque e Ismael fizeram, caso derrotassem os mamelucos: o rei D. Manuel ficaria com Jerusalém e o xeque persa com Meca e Medina – ambos concretizariam "sonhos messiânicos de conquista mundial, com o objectivo de salvação e redenção, a fim de instaurar um governo justo". Dejanirah Couto confirma, mas ironiza: "Era um bluff de Albuquerque, apoiado nas ideias messiânicas de D. Manuel. Nem o Xá nem Albuquerque tinham forças para atacar Meca. Nesse bluff, Albuquerque até 'vendeu' o Gujarat ao Xá que, no entanto, não lhe pertencia. Era uma maneira de negociar politicamente."
Mas que impacto teria uma eventual vitória? "Ah! Teria desestruturado o 'bloco islâmico' com consequências incalculáveis para o Império Otomano que conquista o Egipto em 1517."
Albuquerque e Ismael
A exposição na Torre do Tombo centra-se sobretudo em objectos políticos e o seu comissário científico destaca que as relações entre um "império marítimo" (Portugal) e uma "potência terrestre orgulhosa da sua tradição cultural milenar" (Pérsia) foram sobretudo políticas. Dejanirah Couto corrobora, dizendo que "os primeiros contactos artísticos, pelo menos para a primeira metade do século XVI, foram poucos". Porque os portugueses "estão confinados a Ormuz, têm pouco contacto com a Pérsia continental".
"O contencioso político, e também económico, a propósito de Ormuz, e a questão da rivalidade, a propósito da Índia, dificultaram uma maior cooperação cultural, artística, literária e linguística", adianta. "A Índia está sempre presente em filigrana; a tensão só vai diminuindo no final do século XVI, mas acende-se de novo com o Xá Abbas (que não renunciou a Ormuz)." O rei que subiu ao poder aos 16 anos e se proclamava "sombra de Deus na Terra" expulsou os portugueses, em 1622.
Para Dejanirah Couto, "sem dúvida que Albuquerque e o Xá Ismael" são as figuras mais determinantes do período em que os portugueses - testemunhas da ascensão e declínio dos safávidas - permaneceram no Golfo. "É um grande duelo de negociação diplomática, embora por intermédio de personagens da corte persa, muito importantes para a gestão do reino, como Mirza Xá Hossein Esfahani. E mais tarde, com Rui Freire de Andrade/Xá Abbas, o duelo é quase o mesmo a um século de distância: ou seja, também para Abbas, em 1608 e em 1613, era importante o pagamento do tributo."
Hoje, o conhecimento mútuo é desequilibrado. Diz Dejanirah Couto: "O problema é a falta de especialistas em Portugal que dominem as línguas da região", sobretudo o árabe, o farsi e o turco. Ao resumir os préstimos nas respectivas línguas, o comissário Teles e Cunha lamenta: só umas 13 palavras portuguesas coexistem com o farsi (língua franca que influenciou mais o português). Exemplos: "tabáku" (tabaco), "ânânâs" (ananás), "miz" (mesa) e talvez "arghanun" (órgão), que os persas desconheciam antes de Albuquerque chegar.
500 Anos das relações entre Portugal e o Irão
Lisboa Torre do Tombo. Todos os dias excepto domingos e feriados, das 10h00 às 19h30. Sáb., das 10h00 às 12h00. Até 11 de Julho